O Brasil diante da disputa EUA-China

– 17 fevereiro 2023 – Foto: Ricardo Stuckert

O Encontro de Lula e Biden mostrou-se infrutífero. Agora, o presidente viajará a Pequim: mais que relações comerciais vantajosas, o que está em jogo são as novas bases para a cooperação Sul-Sul. E Washington, decadente, já não tem muito a oferecer…

Introdução

Lula se encontra não apenas diante do imperativo da reconstrução nacional, mas de retomar o protagonismo internacional do Brasil. Esse desafio se torna particularmente complexo tendo em vista a transição sistêmica e a crescente competição sino-estadunidense.

 

1. Notas sobre a visita aos EUA

No dia 10 de fevereiro, o presidente Lula visitou Joe Biden, chefe de Estado dos EUA.

Na delegação brasileira, além do presidente, foram a Washington os ministros Mauro Vieira (Relações Exteriores), Fernando Haddad (Fazenda), Marina Silva (Meio Ambiente), Anielle Franco (Igualdade Racial), o Assessor Especial, embaixador Celso Amorim, o secretário executivo do Ministério do Desenvolvimento Econômico e Comércio, Márcio Elias Rosa, e o senador Jaques Wagner.

Antes do encontro com o presidente Biden, Lula concedeu entrevista exclusiva a Christiane Amanpour, da rede CNN.

Nela, abordou temas diversos, tais como

  • os ataques à democracia no Brasil,
  • o papel dos militares na política,
  • os processos contra o ex-presidente Bolsonaro,
  • a guerra na Ucrânia,
  • a polarização política e a força da extrema direita,
  • bem como temáticas ambientais.

A questão democrática certamente foi um ponto que aproximou os dois presidentes.

  • Os episódios golpistas do 8 de Janeiro em Brasília e os paralelos com o processo que culminou com a invasão do Capitólio em Washington, em 2021,
  • revelaram a necessidade recíproca de isolar a extrema direita.

Lula, apesar do grande apoio nos círculos internacionais de poder,

  • precisa fortalecer sua legitimidade interna, dado que boa parte do empresariado e das classes médias são fortemente anti-lulistas,
  • e ter força para enfrentar a oposição bolsonarista no Parlamento.

Contudo, há divergências nessa agenda democrática.

  • Biden organizou uma Cúpula pela Democracia, em dezembro de 2021, dirigindo seu discurso contra países não-alinhados, notadamente China, Rússia, Irã e Venezuela.
  • Já Lula, apesar do interesse na frente democrática voltada contra a ascensão da extrema-direita, segue seu pragmatismo e o princípio de não intervenção em assuntos domésticos.

Não apenas isso, Lula demonstrou não aderir à linha de tentar isolar Venezuela e Cuba e ainda se opõem às sanções estadunidenses como forma de lidar com estes países.

 

Além da democracia, o encontro trouxe ainda outros temas para a agenda bilateral, tais como

  • as questões ambientais, em especial a questão climática;
  • de investimentos produtivos, sobretudo em energia limpa;
  • e de direitos humanos, em particular no combate à pobreza e ao racismo.

Na Declaração Conjunta, entre outros indicativos,

  • “se comprometeram a revitalizar o Plano de Ação Conjunta Brasil-EUA para a Eliminação da Discriminação Racial e Étnica”;
  • “reconhecem o papel de liderança que o Brasil e os EUA podem desempenhar por meio da cooperação bilateral e multilateral, inclusive sob a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) e o Acordo de Paris”;
  • e decidiram discutir “o combate ao desmatamento e à degradação, o fortalecimento da bioeconomia, da implantação de energia limpa, das ações de adaptação e a promoção de práticas agrícolas de baixo carbono”1.

O presidente Lula disse ainda que o presidente Joe Biden se dispôs a participar do Fundo Amazônia com valor estimado em US$ 50 milhões.

O fundo, criado há 15 anos para financiar ações de redução de emissões provenientes da degradação florestal e do desmatamento na Amazônia, conta com doações internacionais e já recebeu recursos da Noruega e Alemanha.

Lula deixou claro, porém, ao falar com a imprensa na frente da Casa Branca, residência oficial do governo norte-americano,

  • que não quer “transformar a Amazônia em um santuário da humanidade”
  • nem abrir mão da soberania brasileira sobre a região.

Lula disse ainda que o Brasil se auto-marginalizou nos últimos quatro anos, pois Jair Bolsonaro

“não gostava de manter relações com nenhum país” e “menosprezava relações internacionais”.

Segundo Lula, Bolsonaro é uma cópia fiel [de Trump].

  • “Não gosta de sindicatos, não gosta de trabalhador, não gosta de mulheres, não gosta de negros, não gosta de conversar com empresários, não gosta de falar com a imprensa”2.
  • Ao término da fala de Lula, Biden sorriu e disse ser muito familiar – em alusão ao modo de fazer política de seu antecessor.

O pragmatismo e experiência de Lula juntos não permitiram que Biden pautasse a reunião.

  • O atual presidente estadunidense pressionou para que o Brasil tomasse partido ao lado de Zelenski na Guerra na Ucrânia.
  • Contudo, o presidente Lula já havia negado o envolvimento no conflito na reunião com o presidente francês, Emmanuel Macron, e com o chanceler alemão, Olaf Scholz, na semana passada, em visita recente a Brasília.
  • Lula não apenas rejeitou em ambos os casos, como seu intento de criar um grupo de países para buscar a paz.

O presidente brasileiro deixou claro em coletiva à imprensa que não vai aderir a uma Nova Guerra Fria – e inclusive já marcou visita à China.

 

Lula também se encontrou com os deputados democratas Pramila Jayapal (Washington), Alexandria Ocasio-Cortez (Nova York) e Sheila Jackson Lee (Nova York) na Blair House e, ainda, o senador Sanders, do Partido Democrata.

Sanders e Lula destacaram o imperativo de fortalecer as bases da democracia, com destaque para os riscos da desinformação.

Tanto Trump quanto Bolsonaro basearam suas atuações políticas na disseminação de fake news e no enfraquecimento das instituições estatais.

O que se observa claramente é que os EUA estão disputando a posição internacional do Brasil agora com o novo governo Lula.

 

É sabido

  • que a influência brasileira é expressiva em toda a região sul-americana
  • e que a atual diplomacia brasileira deve convergir com os movimentos internacionais voltados ao fortalecimento da ordem multipolar.

Para Lula,

  • não se tratava de obter grandes conquistas dos EUA – que estes parecem sem condições de ofertar, como ficou claro.
  • O objetivo é estabelecer um bom canal de diálogo
  • e evitar que os EUA se transformem num empecilho à movimentação global da diplomacia brasileira.

2. O Brasil e as relações triangulares

Os EUA foi, durante o século XX, o principal parceiro comercial do Brasil.

Essa posição foi suplantada pela China em 2009 e, desde então, a participação no comércio exterior tem mudado significativamente.

  • Em 2022, os EUA representaram cerca de 14% do comércio exterior brasileiro,
  • enquanto a China ficou próximo a 27% – ou seja, quase o dobro da participação estadunidense.
  • Obviamente, esse redirecionamento do fluxo comercial, mas também de investimentos e acordos de cooperação, refletem profundas mudanças sistêmicas e influenciam a inserção internacional do Brasil.

Em 2022,  o comércio bilateral entre Brasil e EUA alcançou US$ 88,7 bilhões.

  • Neste ano, o Brasil importou US$ 51,3 bilhões e exportou US$ 37,4 bilhões para os Estados Unidos, com déficit de US$ 13,9 bilhões.
  • Apesar do déficit comercial, a pauta de exportação tem um maior valor agregado, em comparação com as exportações para a China, como veremos.

Diferentemente dos EUA,

  • a China tem proporcionado superávit sistemáticos para o Brasil – apenas nos últimos seis anos, o mercado chinês nos rendeu cerca de US$ 180 bilhões de saldo comercial.
  • Aliás, desde 2002, antes de Lula assumir, o fluxo comercial passou de US$ 4,4 bilhões para quase US$ 68 bilhões quando a presidente Dilma foi derrubada do cargo, em 2016.
  • E apesar da diplomacia errática de Bolsonaro, em 2022 o comércio totalizou US$ 150 bilhões – responsável por US$ 28,9 bilhões de superávit ou quase metade do total de US$ 61 bilhões.

No Brasil, a vinculação histórica com os EUA e seus aliados produziu uma socialização e mentalidades vinculadas às ideologias e estilo de vida estadunidenses.

As forças políticas e sociais pró-EUA no Brasil são compostas principalmente

  • por partidos de direita,
  • empresariado, grande mídia
  • e setores de média e altas classes sociais, sobretudo os segmentos mais cosmopolitas que comungam de uma maior afinidade com este campo ocidental.

Recentemente, sob o governo Bolsonaro e o fortalecimento da extrema-direita.

Com a eleição do governo Lula,

  • o Brasil deve fazer um giro na sua política externa,
  • voltando a dar ênfases à cooperação Sul-Sul e aos Brics.

Por se tratar de uma coalizão governamental muito heterogênea, há grupos políticos e perspectivas muito diferentes. Na verdade, o Brasil da atualidade vive uma contradição latente.

  • De um lado, nossa socialização faz com que as inclinações culturais e ideológicas sejam voltadas aos EUA.
  • De outro, o mercado exterior e os ganhos econômicos são cada vez mais dependentes da China.

Numa frase:

  • a elite brasileira sonha com Miami mas tem seu bolso vinculado a Shanghai.
  • Talvez o setor mais ilustrativo seja o próprio agronegócio, cuja dependência do mercado chinês é enorme,
  • mas com total alinhamento com o ex-presidente Bolsonaro.

Diante desse quadro, tudo indica que Lula vai buscar extrair as melhores possibilidades diante da transição sistêmica e da crescente multipolarização.

Uma política externa que barganhe as melhores condições de inserção internacional e sirva para alavancar o desenvolvimento nacional.

Ou seja,

  • o que sabemos é que Lula não fará nenhum tipo de alinhamento automático,
  • conforme a própria tradição do Itamaraty – rompida por Bolsonaro ao se alinhar com Trump.

Em suma, Lula sabe que os EUA não têm as mesmas condições da outrora potência hegemônica do Pós-Guerra.

O recente encontro não produziu sequer uma sinalização de grandes investimentos ou acordos de cooperação importantes.

  • A diplomacia brasileira deverá dar prioridade à cooperação Sul-Sul, sobretudo ao processo de integração sul-americana, o que inclui retomar e impulsionar a Celac e a Unasul.
  • A China, como potência ascendente, desponta como um campo de possibilidades e oportunidades maior para o Brasil, embora nossas exportações estejam concentradas para o país asiático em produtos primários, sobretudo soja, petróleo e minério de ferro.

Esse é apenas uma dimensão de uma problemático desindustrialização brasileira que remonta à década de 1980.

Aliás, entre 1995 e 2020,

  • saímos da 25ª posição no ranking da complexidade econômica
  • para a 60ª – enquanto a China passou da 46ª para 17ª3.

Ou seja, não somos dependentes da China, mas das commodities.

Desde o final do governo Dilma, a partir de 2014, a situação econômica do Brasil se degenerou aceleradamente.

Segundo cálculos do centro de pesquisas da FGV (Fundação Getúlio Vargas),

  • o Brasil fechou a década de 2011 a 2020 como a pior para a economia em 120 anos,
  • com crescimento médio do PIB (Produto Interno Bruto) de apenas 0,3% – incluindo três anos em queda, 2020 -4,3%, 2016 -3,3% e 2015 -3,5%.4

Em 2021 e 2022, num contexto de pandemia, cuja gestão foi desastrosa no Brasil, a situação socioeconômica se tornou ainda mais problemática, tornando a insegurança alimentar extremamente grave.

Palavras finais

Enfim, trata-se de uma quadra histórica disruptiva de transição sistêmica.

A China é um país chave para a consecução de uma ordem multipolar oposta à neoliberal e unilateral promovida por Washington.

  • A China também pode se tornar uma variável chave para alavancar nossa industrialização,
  • desde que os investimentos e acordos de cooperação sejam condicionados por transferências tecnológicas e joint ventures.

Cabe, pois, ao Brasil realizar uma leitura acurada das oportunidades e desafios para impulsionar o desenvolvimento nacional e ocupar um lugar no sistema internacional compatível com sua estatura.


1 Ver reportagem do Poder 360: https://www.poder360.com.br/economia/brasil-tem-pior-decada-para-a-economia-em-120-anos/

2 Ver reportagem “Entenda ponto a ponto encontro entre presidentes Lula e Biden nos Estados Unidos” de O Globo: https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2023/02/entenda-saldo-de-encontro-entre-presidentes-lula-e-joe-biden-nos-estados-unidos.ghtml

3 Ver Declaração Conjunta: https://br.usembassy.gov/pt/declaracao-conjunta-da-reuniao-entre-os-presidentes-lula-e-biden/

4 Ver ranking disponível em: https://oec.world/en/rankings/eci/hs6/hs96

 

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