“Uma ferida aberta que nos dói e nos envergonha”

Primeira reacção dos bispos portugueses após o Relatório Independente de abusos sexuais de menores na hierarquia.

António Marujo – 13 fevereiro 2023

O presidente e os membros do conselho permanente da CEP: “Tolerância zero” para com abusadores, promete o episcopado. Foto Ecclesia/MC

Vários bispos da Conferência episcopal portuguesa vinham, há anos, dizendo que eventuais abusos sexuais na hierarquia e em pessoas ligadas à Igreja, se havia, eram poucos.

A coragem e determinação do Presidente da CEP, José Ornelas e a aceitação da formação da Comissão independente estão mostrando redonda e dramaticamente o contrário

 

Os abusos sexuais cometidos por membros do clero português são

  • “crimes que podem ter estado na origem de dramas e sofrimentos incomensuráveis que marcaram vidas inteiras”,
  • é “uma ferida aberta que nos dói e nos envergonha”,

disse o bispo de Leiria-Fátima e presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP, José Ornelas, na primeira declaração sobre o relatório da Comissão Independente (CI) para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica em Portugal.

Falando nesta tarde de segunda-feira, na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, o presidente da CEP estava acompanhado pelos restantes membros do conselho permanente da CEP, os bispos de Coimbra (vice-presidente), Braga, Évora, Lisboa, Porto e Santarém, além do secretário.

Ornelas chegou a emocionar-se quando falou da necessidade de a hierarquia católica

  • se encontrar com as vítimas,
  • escutar as suas histórias
  • e pedir-lhes perdão olhos nos olhos: o perdão

“não pode ser simplesmente uma questão de palavras”.

  • Estas “têm o seu lugar, se são autênticas”,
  • disse, respondendo a uma pergunta do 7MARGENS sobre os modos como os bispos podem vir a pedir perdão para além das declarações públicas.

 

A forma de o fazer está ainda em cima da mesa, para que seja um gesto “comum da Igreja em Portugal”.

Na assembleia extraordinária da CEP, de dia 3 de Março, pode ser decidida alguma iniciativa. O bispo confessou já ter falado com várias vítimas:

“Sei o que isso significa. São momentos dolorosos mas também libertadores”,

quer para a sociedade quer para a Igreja. E acrescentou, dando por instantes lugar à comoção:

“Não foram elas [as vítimas] as culpadas disso, não podem viver com essa mácula eterna para a vida.”

Por isso, o bispo Ornelas reafirmou o seu pedido de perdão

“a todas as vítimas:

  • às que deram corajosamente o seu testemunho, calado durante tantos anos,
  • e às que ainda convivem com a sua dor no íntimo do coração, sem a partilharem com ninguém”.

Numa declaração inicial lida aos jornalistas, o presidente da CEP assegurou que

  • a CEP irá “analisar detalhadamente o relatório final deste estudo”
  • para depois encontrar “os mecanismos mais eficazes e adequados para fomentar uma maior prevenção
  • e para resolver os possíveis casos que possam ocorrer, com celeridade e respeito pela verdade.”

A “tolerância zero” para com os casos de abusos, acrescentou,

  • “tem de ser uma realidade em toda a Igreja
  • e, por isso, não toleraremos abusos nem abusadores”

uma “total contradição” com a identidade e modo de agir da Igreja.

E na assembleia de 3 de Março será possível apontar medidas concretas a desenvolver.

 

Agressores serão avaliados

 

         Ilustração do artista TVBoy, sobre os abusos sexuais. Foto:                                                        Direitos reservados

 

no período de respostas aos jornalistas, o bispo de Leiria-Fátima disse que, depois de analisado o relatório e a lista de nomes que a CI irá ainda entregar à Conferência Episcopal, com os padres agressores que estão ainda no activo.

“Temos protocolos” para agir em relação a esses casos, explicou:

  • “Se há denúncia, o bispo deve fazer uma investigação sumária para averiguar a sua plausibilidade.
  • Os casos são depois enviados para a Santa Sé, que tem mecanismos de averiguação”.

Ao mesmo tempo, acrescentou, são enviados ao Ministério Público.

A mesma lógica será seguida em relação a eventuais casos de encobrimento:

  • “Não antecipo cenários sem saber do que se está a tratar”, afirmou.
  • “Os casos têm de ser confirmados, do ponto de vista de investigação criminal,
  • e este não é um processo acabado, mas apenas iniciado, em boa hora e com competência, pela CI”.

Sobre a próxima Jornada Mundial da Juventude (JMJ) em Lisboa, o presidente da CEP disse que

  • “hoje não se faz nenhum evento para jovens e adolescentes”   sem que o tema dos abusos esteja presente.
  • Isso significa que o tema não deixará de ser reflectido na JMJ de Agosto em Portugal.

Na intervenção inicial, o presidente da CEP recordou o processo que levou os bispos a decidir criar a CI, em Novembro de 2021.

  • “Motivou-nos a certeza comum, entre todos os bispos, de que menores e pessoas frágeis têm de sentir protecção e segurança nos ambientes da Igreja Católica,
  • como nos pede insistentemente o Papa Francisco.
  • Hoje, eis-nos chegados à conclusão de uma importante etapa que nos permite conhecer, de forma mais sistematizada, esta dolorosa realidade.”

Ao contrário do que foram as declarações de vários bispos, desvalorizando o fenómeno,

  • o bispo de Leiria-Fátima foi assertivo ao reconhecer que o relatório da CI exprime “uma dura e trágica realidade:
  • “houve, e há, vítimas de abuso sexual provocadas por clérigos e outros agentes pastorais, no âmbito da vida e das atividades da Igreja em Portugal.”

 

Dirigindo-se às vítimas, o bispo disse ainda:

  • “Nas vossas vidas atravessou-se a perversidade onde não deveria estar.
  • O vosso testemunho é para nós um alerta e um pedido de ajuda a que não queremos nem podemos ficar surdos.
  • Temos consciência de que nada pode reparar o sofrimento e a humilhação que foram provocados, a vós e às vossas famílias,
  • mas estamos disponíveis para vos acolher e acompanhar na superação das feridas que vos foram causadas e na recuperação da vossa dignidade e do vosso futuro.”

Na sua declaração, o bispo falou de “crimes hediondos” e pediu desculpa

  • por a hierarquia da Igreja não ter “sabido criar formas eficazes de escuta e de escrutínio interno”
  • e por nem sempre ter “gerido as situações de forma firme e guiada pela proteção prioritária dos menores”.

José Ornelas agradeceu ainda à CI e ao seu coordenador, Pedro Strecht, mas defendeu que “a vida da Igreja em Portugal não se encerra” na questão dos abusos.

  • “Há muitas pessoas e instituições eclesiais a dedicar-se aos mais frágeis, aos mais necessitados e aos mais pobres,
  • e a realidade dos abusos não pode fazer esquecer o imenso bem, tantas vezes silencioso, de sacerdotes, religiosos/as e leigos/as
  • empenhados em tantas situações, a quem queremos dar uma palavra de conforto e coragem.”

Gostaria, ao terminar, de dirigir uma palavra ao Dr. Pedro Strecht que aceitou o nosso convite e desafio para coordenar este estudo.

A ele e à sua equipa, que constituiu de forma totalmente livre e autónoma, agradeço o trabalho desenvolvido ao longo do último ano.

A vossa competência, dedicação e profissionalismo permitiram que, dentro do prazo previsto, chegássemos hoje a um conhecimento mais concreto da verdade histórica dos abusos sexuais de menores no seio da Igreja em Portugal.

Sistema Solar - António Marujo

 

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