Equador: notável guinada à esquerda

 

OUTRASPALAVRAS – MOVIMENTOS E REBELDIAS

 

Eloy Osvaldo Proano, Author at Outras Palavras

Imagem: Martin Bernetti / AFP

Por Eloy Osvaldo Proano, no Estrategia | 08/02/2023 – Tradução: Rôney Rodrigues

Em eleições emblemáticas, a direita liderada pelo presidente-banqueiro Guillermo Lasso perdeu o governo das maiores cidades e um referendo, em que tentou impor agenda punitivista. No exílio, ex-presidente Rafael Correa é maior vencedor

 

A oposição progressista no Equador – liderada pelo partido do ex-presidente Rafael Correa saiu fortalecida após o rechaço dos cidadãos no referendo promovido pelo governo do banqueiro-presidente Guillermo Lasso e conquistou os estados e as prefeituras mais populosos, incluindo Quito e Guayaquil, nas eleições de meio de mandato no país andino, realizadas neste domingo (5/2).

  • Os equatorianos também se recusaram categoricamente a aprovar um referendo no qual foram feitas oito perguntas
  • focadas principalmente em questões de segurança, a principal preocupação dos cidadãos.
  • Esta eleição foi um duro teste para Lasso, no poder desde 2021, cuja impopularidade chegou a 80%.

O correísmo, grande promotor do Não no referendo, parece fortalecido após as eleições subnacionais.

  • Os candidatos progressistas da Revolução Cidadã[fundado pelo ex-presidente Rafael Correa, no auto-exílio na Bélgica desde 2017] 
  • contam agora com as prefeituras dos três estados mais populosas do país:
  • Pichincha, Guayas e Manabí. Marcela Aguinaga, em Guayas; Paola Pavón, em Pichincha; e Leonardo Orlando, em Manabí, foram eleitos governadores.

 

Depois destas eleições em que os equatorianos elegeram

  • 700 autoridades locais, que tomarão posse em maio por um período de quatro anos, a
  • ssim como os membros do Conselho de Participação Cidadã e Controle Social – que designa as principais autoridades de controle como juízes, procuradores e controladores –,
  • a população rejeitou as oito questões do referendo constitucional promovido pelo governo, onde Lasso jogava com sua agenda política.

 

O Estado equatoriano é composto por cinco poderes ou “funções”: Legislativo, Executivo, Judiciário, Transparência e Controle Social e Eleitoral.

O resultado do referendo deve ser entendido no contexto que o país atravessa, marcado pela crise de liderança do governo Lasso e uma profunda crise de insegurança, com redes de criminalidade e narcotráfico, explicou Andrés Chiriboga, analista político equatoriano que aponta que o Executivo

“tentou encontrar oxigênio e aproveitar as eleições locais para colocar na mesa supostas soluções para estas questões, para mostrar que alguns problemas vão ser resolvidos”.

 

Novo quadro político?

Na disputa pela prefeitura de Guayaquil,

  • Aquiles Álvarez, do movimento Revolução Cidadã, venceu a atual prefeita Cynthia Viteri, do Partido Social Cristão-Madera de Guerrero (PSC-MG)
  • e a correista Marcela Aguiñaga conquistou o governo estadual de Guayas, onde localiza-se Guayaquil.
  • Os social-cristãos perderam, após 31 anos, a hegemonia política na província.

Outro perdedor desta rodada eleitoral

  • é o movimento Pachakutik[de tendência indigienista] que apostou nas candidaturas de Jorge Yunda e Guillermo Churuchumbi
  • para chegar à Prefeitura de Quito, capital do país, e à Prefeitura de Pichincha.

E a baixa votação de Jorge Guamán, que era prefeito de Cotopaxi, mas desta vez candidato a prefeito de Latacunga, demonstra o golpe sofrido por essa linha numa região nevrálgica para o movimento indígena.

O mesmo aconteceu em outras províncias como Manabí, El Oro e Azuay onde os candidatos da Revolução Cidadã lideravam a apuração dos votos, que tardaram muito, após pesquisas pagas pelo governo anunciarem uma ampla vitória de Lasso e seu referendo.

A participação eleitoral foi de 80,74% dos 13,8 milhões de cidadãos aptos a votar. Poucas horas antes do início do dia eleitoral,

  • a Revolução Cidadã informou que Omar Menéndez, candidato a prefeito de Puerto López, no estado de Manabí, foi assassinado na noite de sábado.
  • Essa morte não foi a única que antecedeu as eleições: em 22 de janeiro a polícia confirmou o assassinato de Julio César Farachio, candidato a prefeito em Salinas durante sua campanha.

 

Oito vezes Não

As oito questões propostas pelo referendo tratavam sobre

  • extradição,
  • autonomia do Ministério Público,
  • redução de deputados,
  • registro partidário,
  • sobre autoridades de controle,
  • reestruturação do CPCCS (Conselho de Participação Cidadã e Controle Social),
  • do subsistema de proteção das águas
  • e de compensações para apoiar geração de serviços ambientais.

 

O referendo também abordou iniciativas como

  • o controle de movimentos políticos, alguns que são suspeitos de fazer parte do narcotráfico,
  • a incorporação de sistemas hídricos em áreas protegidas,
  • o combate ao garimpo ilegal
  • e a entrega de indenizações aos ativistas ambientais.

 

Em plena guerra contra o narcotráfico, Lasso votou em sua cidade natal, Guayaquil,

  • onde marcou o Simnas oito perguntas que ele mesmo propôs para o referendo,
  • entre elas a de permitir a entrega (aos EUA) de compatriotas envolvidos com o crime organizado transnacional, como narcotráfico e corrupção.

A maioria da população votou Não.

 

Ao mesmo tempo em que o narcotráfico cresceu no Equador (200 toneladas de drogas foram apreendidas em 2022), a violência também aumentou durante o governo Lasso.

As prisões são palco de recorrentes massacres entre presos rivais — e a taxa de homicídios por 100 mil habitantes quase dobrou entre 2021 e 2022, passando de 14 para 25.

  • O Equador, portanto, é um país acossado pela violência que saltou das ruas para as prisões, com confrontos frequentes entre presos ligados ao narcotráfico que já deixaram mais de 400 mortos desde 2021.
  • Os massacres de detentos se tornaram um dos piores da América Latina.

 

Sobre as heranças do governo de Lenin Moreno,

  • deu-se o triunfo de Guillermo Lasso e de seu governo empresarial-neoliberal sustentado por um inédito bloco de poder
  • sob a hegemonia dos grandes grupos econômicos e midiáticos — e o predomínio de forças da direita política.

 

“O Não ganhou o referendo. É o desastre da direita. É o fim da hegemonia do Partido Social Cristão em Guayas. O próximo passo é a destituição de Lasso”,

tuitou o economista Pablo Dávalos. Até agora, o que Lasso fez foi sair de cena.

 

ELOY OSVALDO PROANO 

Analista e pesquisador equatoriano, associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE, www.estrategia.la).

 Fonte: https://outraspalavras.net/movimentoserebeldias/equador-notavel-guinada-a-esquerda/

 

 

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