Clara Raimundo | 8 Fev 2023
“Sobrevivemos, porque tantas pessoas boas no mundo estão unidas a nós em orações, pensamentos e generosidade”, afirmou chefe da Igreja Greco-católica Ucraniana, Sviatoslav Shevchuk. Foto © Mathias P. R. Reding / Pexels.
A pouco mais de duas semanas de se completar um ano sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia,


o chefe da Igreja Greco-católica Ucraniana e arcebispo de Kiev, Sviatoslav Shevchuk, e o núncio apostólico no país, Visvaldas Kulbokas, (F0tos / Reprodução)
foram desafiados a explicar, numa conferência online promovida pela Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) nesta quarta-feira, 8 de fevereiro, como tem sido possível sobreviver, durante todo este tempo, à guerra.
A resposta foi unânime: com base na solidariedade, na esperança… e em milagres.
“Eu não sei como sobrevivemos até agora… É um milagre que ainda estejamos vivos!”, começou por afirmar Sviastolav Shevchuk. “Mas consigo encontrar algumas pistas – continuou – Sobrevivemos, porque tantas pessoas boas no mundo estão unidas a nós em orações, pensamentos e generosidade”.
Visvaldas Kulbokas concordou:
“Numa guerra como esta,
- tudo o que se faz do ponto de vista material é muito importante,
- mas todo o tipo de ajuda tem também um aspeto espiritual, que significa proximidade, empatia, amor”.

Mais de 70 jornalistas de todo o mundo e colaboradores da Fundação AIS participaram na videoconferência.
A Igreja tem permanecido no terreno e feito um esforço para se organizar de forma a apoiar o maior número de pessoas possível,
- explicaram os responsáveis religiosos aos mais de 70 jornalistas de todo o mundo e colaboradores da Fundação AIS que participaram na videoconferência.
- Exemplo disso é o facto de terem sido importados oitocentos mil geradores elétricos para a Ucrânia no ano passado.
“Sabemos que a maior parte deles foi pelas Igrejas”,
assinalou o núncio apostólico.
Kulbokas sublinhou que grande parte da população tem enfrentado fome e escassez de bens.
- “Quando levamos pão, as pessoas começam a comer logo ali. Há falta de pão, há falta de água.
- Em alguns lugares, como Mykolaiv, as pessoas não têm água sequer para lavar as suas roupas”, contou.
Mas as pessoas
“precisam não só de comida e roupas, precisam de uma palavra de esperança”,
contou com indisfarçável comoção o arcebispo de Kiev.
Por isso,
- “primeiro que tudo estamos a tentar ajudar as pessoas a resistir,
- encontrar força interior e resiliência para sobreviver e lutar…
- e encontrar algum sentido em situações que não fazem sentido nenhum”, sublinhou Shevchuk.
Padres deprimidos e torturados

Pai despede-se da sua família na Ucrânia. “Quase 80% das pessoas [no país] precisam de ajuda para recuperar de um trauma”. Foto © ACNUR.
Num país onde
“quase 80% das pessoas precisam de ajuda para recuperar de um trauma, seja psicológico, físico ou outro”,
uma das prioridades é “curar as feridas da nossa nação”, frisou o chefe da Igreja Greco-católica Ucraniana.
Feridas essas que são também partilhadas pelos próprios padres e religiosos, muitos deles “cada vez mais deprimidos”,
sobretudo nas regiões onde os ataques são muito frequentes.
“Estão cansados de viver quase permanentemente no abrigo”,
referiu o núncio apostólico.
Os dois líderes religiosos fizeram questão de lembrar os padres Ivan Levytsky e Bohdan Geleta, que foram levados pelas tropas russas há quatro meses e “continuam a ser torturados todos os dias”.
De acordo com o arcebispo de Kiev,
“as autoridades militares acusaram-nos de estar a guardar armas nas igrejas. E agora, através da tortura, estão a tentar fazer os padres confessar que são esse tipo de criminosos”.
Sviatoslav Shevchuk explicou que a Igreja tem estado a tentar resgatá-los, mas sem sucesso. Mensalmente, o arcebispo envia ao Papa Francisco uma lista de todos os detidos pelas forças russas de que vai tendo conhecimento e alguns já foram libertados.
“Sei que há um plano de troca de todos os prisioneiros entre a Ucrânia e a Rússia, mas até agora não aconteceu”,
lamentou.
“Nem todo o mundo é contra esta guerra”

Um tanque destruído numa das ruas de Bucha, na Ucrânia. “É uma pena, mas para sobrevivermos temos de nos defender”, afirmou Shevchuk. Foto © Presidência da Ucrânia.
Poucas horas antes desta conferência, o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, tinha estado no Parlamento britânico, em Londres, a agradecer o apoio da Grã-Bretanha e a pedir aviões de guerra. Sviatoslav Shevchuk não se esquivou a comentar:
“É uma pena, mas para sobrevivermos temos de nos defender. Se tiverem uma ideia de como podemos parar as tropas russas sem armas, por favor digam-nos qual o segredo”,
disse aos participantes na conferência, meio a brincar, meio a sério.
Visvaldas lembrou, por seu lado, que quando o Papa ou os responsáveis da Secretaria de Estado falam de armas, mencionam sempre um “uso proporcional”.
Além disso, assinalou, a generalidade dos países tem uma força policial que usa armas quando existem situações perigosas.
“Não é bem a mesma coisa, mas nunca ouvi a Igreja dizer que a polícia não pode usar armas para defender civis”, afirmou o núncio.
Para Visvaldas Kulbokas, que foi um dos poucos representantes diplomáticos a não ter abandonado o território ucraniano, o que é “chocante”é que “nem todo o mundo é contra esta guerra”, por isso “temos muito trabalho para fazer”, sublinhou.
Até porque têm chegado
“notícias preocupantes da linha da frente, de que a Rússia está a escalar a a situação”,
partilhou Sviatoslav Shevchuk. E confessou:
“não sabemos o que esperar no futuro próximo”.
O chefe da Igreja Greco-católica na Ucrânia assumiu que
“a situação está a deteriorar-se especialmente do ponto de vista humanitário”
e as necessidades de ajuda não param de aumentar, sobretudo porque
“a Rússia destrói as infraestruturas críticas”,
deixando uma grande parte da população sem acesso à eletricidade, por exemplo.
“Na semana passada, a grande cidade de Odessa esteve quase quatro dias num apagão total”, referiu Shevchuk.
Ainda assim, os líderes religiosos mantêm viva a esperança de que a guerra possa terminar em breve e dizem assistir, diariamente, a “pequenos milagres”.
“Ninguém morreu de fome ou frio na Ucrânia”,
assegurou o arcebispo de Kiev. Mas
“será que vamos sobreviver até amanhã?”, perguntou.
Ninguém se atreveu a responder.
Clara Raimundo
Fonte: