Os primeiros 100 dias do papa Francisco: realidade e expectativas

A passagem dos primeiros cem dias do pontificado do papa Francisco é a ocasião para muitos analistas traçarem um primeiro balanço, sublinhando a novidade, o primeiro criticismo, a tentativa de “classificar” o novo bispo de Roma como progressista ou conservador, e as expectativas crescentes quanto às nomeações e reformas que fará.

Talvez seja útil recordar as decisões tomadas – e as não tomadas – nos primeiros cem dias do pontificado de Bento XVI. O papa Ratzinger nomeou o seu sucessor na direção da Congregação para a Doutrina da Fé, o americano William Levada, assim como Francisco nomeou o seu sucessor na direção da diocese de Buenos Aires, Mario Aurelio Poli. Promoveu – distanciando-o de Roma e da Cúria romana – o ex-secretário de Wojtyla, o poderoso Stanislao Dziwisz, confiando-lha a sede de Cracóvia. Mas não foram feitas mudanças na liderança da Secretaria de Estado nos primeiros cem dias, ou mesmo no primeiro ano, não obstante o cardeal Angelo Sodano ter mais de 75 anos.

Após a eleição, Bento XVI nomeou secretário de Estado o cardeal Angelo Sodano, confirmando donec aliter provideatur, isto é, até nova ordem, os cardeais e arcebispos à cabeça dos dicastérios [principais departamentos do Vaticano]. Confirmou o substituto e o secretário para as relações com os estados, confirmou «para o quinquénio em curso» os secretários dos dicastérios da Cúria.

Os passos de Francisco foram mais curtos: expressou a «vontade» de os responsáveis e membros dos dicastérios, como também os secretários, prosseguirem «provisoriamente» as funções, até nova decisão. O acento na provisoriedade parece indicar que Bergoglio tenciona proximamente mudar não apenas o secretário de Estado, mas também os titulares de outros dicastérios e ofícios.

A espera pela designação – não ainda decidida – do sucessor do cardeal Tarcisio Bertone, o secretário de Estado que marcou profundamente o pontificado de Ratzinger, como também pela anunciada reforma da Cúria, sobre a qual estão já a trabalhar em pleno oito cardeais «conselheiros» do novo papa, por ele escolhidos também para o ajudar no governo da Igreja universal, pode implicar o risco de fazer passar para segundo plano o que já aconteceu nos últimos cem dias.
Entre as principais novidades destes primeiros meses de pontificado incluem-se as homilias das missas “privadas” ou semipúblicas na Casa de Santa Marta. Um apontamento diário, com meditações breves, simples, profundas e eficazes, das quais não há texto escrito mas que seria errado classificar de extemporâneas, dado que o papa as prepara com meditação e oração todas as manhãs. Alguns qualificaram-nas de mensagens espirituais rápidas e açucaradas, a que falta profundidade teológica. Mas essas homilias, juntamente com os seus primeiros discursos públicos, sempre enriquecidos por acrescentos não escritos, representam em si próprios um programa.

Retomando com maior vigor filões já abordados pelo seu predecessor, como o primado da graça, a crítica ao carreirismo, a redução da Igreja a uma empresa ou comunidade autoreferencial, e oferecendo novos conteúdos, como a necessidade de sair e de ir para as periferias geográficas e existenciais com a palavra e o exemplo, Francisco alcança um número cada vez maior de pessoas. E quem defende que até agora o papa ainda não fez nada de significativo, referindo-se a nomeações de grande peso ou a reformas estruturais, arrisca-se a não ver o que já aconteceu e o que já começou.

Ver o papa fazer escolhas sóbrias, não viajar demasiado enclausurado pela escolta, não usar os topos de gama do parque automóvel do Vaticano e, sobretudo, passar horas entre as pessoas, com os doentes e as crianças, mostrando como isso é fundamental, faz com que pareçam a anos luz e decididamente datados um certo modo de ser bispo e o sempre ressurgente clericalismo.

Antes ainda de decidir nomeações ou o aligeiramento da Cúria – necessária e pedida nas reuniões anteriores ao conclave pela maioria dos cardeais – Bergoglio já enviou sinais inequívocos de renovação, que só quem faz questão de não ver ou tem o problema de manter o status quo pode ignorar.

Diante do crescente interesse pela mensagem do papa e a atração que gera, manifestada pelos números excecionais de presenças nas audiências e nas celebrações, como também perante o favor mediático generalizado de que goza, há quem manifeste, fora e dentro da Cúria, algum desconforto por Francisco atuar como um pároco, falar demais ou arriscar-se a dessacralizar a própria figura do pontífice. Alguns examinam cada palavra do novo papa, para medir a sua taxa de “catolicidade” em relação aos valores “inegociáveis”, enquanto outros insistem em dizer que com Bergoglio nada mudou.

Entretanto falta estudar o fenómeno enigmático e paradoxal das páginas da internet intermitentemente papistas, que após terem denegrido João Paulo II para exaltar Bento XVI, agora, com o mesmo propósito, atacam com sarcasmo cada gesto de Francisco. Ou aqueles que, para exaltarem Bergoglio, atacam o predecessor. A impressão geral é que este tipo de críticas não se baseia na realidade.

Cem dias depois da eleição do papa vindo «do fim do mundo», foi claramente alterada a perceção da opinião pública. Após anos em que no centro do palco e da atenção mediática estiveram os escândalos – da pedofilia, primeiro, do Vatileaks depois, – o que interessa agora, maioritariamente, não é o que está por trás da cortina, mas sobretudo a novidade representada pelo papa latino-americano: a sua mensagem, a sua linguagem, os seus apelos.

É uma corrente de ar novo trazida por um papa que é papa sendo simplesmente ele próprio, sem se deixar condicionar pelo círculo próximo ou pela “corte”. Uma “corte” a quem ele tratou de retirar poder com a decisão de morar na Casa de Santa Marta. Até a publicação das suas conversas privadas, como no caso das palavras sobre a “corrupção” no Vaticano e sobre o “lobby gay”, não se transformaram em incidentes mediáticos e deixaram Francisco absolutamente tranquilo, marcando, também neste caso, uma distância sideral entre o papa e a obsessão eclesiástica pela estratégia de “comunicação” arquitetada para “vender” bem “a imagem” da Igreja.

Fonte: http://www.snpcultura.org/os_primeiros_dias_do_papa_francisco.html

 

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