Primeiríssimas impressões sobre a Lumen Fidei

O teólogo José Ignacio González Faus faz uma breve e inicial análise da Carta Encíclica Lumen Fidei.  Entre os muitos elementos que enfatiza, está a constatação de que “nestes meses de pontificado, Francisco teve uma série de gestos positivos, muito carregados, aliás, por simbologias e significados.

Na encíclica, não consegui notar um só parágrafo que pudesse ser visto como fundamento teológico de todos esses gestos”.

 Artigo de González Faus

O artigo é publicado em seu blog Miradas Cristianas, 07-07-2013. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

   
Fonte: http://goo.gl/12wXq  

O que segue são brevíssimas observações, fruto de uma rápida primeira leitura da encíclica. Que isto fique muito claro, inicialmente, pois aparecem coisas que numa leitura mais lenta podem ser ponderadas. O mundo dos meios de comunicação possui grandes vantagens, mas, às vezes, é preciso pagar esse preço de uma ditadura do imediato. Apesar das “quatro mãos”, referidas humoristicamente pelo irmão Francisco, a encíclica me pareceu muito mais um texto quase na íntegra de Ratzinger, que Francisco teve a delicadeza de tornar seu e apenas lhe acrescentou alguma nota, no início e no final.

Onde mais se percebe isto é no seguinte detalhe: nestes meses de pontificado, Francisco teve uma série de gestos positivos, muito carregados, aliás, por simbologias e significados. Na encíclica, não consegui notar um só parágrafo que pudesse ser visto como fundamento teológico de todos esses gestos. Do texto atual, não brotará um grande desejo de “uma Igreja pobre e para os pobres”, a não ser, no máximo, uma Igreja que pode se gloriar por ter uma Madre Teresa. Sem perceber (pois, a falta de conhecimento de nosso mundo me parece outro traço da encíclica) até que ponto Madre Teresa, por mais exemplar e admirável que fosse sua caridade, converteu no ópio das classes altas.

É muito surpreendente que na breve história da fé traçada pelo texto, começando em Abraão, apresente o chamado feito a Moisés como se Deus tivesse quisesse apenas ter um povo que o cultuasse, e não porque “ouviu o clamor de seu povo”. Uma afirmação assim nasce de uma opção prévia (consciente ou inconsciente), mas não do texto bíblico. Parece-me que é típica do medo de Ratzinger às consequências políticas da fé e da teologia.

Outros três traços muito ratzingerianos parece que banham o texto pontifício. O primeiro é a obsessão pela síntese greco-judaica como harmonia definitiva entre a razão e a fé. Ratzinger polemiza contra os muitos que, hoje, afirmam que a relação com o Deus bíblico se orienta pela linha da escuta (o Deus que chama), ao passo que na Grécia segue pela linha de visão que é mais possessiva. A encíclica demonstra que não existe tal diferença; e embora seja verdade que a luz bíblica se orienta na linha do amor (como a encíclica afirma muito bem), o amor é sempre um chamado.

Pessoalmente, também acredito que a Grécia é desfigurada quando é reduzida ao “logos”, esquecendo-se que tão gregos como Platão ou Aristóteles, são todos os mitos (PrometeuAriadneSísifoOrfeu…), cuja riqueza Nietzsche havia captado muito bem (a quem mencionarei depois). De qualquer modo, eu diria que a síntese Atenas-Jerusalém não é uma síntese universal e definitiva historicamente; e que aqueles que hoje propugnam uma deselenização do cristianismo mereceriam um pouco mais de atenção.

Outro traço muito ratzingeriano é a proposta contra a ditadura do relativismo. A encíclica repete tons já muito conhecidos nos escritos de Ratzinger, sem ter chegado a perceber, em minha modesta opinião, nem as razões dessa ditadura (entre as quais estaria uma inegável absolutização sufocante de muitas coisas relativas, por parte da Igreja), nem o que essa ditadura pode ter de válida, como o chamado à humildade e desinstalação do seguidor que não tem onde reclinar a cabeça, assim como não percebe como essa ditadura acaba contradizendo a si mesma, porque a absolutização de Mamon [dinheiro] cabe perfeitamente nesse relativismo ocidental.

Nesta linha, outro traço ratzingeriano é a defesa diante da acusação feita ao monoteísmo, como intrinsecamente intolerante. Eu também não compartilho dessa acusação, mas acredito que nós, os crentes, mais do que refutá-la, somos chamados a compreender e a combater as inclinações indubitáveis que no monoteísmo podem levar a essa intolerância absolutista, justamente para nos proteger contra elas e para colocar em relevo o Deus a que se faz referência quando falamos de monoteísmo. Entretanto, agora, não é o momento de entrar nestes assuntos, mas de destacá-los como conteúdos totalmente ratzingerianos do texto de Francisco.

Finalmente, há um último detalhe que gostaria de poder elucidar, que é o seguinte: a encíclica começa com texto muito sério de Nietzsche, numa carta para sua irmã, que diz: se o que você quer é a paz cômoda e fácil, mantenha a fé, se o que quer é a aventura da vida, deixe sua fé. Inicialmente, pensei que o introdutor desta citação era Ratzinger e que isto é um ato inegável de coragem. Agora, duvido que seja assim (e preferiria que não fosse) porque, na realidade, tenho a sensação de que a encíclica não consegue responder este desafio. Em um primeiro momento, parece que sim, porque aponta o amor como fundamento da fé, e a tudo o que o amor e a confiança no amor possuem de aventura vital.

No entanto, pouco a pouco, parece que o texto vai sendo reconduzido, outra vez, para paragens ratzingerianos: a verdade cristã é o amor (expressão muito bíblica e literal da Carta aos Efésios), mas, em seguida, acrescenta-se que o amor cristão também inclui a verdade (caritas in veritate acima de veritas in caritate), estabelecendo um equilíbrio paritário entre ambos que, em minha opinião, o autor da primeira Carta de São João não aceitaria. Por fim, com isto, o que parece ser solicitado ao crente é apenas uma adesão à Igreja, aos sacramentos e ao Magistério.

Aventuras “liberacionistas” ou que “conhecer a Javé é praticar a justiça” (Jr 22,16) ou que ainda temos que “aprender o que significa quero misericórdia e não culto”, ficam fora da ótica deste texto. Assim, acaba sendo uma encíclica para dar boa consciência ilustrada aos setores mais conservadores, sem exigir-lhes nenhuma mudança de rumo como a de Zaqueu. Boníssima consciência, pois o texto é intelectualmente muito rico, claro e erudito (até com algumas discussões semânticas, que parecem mais próprias de um livro do que de uma carta-encíclica).

E, sem sair da citação dessa carta de Nietzsche, tenho a impressão de que se esta imbuísse o autor da encíclica, não deveria ser respondida por uma exposição teórica da fé, mas por uma análise mais existencial das duas aventuras: a do crente e a do que se atreveu a “passar uma esponja para apagar o céu”, como o louco de gaia ciência.

Há anos, li em Eusebi Colomer (e sinto não tê-lo agora em mãos) um texto de Nietzsche que não posso garantir agora, e que pareceu significativo: era uma carta à mulher de Wagner (pela qual o filósofo andou discreta e secretamente apaixonado), que dizia: “nunca deixe a Deus, porque eu o deixei e agora ando perdido”.

Não se trata então (entre fé e ateísmo) da opção entre a serenidade burguesa (de um platonismo para o povo) e a aventura do recriador de todos os valores. Trata-se de uma dupla arriscada aventura, sendo que não é a mesma coisa escalar a montanha Pedraforca (ou Everest) em momentos em que você se sente exausto e perdido, mas sabendo que segue pelo bom caminho, e em momentos em que você precisa confessar que, na realidade, não sabe para onde vai. Algo disto deveria estar presente no texto, caso a primeira citação obedecesse a seu autor e não fosse um acréscimo posterior…

Devo concluir que tudo isto não são mais do que as rápidas primeiras impressões. Tomara que sejam completadas por outros, e corrigidas se precisar. De qualquer modo, fico com o melhor significado da encíclica: um gesto delicado de Francisco para com seu predecessor, que assume como própria dele [a encíclica] para que não fique como um trabalho perdido. Isto sim significa “a verdade na caridade”.

Terça, 09 de julho de 2013

José Inacio Gonzales Faus, sj –
teólogo, conferencista, escritor

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