“O ouro está sujo de sangue yanomami”, diz Davi Kopenawa

10 de fevereiro de 2023

Líder yanomami acusa Bolsonaro de genocídio por permitir avanço do garimpo na terra indígena, o que deixou rastro de destruição e morte. Manifestando tristeza e revolta, ele diz esperar que Lula cumpra promessas.

Davi Kopenawa aprendeu cedo que o homem branco representava uma ameaça para o seu povo.
Sua família foi quase totalmente dizimada por doenças trazidas pelo contato com servidores do antigo Serviço de Proteção ao Índio (SPI), no final dos anos 1950.
A tragédia se repetiria na década seguinte,  com a entrada de agentes da organização New Tribes Mission no território para catequizar os indígenas, o que ocasionou uma segunda epidemia nas comunidades.
Agora, o xamã e líder do povo Yanomami luta contra mais uma onda de mortes e invasões.

Nesta semana, teve início a operação de retirada dos invasores da terra indígena.

Kopenawa elogia a ação, com a desconfiança de quem viu o problema voltar após a remoção de 40 mil garimpeiros nos anos 1990.

“Eu ficaria muito feliz se o Lula conseguisse fazer o que prometeu. Se acontecer, eu vou voltar a falar com vocês para agradecer.

  • Neste momento, não vou agradecer.
  • Só depois, quando estiver tudo limpo e resolvido – com casa de vigilância para não entrar mais garimpeiro e proibição para o uso de gasolina de avião”,

afirma o xamã, em entrevista à DW.

 

Apesar do “pé atrás”, Kopenawa consegue agora olhar para o futuro com esperança.

Desde 2015, ele vem denunciando o avanço do garimpo ilegal no território yanomami. Os apelos foram ignorados pelas autoridades.

  • O ex-presidente Jair Bolsonaro esteve na região uma única vez, em 2021, durante a pandemia.
  • Na ocasião, inaugurou uma ponte que facilitava o acesso de garimpeiros e defendeu a mineração em terras indígenas.

Foi em seu governo que a presença de invasores explodiu.

  • “O Jair Bolsonaro é genocida. Ele matou a água, a floresta, os peixes e as nossas crianças”, diz o líder yanomami.
  • Eu estou me sentindo triste, revoltado e com vontade de me vingar. A alma do xamã está chorando.”

Kopenawa chama atenção, ainda, para a importância do apoio da comunidade internacional.

  • Ainda não foram criadas normativas internacionais que visem a proibir o comércio de minérios extraídos da Amazônia,
  • na linha do que a União Europeia tem buscado fazer com os “minérios de sangue” da África.

Um estudo do Instituto Escolhas mostra que, em 2021,

  • 52,8 toneladas de ouro comercializadas no Brasil tinham graves indícios de ilegalidade,
  • o que corresponde a mais da metade (54%) da produção nacional.

“Com o preço do ouro tão alto, os garimpeiros vão continuar a trabalhar.  

  • Os garimpeiros não têm terra para eles trabalharem.  Garimpeiros são pobres.
  • Quem está rico é dono de avião, da loja de ouro. Esse pessoal está faturando com o ouro retirado da Terra Yanomami.
  • É ouro com sangue dos meus filhos, meus sobrinhos, primos, que morreram, o garimpo matou. O ouro é sujo de sangue do meu povo”, atesta Davi.

 

O líder yanomami esteve em Nova York na semana passada, a convite dos organizadores da exposição A luta yanomami.

  • Há mais de 30 anos, Kopenawa viaja o mundo para defender seu povo e a Amazônia.
  • Com o antropólogo belga Bruce Albert, escreveu o livro A Queda do Céu, lançado em 2010. A obra é tida como um marco transformador, pela inversão de perspectiva que coloca o indígena na condição de observador, em vez de objeto.
  • Em 1989, ele recebeu o prêmio Global 500 da ONU e, em 2019, foi laureado com o Right Livelihood Awards, conhecido como Nobel alternativo.

 

DW: Enquanto liderança yanomami, como você se sente ao ver seu povo sofrer com doenças, fome e violência?

Davi Kopenawa: O meu sentimento não vem de hoje. Quando eu era pequeno, nos meus 10, 11 anos, comecei a sofrer com a chegada do homem branco. O que acontece agora, 2023, é muito ruim para mim, para todo o povo Yanomami. O sentimento é de luto.

  • Estou de luto por causa dos nossos filhos, nossas filhas, nossas netas, nossos irmãos e irmãos. Todos estão contaminados.
  • O garimpo está lá nas florestas, destruindo os igarapés, cavando buraco, deixando a água suja, matando peixe e usando mercúrio. Mercúrio é uma doença.

Há sete anos, eu venho denunciando e avisando ao governo federal, ao Ministério Público, à Funai e outros parceiros que trabalham com meu povo Yanomami.

  • Tem 60 mil a 70 mil garimpeiros no território.
  • Eles estão junto com autoridades, deputados, senadores, que financiam e apoiam a obra do garimpo.
  • É por isso que ficou muito ruim, e a doença está lá hoje.

Antigamente, não tinha tudo isso. Antigamente, era um lugar sadio, com beleza, porque não tinha garimpo.

  • Agora que o garimpo está lá, contaminou a água e nosso sangue, pela doença da malária. A malária mata. E todo mundo está com fome.
  • O garimpo fica de um a dois anos trabalhando sem sair das comunidades onde se instalam. Então, só aumentaram as doenças.
  • As crianças, de 11 a 14 anos, ficam desamparadas quando o pai e a mãe morrem.

A criança fica doente, não pode procurar comida. Então, é uma mistura da fome com a doença.

Eu não paro de pensar, não paro de pensar nisso. É porque eu sou yanomami. Eu sou a liderança do meu povo Yanomami, então tenho o direito de reclamar e avisar vocês, para vocês saberem, divulgarem e denunciarem.

 

Qual é o papel do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro na crise humanitária vivida pelo povo Yanomami?davi kopenawacrise

O Jair Bolsonaro é genocida.

  • Ele matou a água, a floresta, os peixes e as nossas crianças. Elas não têm culpa.
  • O garimpo chega lá como se fosse dono da casa. Eles tratam nossos filhos como se fossem animais, galinha, cachorro.
  • Trazem bebidas alcóolicas e o alimento da cidade, que não é sadio, não é bom para o povo da floresta.
  • As crianças comem o resto de comida dos garimpeiros, e as doenças são transmitidas pela saliva – gripe, pneumonia. Isso passou para nossas mulheres, nossos irmãos.

O garimpeiro também é usado, explorado pelos homens que têm dinheiro e poder. Eles são mandados e são viciados.

  • Faz tempo que o garimpo está matando meu povo da floresta. A doença está lá na minha casa.
  • Os garimpeiros também estão dando armas de fogo para os yanomami ficarem quietos, não brigarem contra eles. É o jogo deles.

Eu peço para vocês apoiarem a minha luta, ficarem de olho, porque nosso povo Yanomami, originário, está precisando da ajuda de vocês. Vocês têm força para pressionar. O governo que ficou quatro anos fez muito mal para o meu povo, deixou as pessoas doentes.

Você precisa espalhar, todo mundo precisa saber que a Floresta Amazônica não está protegida. Os filhos da Amazônia também não estão protegidos, e estão doentes.

Esta minha fala vai esparramar para poder resolver os problemas que estão sendo causados: fome, doença e morte. Eu estou me sentindo triste, revoltado e com vontade de me vingar.

A alma do xamã está chorando. Hoje, o governo é outro. O Lula também tem que fazer um trabalho bom, não pode repetir o que o governo anterior fez.

 

O governo federal atua agora para retirar os garimpeiros do território Yanomami. Você tem esperanças de que a situação melhore?

Eu sou desconfiado, desde pequeno, vendo o que aconteceu com o meu povo. Eu conheço o presidente Lula. Quando ele estava querendo se eleger presidente, eu o conheci. Ele é de uma família pobre e conseguiu pensar em ajudar os parentes que estão precisando de apoio.

A minha esperança está no que ele falou. Estou calado, não queria atrapalhar.

Deixa ele fazer o plano de retirada dos garimpeiros da Terra Yanomami, como ele prometeu, limpar o lugar do meu povo e mandar os garimpeiros de volta para a casa deles.

Eu queria que o Lula os levasse de volta para onde eles nasceram e moraram, seja no Maranhão, Ceará, São Paulo.

Eu só vou acreditar quando eles realmente tirarem tudo.

  • Tem que ser como uma rede que pega os peixes, rede grande, para pegar todos os garimpeiros que estão lá,
  • não deixar nenhum escondido, varrer tudo para levar de volta para onde eles moram.
  • É isso que estou esperando.

Eu queria também pedir para ele construir a casa de vigilância do nosso território, para vigiar o povo que está lá, envenenado, doente, para os garimpeiros não voltarem.

Tem que ter uma casa vigilância para não deixar mais ninguém colocar a gente em perigo. É isso que eu vou pedir. Esta é a minha esperança, e vamos ver o que ele vai fazer de verdade.

Eu não quero que ele fique prometendo e enganando. Não sou uma liderança para ninguém enganar.

  • Ele tem que cumprir as palavras que saíram pela boca e nós escutamos.
  • Eu também queria que todas as autoridades dessem apoio, ministros, governadores.
  • E os europeus também têm que somar forças. Uma pessoa sozinha não tem poder, é fraca.

Eu quero que vocês gostem do que eu estou falando. É preciso apoiá-lo e mandar recursos. Sem dinheiro, ele não vai fazer nada, porque o trabalho de retirada do garimpeiro custa caro. Sem dinheiro, o homem não trabalha.

Eu ficaria muito feliz se o Lula conseguisse fazer o que prometeu.

  • Se acontecer, eu vou voltar a falar com vocês para agradecer.
  • Neste momento, não vou agradecer. Só depois, quando estiver tudo limpo e resolvido –
  • com casa de vigilância para não entrar mais garimpeiro e proibição para o uso de gasolina de avião. Tem que proibir tudo.

E eu espero que o Lula tente derrubar o preço do ouro. Com o preço do ouro tão alto, os garimpeiros vão continuar a trabalhar.

Os garimpeiros não têm terra para eles trabalharem. Garimpeiros são pobres.

  • Quem está rico é dono de avião, da loja de ouro. Esse pessoal está faturando com o ouro retirado da terra Yanomami. É ouro com sangue dos meus filhos, meus sobrinhos, primos, que morreram, o garimpo matou. O ouro é sujo de sangue do meu povo.

 

Por que o território é tão importante para o seu povo?

Para nós, povos originários, que há mais de 522 anos estamos morando lá, naquela região, a floresta é uma vida que a natureza criadora deixou para o povo Yanomami. Omama é nosso Deus, Omama plantou a floresta, os rios, terra, alimento, para o povo Yanomami viver em paz

A gente usa a terra para trabalhar, caçar, usa como saúde. A terra sustenta a nossa alimentação.

  • Sem a terra, não tem alimento.
  • Sem a água, vamos morrer de sede.
  • Sem a floresta, não tem fruta, castanha, buriti, açaí. A terra é feita para o povo que mora lá há muitos anos. É um território que nós conquistamos, o governo não deu.

Muita gente está de olho na Terra Yanomami como se fosse mercadoria, em busca de ouro, madeira, terra boa, soja, gado. É por isso que o mundo inteiro está de olho.

Se a terra não fosse rica, o governo não olharia para mim.

Isso também é muito perigoso para mim, porque as autoridades estão interessadas em tirar riqueza de onde os yanomami estão morando.

A terra é vida, o lugar onde nós nascemos, onde vamos morrer, onde nossas gerações vão continuar. É uma casa para o povo originário.

 

João Pedro Soares Repórter@soaresjp_

 

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