O título deste artigo bem poderia ser: “Pastores protestantes fazem da fé um negócio altamente lucrativo”. Todavia, preferi manter o título acima porque ele é sucinto e indica inequivocamente o que muitos pastores protestantes estão fazendo com a fé. Notadamente pastores protestantes do ramo pentecostal, que se especializaram em transformar a fé num verdadeiro negócio. E que negócio! Sem impostos, basta uma pequena taxa inferior a 100 reais para se abrir uma “igreja”, registrar em cartório e obter o CNPJ, o que torna a “igreja” apta a receber ainda ajuda e subvenções de órgãos governamentais. Não é preciso estudo, nem diploma, nem nenhuma espécie de preparação filosófica e teológica. O que cair na sacola é lucro. Basta ter um bom discurso na cabeça e nos lábios, de preferência centrado na Bíblia e tendo Deus como fiador, e saber lidar com a sensibilidade religiosa do brasileiro. Daí por diante é só ter tato para saber explorar a boa fé do povo. “Ou dá ou desce”, como diz o “bispo” Edir Macedo.
Por muito menos do que temos visto hoje, Lutero se rebelou contra a Igreja dando origem ao movimento de Reforma conhecido como protestantismo. Contrariando um desejo explícito de Jesus, esfacelou a Igreja, dividindo-a em milhares de partes, algumas das quais, a rigor, não merecem nem o título de cristã nem o de protestante, pois vivem exatamente daquilo contra o que Lutero brigou e se insurgiu.
Nas últimas décadas temos observado o fenômeno de conversão de um enorme contingente de pessoas para as igrejas evangélicas, especialmente as do ramo pentecostal. Em sua maioria, são pessoas oriundas de um meio religioso de massa, praticantes de uma religiosidade superficial, cheia de superstições e cultos a fetiches e amuletos, venerados como seres sobrenaturais. Salvo exceções, são pessoas que não foram evangelizadas, cuja fé não tem base bíblica e teológica, e que buscam na religião algum tipo de ajuda e solução para seus problemas pessoais, quase sempre de saúde ou de ordem financeira.
Há um tipo clássico de “convertido” que migra de religião porque está desesperado com sua situação pessoal, no mais das vezes endividado ou desempregado, com problemas de saúde na família, não raro com filho drogado e marido alcoólatra. Enquanto militou no catolicismo nunca foi evangelizado em bases sólidas. Foi devoto de Santa Rita de Cássia e Santo Expedito que, no catolicismo popular, são patronos dos casos impossíveis e desesperados. Durante anos conviveu com esse tipo de religiosidade, fazendo promessas a esses santos na esperança de mudar de vida. Não conseguiu. Como sua fé não era sólida, frustrou-se e tornou-se potencialmente uma presa fácil para pastores ambiciosos e sem nenhum escrúpulo. Um dia ouviu dizer que na “igreja tal” havia um pastor que, além de curas milagrosas, também tinha o dom de fazer as pessoas prosperarem e mudarem de vida.
Salvo as exceções daqueles que se convertem genuinamente por fazerem uma experiência de fé teologal, esse é o perfil psicológico da grande maioria das pessoas que hoje lotam as igrejas pentecostais à procura de um deus que satisfaça suas necessidades e desejos. Geralmente a “conversão” se dá do seguinte modo: a pessoa é recebida num culto onde o pastor fala exatamente aquilo que ela quer ouvir, focalizando o poder que Deus tem de mudar sua vida dali por diante, se ela se entregar… e entregar o que tem. Após ouvir depoimentos e testemunhos de outras pessoas em igual situação, o novo convertido se entrega e facilita a ação dos “especialistas”, visando a melhora prometida de sua situação com a garantia dada por Deus.
É evidente que essa forma de agir usando as mesmas táticas do mercantilismo capitalista é abominável, porque a fé não é mercadoria que se compra e vende, e Deus não é comerciante que negocia. O problema é que a pessoa se vê presa e enredada por essa trama de mediação da “tal igreja”, cujo pastor usa dos mais ardilosos artifícios, como o de infundir no fiel o medo do castigo divino, para dominá-lo como verdadeira presa. Se depois de todo o esforço desprendido a pessoa continua sem ter a resposta material que esperava, embora nesta altura dos acontecimentos com certeza esteja muito mais pobre do que chegou, e a igreja muito mais rica do que era, ela passa a ser vista como indesejada e, humilhada, passa a ser vítima de um processo desumano de desprezo e indiferença diante da assembléia.
Com certeza isto não é de Deus e não tem nada a ver com o Deus da Bíblia, Pai de Jesus Cristo. Esse tipo de contra testemunho só denigre e prejudica a imagem do cristianismo no mundo. Certas igrejas “evangélicas” de evangélico só têm o nome e estão precisando urgentemente de reforma.
Dia desses, eu e minha esposa passávamos na porta de uma igreja cujo letreiro indicava ser do “Reino de Deus”, quando fomos abordados na calçada por um obreiro da referida igreja que nos ofereceu, ao preço de vinte reais, o “sabonete do descarrego”. Curioso, perguntei-lhe do que se tratava. Ele explicou tratar-se de um “sabonete abençoado e que a pessoa que com ele se banha com fé descarrega o mau olhado, feitiço, despacho, macumba e todo tipo de bruxaria”. “É só usar o sabonete do descarrego com fé”, disse-nos o obreiro.
Propositalmente entrei no recinto daquela igreja e vi sobre uma enorme mesa diversas garrafinhas de uma coisa parecida com azeite. Perguntei do que se tratava e o obreiro nos explicou tratar-se de “óleo santificado que cura todas as doenças”. Na mesma mesa podiam-se ver também várias garrafinhas com água. Com a mesma curiosidade perguntei o que era aquilo. O obreiro ainda cheio de santo entusiasmo, respondeu: “Isto aqui é água santificada do rio Jordão; foi trazida diretamente do rio onde Jesus foi batizado. Serve para afastar o mau olhado e desfazer trabalhos de macumba e bruxaria”. Perguntei sobre como adquirir a água e o óleo “santificados” e ele nos respondeu: “São coisas sagradas que não tem preço, mas como vem da Terra Santa, uma viagem daqui até lá custa muito caro, por isso pedimos uma pequena colaboração de apenas dez reais”.
Saímos do templo e, já do lado de fora, tive a curiosidade de olhar para uma faixa pintada em letras grandes e vermelhas, que dizia: “Nesta sexta feira venha tocar no santo manto de Cristo e livrar-se dos seus pecados”. Na noite daquela sexta feira tive a curiosidade de passar novamente em frente aquele templo cujo letreiro, como já disse, indicava ser do “Reino de Deus” e vi que dentro não cabia de tanta gente; do lado de fora, tentando um jeitinho de entrar, uma verdadeira multidão de pessoas buscando ver de perto e tocar com as mãos o “santo manto de Cristo”. Na verdade, são pessoas aflitas, problemáticas e, não raro, desesperadas, em busca de um deus que resolva seus problemas. O que o “pastor” pedir estão psicologicamente predispostas a dar. E dão de fato. De pessoas assim, psicologicamente tão fragilizadas, é fácil de tirar o que se quer. É como tirar doce de criança.
Há mais ou menos uns três anos a imprensa noticiou fartamente, inclusive com imagens, o “bispo” Edir Macedo no momento em que ensinava a um grupo de seus pastores a arte de extorquir o povo. Qualquer um pode acessar a internet e ver os vídeos ali postados com essas imagens. É horripilante. Chega a dar náuseas ver Edir Macedo, phd no assunto, ensinando seus pastores como devem proceder ao extorquir o povo. “O pastor – diz Macedo – deve ser agressivo, sem timidez, sem nenhuma vergonha, deve pegar a Bíblia e atirá-la no chão, fazer escarcéu, gritar, berrar para impressionar o povo que o dinheiro sai”. Mas, se depois disso tudo o dinheiro não sair, Macedo instrui seus pastores que devem agir como aquele sujeito da conhecida anedota que dava uma carona em seu caminhão e terminava dizendo: “ou dá ou desce”. Ou seja, quem não dá seu suado dinheiro ao “pastor”, deve descer do bonde daquela “igreja”. A coisa é feita assim, na base do “ou dá ou desce”.
O vídeo ainda mostra o “bispo” Macedo fazendo piada e zombando de passagens bíblicas, como quando Deus ordenou a Moisés que batesse com o cajado na rocha e dela saiu água para saciar a sede do povo no deserto (Nm 20, 11). Homem sem fé e sem escrúpulo, que demonstra não ter nenhum respeito pela Bíblia, ele zomba do relato bíblico como se fosse uma piada e seus pastores dão sonoras risadas. Para esses homens o que conta é o dinheiro. Quanto mais dinheiro tiram do povo, melhor é o conceito do “pastor”. Assim é o fundador e líder da Igreja Universal do Reino de Deus, a maior e mais poderosa igreja protestante do ramo pentecostal no Brasil, que arrecada por ano, segundo dados da Receita Federal, 1 bilhão e 400 milhões de reais em forma de dízimo de seus pobres e iludidos fiéis, dinheiro que vai diretamente para o caixa de Macedo e de suas inúmeras empresas, que tem a rede Record como ponta de lança.
Quase nem é necessário comentar esse tipo de comércio da fé. Os fatos falam por si mesmos. Não há dúvida que se trata de uma forma humilhante de ludibriar e explorar a boa fé do povo, uma forma vergonhosa de extorsão, que faria Lutero corar as faces de vergonha. Não tenho dúvida de que se Lutero assistisse hoje seus discípulos fazendo da fé um comércio, pediria perdão à Igreja pelo que fez. Só que agora é tarde, a divisão está feita e tudo está como o diabo gosta. A pilantragem campeia nos templos pentecostais do Brasil. Aliás, não é sem razão que virou caso de polícia, conforme relatei em meu artigo “O Protestantismo no Brasil atual: O Neopentecostalismo”. Ouso afirmar que, diante desses fatos, Lutero deve se revirar no túmulo.
Pe. Paulo Jorge Lúcio – padre casado