ENTRE MARX E CRISTO, O DIFÍCIL CAMINHO DA TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

Pe. Paulo Jorge Lúcio

Padre Casado

Logo após o Concílio Vaticano II (1962-1965) e na esteira de sua abertura, surgiu na América Latina um novo e diferente modelo de teologia, para alguns não compatível com a doutrina católica, para outros uma verdadeira resposta de Deus para os anseios de libertação do povo pobre e oprimido. A nova teologia, ao contrário da tradicional europeizada, vinda de cima e do alto, nasce nas bases, de baixo, do oprimido povo latino-americano. É uma teologia antropocêntrica, pois tem como foco central não o Deus do modelo europeu imperialista e dominador, mas o homem e sua luta por dignidade e respeito.

Nos anos sessenta e setenta do século passado quase todos os países da América Latina eram governados por ditaduras militares, monitoradas pelo governo dos Estados Unidos. Nesses países impunha-se a “lei de segurança nacional” que violava abertamente os direitos humanos e em nome da qual se prendeu e se torturou barbaramente muitos dissidentes políticos e ideológicos, muitos dos quais desapareceram para sempre. Nesses países, a maioria pobre era oprimida e explorada pelas oligarquias que defendiam os interesses imperialistas dos países ricos. A maioria da população, embora trabalhadores, não tinha direito a uma vida digna de moradia, saúde, educação  e nem mesmo de alimentação. No campo ou nas fábricas acontecia aquilo que Marx chamou de exploração do homem pelo homem, ou a exploração do trabalho pelo capital..

Nesse momento da história o mundo era dividido ideologicamente pela “guerra fria” entre a força do capitalismo norte-americano, acusado de ser o financiador das ditaduras militares de extrema direita, e a ousadia do comunismo soviético, que por sua vez era acusado de ser mentor e exportador de guerrilhas de esquerda para diversos países. As duas potências mediam forças militarmente, representadas, respectivamente, pela OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e pelo Pacto de Varsóvia. As ogivas nucleares das duas superpotências dariam para destruir a terra 500 mil vezes.

Esse era o panorama da América Latina e do Mundo naquele momento histórico. Os direitos humanos, embora já houvessem sido declarados desde 1948, eram pisados e desrespeitados ou simplesmente não existiam nos países pobres do terceiro mundo. Em Roma, o carismático Papa João XXIII inesperadamente convoca os bispos para um Concílio, o qual, segundo ele, viria para arejar a multissecular estrutura da Igreja. O velho e simpático papa sonhava com uma Igreja aberta, em constante diálogo com o mundo moderno e que pudesse caminhar lado a lado com o homem nesses novos tempos.

Nos países latino-americanos explodem os movimentos de revolta e de luta contra os regimes opressores. Na Igreja latino-americana surgem os movimentos populares e as CEBs, que são como que o eco do grito do povo explorado. Com o grito do padre peruano Gustavo Gutierrez, acompanhado pelo grito de outros sacerdotes em vários países do continente, nasce esse novo discurso teológico de cunho libertário e de apoio à luta dos oprimidos contra as classes dominantes e opressoras, primando antes pela ortopraxia do que pela ortodoxia, e que não poderia receber outro nome senão o de Teologia da Libertação. O grande inimigo a ser vencido é o capitalismo, causador de todos os males e que deve ser erradicado da terra para que em seu lugar vigore a utopia igualitária do socialismo, que seria como que a realização do Reino de Deus aqui e agora. Como preconizou Marx, esse inimigo, o capitalismo, só pode ser vencido pela luta de classes, do proletariado contra a burguesia, dos trabalhadores contra os patrões, dos pobres operários contra os ricos burgueses. No campo social não há libertação sem luta de classes; no campo religioso a ortodoxia dá lugar a ortopraxia. A nova teologia via esse caminho como o único capaz de superar a miséria do povo e devolver sua dignidade.

Duas reuniões do CELAM (Conselho Episcopal Latino Americano) acontecem no espaço de dez anos: em Medellin, Colômbia (1968) e em Puebla, México (1979). Nas duas ocasiões os bispos emprestam sua simpatia e apoio à nova teologia que surge e declaram a “opção preferencial pelos pobres”. Aqui no Brasil muitos bispos e cardeais se notabilizaram por dar seu apoio a causa da libertação dos oprimidos. Os padres se engajaram de vez na luta pela dignidade humana. Valia mais a ação do que a oração. Para muitos, rezar era alienação. Alguns chegaram ao extremo de trocar o crucifixo de suas sacristias pela foto de Che Guevara. Muitos padres e militantes leigos foram presos e barbaramente torturados. Não poucos foram assassinados dentro das prisões ou em conflitos no campo. Alguns padres chegaram ao extremo radical de querer aplicar a justiça com as próprias mãos. Foi o caso do colombiano Camilo Torres, que trocou a batina pela metralhadora e se tornou guerrilheiro do Exército de Libertação Nacional (ELN), morrendo em confronto com as forças de segurança de seu país em fevereiro de 1966.

Camilo Torres não foi o único padre católico a trocar a batina pela metralhadora. Entre os anos de 1964 e 1965 surgiram na Colômbia dois grupos guerrilheiros de inspiração marxista, influenciados pela vitória de Fidel Castro em Cuba: as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e o ELN (Exército de Libertação Nacional), que existem até hoje. São dois grupos violentos que, para angariar dinheiro, se especializaram em sequestros e sabotagens de infra-estruturas como água e energia elétrica, sendo que as FARC tiram do narcotráfico a maior parte de suas receitas. O líder máximo do ELN por quase três décadas foi o padre Manuel Perez, que nunca quis ligação com o narcotráfico.

Após muitas tentativas de obter garantias de mudanças por meios pacíficos e legais, Camilo Torres radicalizou e começou a pensar na necessidade da luta armada como meio para o estabelecimento de um estado livre e justo e de uma sociedade igualitária de caráter socialista, livre do imperialismo norte-americano e das oligarquias que servem a seus interesses. Era seu pensamento poder conciliar o cristianismo com o marxismo na busca de uma sociedade igualitária, mas chegou a conclusão de que a construção desse Estado novo só pode se dar pela violência, capaz de derrubar do poder as oligarquias exploradoras para dar lugar a uma sociedade socialista. O caráter conciliador do socialismo com o cristianismo em sua mensagem pode se traduzir por esta sua frase: “os marxistas lutam pela nova sociedade e nós, os cristãos, devemos lutar ao lado deles”.

Após desiludir-se em encontrar soluções pacíficas e legais para os problemas sociais, em 1964 Camilo Torres radicaliza e entra em contato com o grupo guerrilheiro que dois anos mais tarde originaria as FARC, mas o diálogo não vingou, por isso adere ao grupo guerrilheiro ELN. Justifica-se com as seguintes palavras: “um padre católico não pode ser expectador inerte de um sistema social que nega à maioria a possibilidade de comer, vestir e ter casa (…). Por ser colombiano, católico e padre, não posso não ser revolucionário”. Consta que o padre guerrilheiro Camilo Torres também tenha dito esta frase que ficou célebre: “Se Jesus Cristo voltasse à terra, juntar-se-ia aos guerrilheiros”. Pior é que não são poucos os que acreditam firmemente nisto. Era tão forte a certeza que tinha na possibilidade de conciliação entre a doutrina socialista e o cristianismo, que o fez como que antever uma forma de complementaridade entre as doutrinas de Cristo e de Marx,  e chegou a dizer: “o dever de todo cristão é ser revolucionário e o dever de todo revolucionário é fazer a revolução”.

A Teologia da Libertação desde o seu nascimento, em virtude da antropocentricidade da gênese onde foi gestada, e de sua declarada opção por uma sociedade igualitária, não raras vezes seus teólogos, na elaboração de seus discursos teológicos, fizeram uso de alguns dos pressupostos da filosofia dialética hegeliana, usada por Marx como base de sua doutrina do materialismo dialético e histórico. Apesar de seu compromisso com a dignidade do homem e de sua opção pelos pobres, a Igreja não pode aceitar essa disposição da Teologia da Libertação em usar os postulados da filosofia marxista, segundo a qual a libertação humana só pode ser alcançada com o compromisso político e a luta de classes. Isto para a Igreja é incompatível com a doutrina cristã, que prega a redenção humana como fruto do engajamento da fé na obra salvífica de Cristo.

Em que pese sua índole populista e sua enorme contribuição para a promoção da dignidade humana, a Teologia da Libertação nunca foi vista como verdadeira teologia por Roma e, por diversas vezes, tanto ela em si quanto muitos de seus teólogos foram condenados por João Paulo II e pelo presidente da Congregação Romana para a Doutrina da Fé, o então cardeal Joseph Ratzinger, hoje Papa Bento XVI. Não obstante a condenação, a Teologia da Libertação segue seu difícil caminho. É bom não nos esquecermos do paradoxo do surpreendente  crescimento da Igreja em pleno processo de perseguição por parte do Estado romano, do martírio de uma multidão de cristãos nos primeiros dois séculos de cristianismo. A respeito desse incompreensível crescimento disse Tertuliano: “o sangue dos mártires é semente de novos cristãos”.

Talvez dê para se estabelecer um paralelo entre as duas situações. O certo é que a morte em combate do padre Camilo Torres transformou-o em herói e mártir da luta pela libertação e pela justiça em toda a América Latina. Inspirados pelo seu ideal de fusão do marxismo com o cristianismo, muitos padres se tornaram ativistas em movimentos de libertação. No Chile, com o movimento padres para o socialismo, na Argentina, no Uruguai, na Bolívia, no Brasil,  com movimentos similares; na Nicarágua o padre Ernesto Cardenal participou ativamente da revolução sandinista. O sangue de Camilo Torres também parece ter se espargido sobre as CEBs, com sua luta ardorosa pela implantação da justiça e libertação. Também elas se inspiram nos ideais de Camilo Torres. A Teologia da Libertação no seu todo se inspira nele. O mesmo se diga de muitos políticos comprometidos com a causa socialista. Muitos dos atuais lideres do PT, o atual partido governista no Brasil, saíram ou dos sindicatos ou das CEBs. Por certo a mãe do padre guerrilheiro Camilo Torres tivesse razão quando disse, por ocasião de sua morte: “Camilo nasceu quando morreu”.

Parece certo que o ideal não morre, antes, cresce e se agiganta diante da violência. Não quero julgar a vida e a obra de Camilo Torres nem o que ele legou para a posteridade, nem os padres que lhe seguiram as pegadas. Quem sou eu para isto? Deus não me deu procuração para julgar ninguém. Entretanto, não podemos nos esquecer de que Cristo ensinou a não se apor violência aos violentos (Mt 5, 39), o que nos leva a concluir que a revolução armada não é condizente com o ensino de Jesus. Ademais, a se julgar pelo que se vê nas sociedades onde o socialismo foi implantado, a começar pela Rússia, de onde ele se espalhou e onde a corrupção estatal é maior que no Brasil, e muitos da população morrem de fome pelas ruas e os campos, como num verdadeiro estado capitalista, não muito diferente dos tempos da revolução comunista de 1917. Passando por seus satélites, como Cuba, onde presos políticos dissidentes do regime castrista morrem de greve de fome dentro das prisões; ou a Venezuela, onde o onipotente Hugo Chaves cria todo tipo de mecanismos para se perpetuar no poder, como seu mentor cubano Fidel Castro, eternamente entronizado, pode-se dizer que o socialismo não é mesmo o céu na terra.

E o que dizer do Brasil? Bem, o Brasil está aí exposto para quem quiser ver, portanto, é desnecessário maiores comentários. Melhorou sensivelmente nas questões sociais como a erradicação da fome e da miséria entre outras coisas. Mas, mesmo assim, há graves e inaceitáveis pecados cometidos por um governo que se diz de inspiração socialista, como a endêmica corrupção estatal e a espúria aliança do governo Lula com oligarquias do antigo regime, como a que existe no Maranhão com a família Sarney, há quatro décadas prevalecendo de sua condição de dona do poder político e econômico da região, enquanto o povo continua sofrendo.

Não podemos é perder o foco da realidade, nem negar o óbvio nem as evidências do que aí está, seja em nosso país, na América Latina ou no mundo. Estou convicto da perniciosidade do capitalismo, e costumo dizer que quem o inventou deve estar tão chafurdado nas profundezas do inferno que até satanás chefe tem medo de se aproximar dele. Mas, e o socialismo? O que dizer do regime que os ideólogos e os precursores da Teologia da Libertação imaginavam ser o Reino de Deus realizado na terra? Nos países onde foi implantado não foi o que dele se esperava, não trouxe a sociedade igualitária nem significou a redenção dos oprimidos. Redimiu uns e oprimiu a outros. Em suma, mostrou na prática que não é o Reino de Deus realizado aqui e agora. Não é sem razão que Jesus disse: “o meu reino não é deste mundo” (Jo 18, 36).  Penso que a solução pode ser encontrada dentro do próprio cristianismo, tendo como modelo a comunidade dos primeiros cristãos, que tinham tudo em comum e não havia necessitados entre eles, e todos se surpreendiam pelo modo como se amavam (Atos 4, 32-35). E tudo isto sem violência nem luta de classes. Utopia? Sonho impossível de se realizar? Nostalgia de um tempo que jamais voltará? Não sei. Só sei que esta sociedade ideal existiu de fato e historicamente e o seu fundamento era o amor, tal como Jesus ensinou e ordenou. Não há força opressora que resista ao verdadeiro amor.

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