Submetido às lógicas do lucro, o morar corrói salários, endivida e precariza. E se viver em casa digna fosse direito universal e gratuito, como devem ser Educação e Saúde? Miragem? Construir outra sociedade requer desafiar o senso comum
Imaginemos por um momento que trabalhássemos para uma empresa que nos paga muito abaixo dos rendimentos que geramos para organizar nossa vida. Na verdade, não será tão difícil imaginar isso, porque o capitalismo se baseia precisamente nessa dinâmica: os trabalhadores geram riqueza com seu trabalho, da qual só recuperam uma pequena parte na forma de salário, enquanto todo o valor restante é apropriado pela classe capitalista. Os benefícios que nunca retornam aos trabalhadores, que nunca são objeto de administração democrática por parte da força de trabalho, constituem o que Marx chama de mais-valia. Em resumo, a acumulação de capital de alguns poucos se baseia no princípio de não remunerar integralmente os frutos dos esforços dos próprios trabalhadores.
Mas agora imaginemos que, além desse roubo sistemático, os trabalhadores tivessem que pagar pela luz, seguros ou créditos que os capitalistas adquirem. Nos pareceria absurdo. A tirania dentro da tirania. Afinal, o trabalhador já vende sua força de trabalho por um preço injusto; além disso, teria que arcar com os custos que envolvem a atividade econômica? Eis um aspecto crucial da acumulação de capital: o trabalhador recebe um salário que, na maioria das vezes, é o mínimo que o empregador está disposto ou obrigado a pagar. É tão miserável que obriga o trabalhador a gastá-lo quase inteiramente na luta pela sobrevivência. Ou seja, para comer, beber, abrigar-se e reproduzir-se. De fato, é curiosa a crítica de Marx de que, no sistema capitalista, só nos sentimos livres ao cobrir necessidades básicas, o que paradoxalmente reduz nossa vida à ditadura do ciclo de trabalho, consumo, descanso e reinício do ciclo; limitando o tempo para a participação política, a criatividade pessoal e a socialização com entes queridos.
A esse respeito, Federici vem realizando análises magistrais que apontam que a base sobre a qual todo o sistema capitalista se sustenta é a reprodução da força de trabalho. Ou seja, se os trabalhadores não se reproduzem, não são criados e não conseguem sobreviver, simplesmente o sistema de acumulação de capital não pode funcionar. Alguém tem que criar a riqueza que os capitalistas saqueiam e, por enquanto, esse sujeito tem um corpo biológico com necessidades materiais. O argumento é bastante simples, até mesmo óbvio, e no entanto está oculto por trás de falsos consensos. Em outras palavras, se não há atividade empresarial sem que o ser humano tenha acesso a bens como água, ar, alimentação ou cuidados, por que esses bens devem ser custeados pelos trabalhadores? O empresário não estaria externalizando custos que deveria assumir para os trabalhadores?
Essa externalização dos custos não só permite que a classe capitalista acumule mais riqueza, mas também gera um circuito fechado no qual o trabalhador não pode se emancipar, já que não tem possibilidade real de economizar, o que o leva a uma maior dependência e vulnerabilidade. O capitalismo tende a conceder, no máximo e a contragosto, um salário ajustado para consumir bens básicos; oferecidos muitas vezes a preços inflacionados. Um bom exemplo cinematográfico é o filme As Vinhas da Ira, baseado no romance de John Steinbeck e ambientado na crise de 1929. No filme, alguns trabalhadores migrantes são mal pagos pelos donos de uma fazenda agrícola em troca de colher frutas. E sua escassa remuneração se esvai no momento de comprar alimentos, que são fornecidos pelos próprios donos da fazenda. Mas no filme, além dos alimentos, há outro bem básico para a reprodução da vida que leva ao desaparecimento de todo o salário restante: a moradia, que também é monopolizada pelos latifundiários da fazenda.
Fonte: Site OUTRAS PALAVRAS
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