ARTIGO – O Exílio Silencioso: A Memória e o Companheirismo dos Padres Afastados

Não se trata de rejeição, mas de um processo de reacomodação, de reconstrução
de laços que foram enfraquecidos pelo tempo e pela distância.

“Quem não é visto não é lembrado”. A máxima, cruel em sua simplicidade, ecoa nos corredores da memória daqueles que, por diferentes razões, se afastam de um grupo, de uma comunidade, de um ideal. No contexto específico dos padres que deixam o sacerdócio, essa frase ganha contornos ainda mais dramáticos, revelando um processo de exílio silencioso, onde a ausência física se traduz em um progressivo esquecimento.

Ao optar por trilhar outros caminhos, seja por questionamentos vocacionais ou pela busca de novas experiências, esses homens abdicam não apenas de um cargo, mas de uma identidade construída ao longo de anos de dedicação. O lugar que antes ocupavam, outrora central em suas vidas, transforma-se em um vazio, um espaço que, aos poucos, é preenchido por novas presenças e novas dinâmicas.

É natural que, nos primeiros momentos após o afastamento, os laços construídos durante o seminário e o exercício do sacerdócio ainda se mantenham vivos. Os antigos companheiros, movidos pela amizade e pela preocupação, buscam manter contato, atenuar a saudade e oferecer apoio. No entanto, a distância física impõe um desafio considerável à manutenção desses vínculos. Aos poucos, a frequência dos encontros diminui, as conversas se tornam mais espaçadas e a ausência, antes sentida como um incômodo, passa a ser tolerada, até mesmo naturalizada.

O retorno, caso ocorra, também é permeado por estranhamento. A comunidade, habituada à ausência, precisa se readaptar à presença do antigo membro, o que pode gerar desconforto e hesitação. Não se trata de rejeição, mas de um processo de reacomodação, de reconstrução de laços que foram enfraquecidos pelo tempo e pela distância.

Nesse contexto, a frase “quem não é visto não é lembrado” adquire um significado ainda mais profundo. Para aqueles que se afastaram, é fundamental reafirmar sua presença, mostrar que sua história de vida, suas experiências e seus valores ainda estão intrinsecamente ligados àquele grupo. No entanto, essa reaproximação deve ser pautada pelo respeito e pela humildade, evitando o narcisismo e buscando o verdadeiro companheirismo.

A palavra “companheiro”, com sua origem no latim “cum pane” (aquele que come do mesmo pão), evoca a ideia de comunhão, de partilha, de união em torno de um objetivo comum. Os padres que compartilharam o mesmo altar, a mesma unção e o mesmo ideal, mesmo que trilhem caminhos diferentes, permanecem unidos por uma história em comum, por uma experiência que moldou suas vidas e que merece ser lembrada e valorizada.

Portanto, é preciso romper o ciclo do esquecimento, cultivar a memória e fortalecer os laços de companheirismo. Que a ausência física não se traduza em um exílio definitivo, mas em uma oportunidade de reafirmar a importância da história compartilhada e de construir pontes que unam aqueles que, mesmo distantes, continuam a comer do mesmo pão, a beber da mesma fé.


Padre Carlos Roberto – Bahia

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