Artigo bastante equilibrado e objetivo, enviado pela ANPB (Associação Nacional de Presbíteros, estruturalmente independente da CNBB) às várias centenas de seus associados e simpatizantes e a cerca de 30 bispos mais engajados no social e com as bases. Parece retratar bastante bem os diversos posicionamentos dos padres (e bispos) na política brasileira atual.
Minha impressão pessoal é que os grupos que mais estão crescendo nos últimos anos são o 3° e o 4°. E a opção, sobretudo a 4ª -Padres sem compromisso político e com partidos- pelos vistos, já é feita nos seminários, enquanto estudantes, inculcada ou tolerada pelos formadores. E está intimamente ligada a concepção de Igreja e de Pastoral dos formadores e de cada seminarista. Os bispos, confusos ou tímidos, parecem deixar o barco correr, nesse aspeto. Há, felizmente, exceções.
Um projeto e uma prática de sólida e consistente de formação integral nos seminários morreu. Mas uma outra, clara, consistente, com uma suficiente unidade de critérios comumente aceitos, de admissão, de formação e de avaliação responsável o tempo todo, mas sobretudo antes da ordenação, ainda não nasceu.
A grande pergunta continua a ser: formar hoje que tipo de padre para que tipo de Igreja? As opções deles, vida afora, inclusive na política, vão ser, se eles tiverem um mínimo de coerência, simples consequências de sua formação e de suas opções fundamentais durante o longo e privilegiado período de sua formação.
João Tavares
AS FACES POLÍTICAS DOS PRESBÍTEROS
Fonte http://anpb.com.br/portal/index.php?option=com_content&view=category&layout=blog&id=1&Itemid=50
A Comissão Nacional de Leigos (CNL) juntamente com a Comissão Brasileira de Justiça e Paz (CBJP), o Centro Nacional de Fé e Política D. Hélder Câmara (CEFEP), o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento (IBRADES) e as pastorais sociais da CNBB lançaram a cartilha Eleições 2010: o chão e o horizonte. Objetivaram oferecer um instrumento de conscientização para as comunidades e propor caminhos de discernimento para o pleito deste ano. A cartilha adverte que “temos uma grande responsabilidade e uma importante missão: colocar na urna não só o nosso voto pessoal, mas a consciência de que ele tem consequências para a vida do povo e para o futuro do nosso país”. Diante dessa responsabilidade e missão nos propomos a refletir sobre a atuação dos presbíteros. Sabemos o quanto contribuem para o fortalecimento da democracia e para o engajamento consciente dos cristãos no exercício da cidadania.
Observam-se na atual conjuntura da Igreja quatro tendências de atuação dos presbíteros nas eleições. Propomos indicar tais vias como forma de análise. Sugerem-se leitura crítica e posicionamento dos irmãos padres e as consequências para cada um frente ao ministério e à missão. A responsabilidade e o compromisso com o Reino nos impelem a nos despojarmos das comodidades pessoais e a nos colocarmos a serviço dos mais pobres. O período das eleições oferece momento pedagógico nessa luta permanente.
1. Padres comprometidos na política sem partido. Atuam fortemente nas eleições. Trabalham pela conscientização do voto. Aderem a projetos que fortaleçam a democracia: Ficha Limpa, Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral e plebiscitos populares tais como Limite da Propriedade da Terra. Atuam em sintonia com os clamores dos pobres e defendem as bandeiras de luta dos movimentos sociais. Denunciam o populismo, a corrupção, a compra de votos e as candidaturas que ameaçam a vida e os interesses do povo. Não aderem a campanhas partidárias. Tais presbíteros atuam em maior sintonia com o discurso oficial do magistério da Igreja. A ação objetiva o serviço, sem reivindicações de privilégios para a Igreja ou interesses pessoais.
2. Padres comprometidos na política e com militância. Atuam nas eleições semelhantemente ao perfil anterior. Trabalham pela conscientização do voto, aderem a campanhas que fortaleçam a democracia participativa, defendem as bandeiras de luta dos movimentos sociais e denunciam toda forma de exploração e instrumentalização da política partidária. Diferenciam-se ao apostar na militância partidária. Apoiam candidatos e partidos populares. Percebem insuficiente a conscientização política sem apontar caminhos concretos nas eleições. Ambos os presbíteros apostam no protagonismo dos leigos e incentivam candidatos/as coerentes entre o discurso da fé e a práxis. O perfil apoiado nesses mandatos configura-se como mandatos populares, coletivos e acompanhados durante a gestão. Os presbíteros que comungam dessa linha de atuação às vezes encontram dificuldades, ora com alguns dos fiéis, seja com alguns bispos. Embora, dependendo da diocese, alcançam incentivo e apoio. A ação orienta-se para o serviço sem buscar favorecimentos.
3. Padres comprometidos na política nos partidos. A participação política nas eleições chega ao extremo. Colocam-se à disposição dos partidos e entram na disputa eleitoral. Compreendem que sua missão de presbítero não se reduz apenas ao eclesial. Como lideranças no meio do povo, agregam os anseios populares de mudança e exercem o seu ministério de presbítero a serviço dessas demandas. Renunciam a seus privilégios de autoridade religiosa e põem-se ao lado dos demais atores sociais em condição igualitária no exercício dos mandatos. Tais presbíteros encontram sérias dificuldades com os bispos. Impedidos do uso de ordens, sentem-se excluídos. Alguns alcançam resultados favoráveis nas eleições e, assim, são absolvidos pelo povo. Outros, condenados ao isolamento, perseveram no ministério por sua espiritualidade profética e libertadora. A maioria dos presbíteros que optam por tal caminho concorrem para o bem comum, sem almejar privilégios pessoais o que se traduz em resultados favoráveis para a sociedade, em especial aos pobres.
4. Padres sem compromisso político e com partidos. Reproduzem o discurso apolítico. Pregam que religião e política não se misturam. Normalmente tornam-se próximos das autoridades civis. Esbanjam fartura e reivindicam privilégios para si e para as instituições que dirigem. Nas eleições, utilizam-se da pregação do magistério da Igreja em defesa da vida como desculpa para apontarem seus candidatos. Acusam partidos populares e isolam candidatos e projetos de cidadania. Repudiam a opção pelos pobres e aproximam-se dos ricos e poderosos. A única atitude ética reivindicada trata das questões referentes ao tema do aborto, união civil entre homossexuais e eutanásia. Desconsideram questões como corrupção, violência, concentração de terra, democratização dos meios de comunicação e direitos humanos. Alguns bispos tendem a anistiá-los. Dependendo da diocese, às vezes encontram até apoio. A atuação desses presbíteros serve para interesses próprios. Discursam contra a política, mas indiretamente fazem política partidária. Praticam total ruptura entre a fé e a vida.
Em relação ao último perfil propomos as sábias palavras de Jesus: “Mas, entre vocês não deverá ser assim: quem de vocês quiser ser grande, deve tornar-se o servidor de vocês, e quem de vocês quiser ser o primeiro, deverá tornar-se o servo de todos” (Mc 10, 43-44). Aos demais presbíteros, recomendamos perseverarem no caminho ao qual foram chamados. Permaneçam firmes no testemunho profético. Não tenham medo. “Por isso irmãos, cuidai cada vez mais de confirmar a vossa vocação e eleição. Procedendo assim, jamais tropeçareis” (2 Pd, 1,10).
Daniel Higino Lopes de Menezes
Belo Horizonte, 2 de setembro de 2010.