ARTIGO – AGAR: TEOLOGIA NO DESERTO E NAS TENDAS PATRIARCAIS

Agar aparece nos textos pois tem um problema
na tenda do patriarca Abraão.

 

O problema de Abraão era a falta de “primogênito”. Apesar da promessa de Deus, o filho não chegou e a idade avançada de Sara parece encerrar as esperanças. Sem primogênito o clã não tem futuro. Seguindo os costumes do clã, Sara toma Agar, sua serva egípcia e a entrega a Abraão. Este a “possuiu” e Agar engravidou.

Agar era estrangeira, de outra fé, de outro povo, escrava de Sara mulher de Abraão.  Abraão deixa a Sara, a decisão sobre a vida da escrava, quando o ciúme explode e torna impossível a convivência das duas mulheres, na mesma tenda.

Abraão, que não tinha escolhido ter filho com Agar, não se mete no conflito entre as duas mulheres. Deixa Sara decidir sobre a vida da escrava dela.

E Agar foge por causa dos maus tratos de Sara. Foge para o único lugar possível: o deserto, lugar inóspito, onde se pode morrer, ainda mais sendo mulher e grávida.

Nós aprendemos que o deserto é também lugar onde o povo encontra e experimenta a presença de Deus que o conduz. Isso acontece com Agar, escrava, estrangeira, fugitiva, oprimida. Agar, antes do povo, experimenta o deserto como lugar do encontro com um Deus que se preocupa com ela e com a vida que ela carrega e lhe ordena de voltar.

Deus lhe confirma que terá um filho e será ela, a mãe a dar o nome ao menino: Ismael, porque “Javé ouviu tua aflição”. Mais ainda: Agar recebe a mesma promessa feita a Abraão: uma descendência que ninguém poderá contar!

Agar decide voltar para a tenda de Sara, mas antes faz outro gesto: ela dá o nome ao poço onde o encontro com a divindade aconteceu e mudou seu destino e do filho. “E ela chamou o nome de Iahweh com quem ela falava: “Tu és Deus que me vê; por que disse: Aqui eu vi aquele que me vê (Gn 16,13). Dar o nome é tomar posse. Agar, aqui, se torna chefe de um grupo e dona de poço e revela quem é o Deus que a encontrou: Aqui eu vi aquele que me vê!

 

Resumindo e destacando: Agar recebe a promessa de uma descendência; Agar sabe que Deus escutou sua aflição; Agar aceita Deus que a manda voltar, para que o menino viva e tenha futuro, mas será ela a decidir sobre o menino.

 

Agar sabe que Deus a viu e a visão é recíproca: Deus e Agar se “veem”.

 

O poço, indispensável à vida de um grupo, no deserto, se torna lugar sagrado pelo nome que Agar dá, testemunha do encontro dela com Deus!

Deserto, poço, promessa, mãe, filho, Deus que vê e escuta quem era na opressão. Todos estes elementos fazem de Agar, escrava, estrangeira, de outra fé, na beira da morte, uma matriarca do mesmo tamanho de Abraão e Sara! Esta a memória que o livro registra.

As memórias de Agar e seu menino continuam: mais tarde, para que Ismael não ameace a primogenitura e a herança de Isaac, Abraão vai afastar Agar e o filho, dando-lhes somente um odre de água e um pouco de pão. Em Bersabeia (extremo Sul de Canaã) ela, mais uma vez, experimenta que “Deus ouve o grito do pequeno” (Gn 21,17): o grito que ela não teve coragem de ouvir.

“E ouviu Deus a voz do menino, e bradou o anjo de Deus a Agar desde os céus, e disse-lhe: Que tens, Agar? Não temas, porque Deus ouviu a voz do menino desde o lugar onde está” (Gn 21,17).

Mais uma vez Agar, esta mãe na beira da morte, ganha a estatura das grandes figuras do povo de Deus, capaz de reconhecer e acreditar no Deus que vê, Deus que ouve o grito, mesmo que seja o choro frágil de um menino que está morrendo de fome e de sede. Quem nos revela isso é Agar. Séculos mais tarde, essa verdade será assumida pelo Êxodo (2,22; 3,7), no relato do encontro de Moisés com Deus no deserto, ao redor de uma sarça.

Gosto de pensar e afirmar que a memória da vida e da história de Agar resistiu às areias do tempo, à dureza de muitas opressões e, quando o povo está no sofrimento e na morte, aflora de novo: “Os egípcios nos maltrataram e nos afligiram e impuseram sobre nós uma dura servidão. Então clamamos a Iahweh Deus de nossos pais; e Iahweh ouviu a nossa voz e atentou para a nossa miséria e para o nosso trabalho e para a nossa opressão. E Iahweh nos tirou do Egito com mão forte e com braço estendido e com grande espanto, com sinais e com milagres” (Dt 26,6-8).

Esta era a memória e motivação profunda que devia garantir uma nova sociedade (Dt 5,15) e que devia ser ensinada, de pai para filho, de geração em geração (Dt 6,20-24). Para que o povo não voltasse nunca mais à terra da servidão.

O conhecimento de Iahweh veio de fora, veio das últimas, veio das e dos que foram excluídos da tenda de Abraão: veio de Agar que o transmitiu a Ismael. Antes de ser o Deus de Israel, Iahweh foi o Deus de Ismael e depois de Esaú, ambos afastados para longe para não atrapalhar a bênção dos eleitos; assim como foi afastado Madiã, o meio irmão de Ismael, filho de Abraão e de Quetura, outra concubina de Abraão (Gn 25, 1-6).

E será justamente nas terras de Madiã, ao sul do deserto de Farã, que Moisés, escutará e   aprenderá que o nome de Deus é o que Agar já tinha revelado: Deus que me viu, Deus que ouviu o lamento do menino: Javé! (Ex 3,6s).

 

Mas não vamos antecipar a história e compactar os séculos.

 

Quero ficar com Agar e deixar uma suspeita: quantas jovens mulheres, vendidas, escravizadas, usadas e descartadas Agar representa? As duas memórias que o livro nos traz, me fazem pensar que, como Agar, muitas outras sofreram o mesmo destino e souberam resistir, sobreviver, dar nome e futuro a seus filhos e filhas, agarradas na fé de uma divindade que vê, chama, escuta o lamento de crianças e motiva a ação. Gosto de pensar em “minorias agarícas”, se me permitem o termo, marginalizadas até pelas minorias abraâmicas. Minorias sim, mas que chegam até nós com toda a força de sua memória e a profunda teologia que continua a inspirar e motivar a ação de outras mulheres.

 

Anna Maria Rizzante Gallazzi – Anna Maria, missionária leiga desde 1978, no estado do Amapá, agente da Comissão Pastoral da Terra a serviço das comunidades ribeirinhas e de pequenos agricultores, com atenção à atuação e protagonismo das mulheres. Na Pastoral Carcerária desejo ser presença amiga junto a presos, presas e seus familiares, na realidade dura dos cárceres do Brasil.

Respostas de 2

  1. Primeiro comentário que leio mais profundo sobre Agar e Israel, também luto pir todas as mulheres desprezadas de sua cidadania, como mulher reconheço a luta que cada uma tem para se manter companheira de seus homens e mãe para suas crianças neste mundo machista e tenebroso. É preciso teólogas que nos façam refletir sobre o sentido mais profundo da vida e da misericórdia de Deus.

  2. Querida Anna Maria Rizzante Gallazzi. Muito obrigada por nos conduzir a esse olhar sobre AGAR. Seus textos sempre nos levam para Periferias geográficas e existenciais que temos dificuldades de compreendê-las, mas que precisamos abracá-las para que a Dignidade e o Direito ao Bem Viver de toda Criação seja respeitado. Abraços solidário.

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