OUTRASPALAVRAS – GEOPOLÍTICA & GUERRA

Por Antonio Martins – Publicado 07/02/2023
Como Washington usou um incidente banal como pretexto para tornar ainda mais tensas suas relações com Pequim. O que o episódio e seu contexto revelam sobre o papel que cada grande potência quer jogar na ordem global
Um balão não tripulado, proveniente da China, cruzou o espaço aéreo dos EUA entre 28 de janeiro e 4 de fevereiro.
Penetrou-o pelo Alasca e, depois de costear o Canadá, navegou lentamente no sentido noroeste-sudeste até ser abatido por um caça F-22, no litoral da Carolina do Sul.
Em terra, sua trajetória despertou ódio e fúria.
- Foi tratado desde o início como um artefato de espionagem e uma ameaça à soberania do país,
- sem que nenhum indício que o demonstrasse fosse apresentado.
Os falcões do Partido Republicano acusaram o presidente Joe Biden de hesitar antes de destruí-lo.
- Afirmou-se que ele passou sobre os silos da armas atômicas do estado de Montana, podendo ter obtido ali informações estratégicas.
- Aparentando indignação, o secretário de Estado Joe Blinken adiou indefinidamente uma viagem que faria a Pequim, para tentar normalizar as relações entre os dois países, abaladas por anos de tensões.
A China tentou, sem sucesso, apresentar evidências tranquilizadoras.
- A porta-voz do ministério das Relações Exteriores, Mao Nang, afirmou tratar-se de um balão científico-metereológico que se desviou da rota por acidente.
- Circunstanciou: o governo chinês manteve os EUA informados sobre o problema todo o tempo.
- E lembrou que ocorrências do tipo, com balões de todas as procedências, não são raras.
Algumas vozes norte-americanas também convocaram à calma e à razão.
Um artigo de David Frum da revista The Atlantic lembou que os chineses mantêm 562 satélites em órbita da Terra (um número inferior apenas ao dos próprios EUA),
- sendo portanto improvável que precisassem recorrer a um artefato tecnologicamente tão rudimentar.
- O autor lembrou, ademais, que a vigilância aérea recíproca é prática comum nas relações internacionais, sendo regulamentada por um acordo multilateral de 1992 – o Treaty on Open Skyes,
- fruto de uma proposta lançada em 1955 pelo presidente Dwight Eisenhower, que então ocupava a Casa Branca…
De pouco serviu, porque o cancelamento da agenda de Blinken parece estar ligado a outra dinâmica: a tentativa de acirrar o estresse com Pequim.
Para entender a lógica deste movimento, valer atentar a uma entrevista concedida ao Financial Times, em janeiro último, pelo general James Bierman, comandante geral das tropas norte-americanas estacionadas no Japão.
Ao comentar o desgaste sofrido pela Rússia na guerra da Ucrânia, Bierman questionou: “Por que alcançamos este sucesso”?
Boa parte da resposta está, segundo ele, no fato de os norte-americanos terem, desde 2014,
“se preparado sinceramente para o futuro conflito:
- treinando os ucranianos,
- pré-posicionando suprimentos,
- identificando os pontos a partir dos quais era possível garantir apoio e sustentar as operações”.
E a mesma estratégia, ele prosseguiu está dirigida contra a China.
“Chamamos isso de montagem do cenário. Estamos montando o cenário no Japão, nas Filipinas, em outros locais”.
É algo como uma cilada militar, que implica provocar Pequim ao máximo (como se fez com Moscou), até levá-la a uma ação militar contra Taiwan.
- Alcançado este objetivo, os EUA poderão – como na Ucrânia –
- assistir de camarote ao atolamento de seu adversário numa guerra de desgaste prolongada.
* * *
Funcionará?
Insuspeito de ser pró-chinês, o New York Times publicou, nos últimos dias, três reportagens internacionais que ajudam a desvendar a postura de cada uma das grandes potências atuais diante de uma ordem geopolítica turbulenta e em mutação – e suas chances de êxito.
A primeira tem foco nas Filipinas.
- Os EUA, cujo orçamento militar já beira 1 trilhão de dólares ao ano (e é maior que os gastos bélicos somados dos dez países seguintes na lista),
- acabam de firmar acordo para montar mais nove bases militares no país.
- Sua localização não foi revelada, mas é provável que uma delas situe-se no Mar da China, a apenas 150 quilômetros de Taiwan, especula o jornal.
A segunda reportagem trata da Indonésia,
- onde EUA e China disputam influência palmo a palmo – mas com planos de ação distintos.
- Em novembro, fracassou uma tentativa de Washington, que queria vender 36 caças militares.
- O governo indonésio rechaçou a oferta.
Pequim, por seu turno, investe em infraestrutura, extração mineral e Saúde.
- Financiamentos de bilhões de dólares estão viabilizando a construção de ferrovias e a exploração econômica do níquel.
- No momento mais crítico da pandemia, a Sinovac entregou milhões de doses de vacinas contra a Covid (as mesmas que chegaram ao Brasil, pelo Instituto Butantã).
- A matéria reconhece: Jacarta parece pender decisivamente para o lado chinês. É fácil perceber os motivos.
Um terceiro texto descreve a resposta imediata chinesa à desglobalização – em especial à tendência ao nearshoring.
- Alarmadas com o rompimento das cadeia produtivas globais, e o aumento explosivo do custo dos fretes,
- muitas empresas estão optando por encontrar fornecedores próximos, evitando longas viagens marítimas ou o risco de desabastecimento.
A reportagem revela que, para acessar o mercado estadunidense,
- dezenas de companhias chinesas estão se instalando em território mexicano – muitas delas no estado de Nuevo León, bem junto à fronteira com o Texas.
- Não se trata de escritórios ou de “maquiadoras”, mas de fábricas inteiras, que empregam milhares de pessoas e se abastecem na economia local.
* * *
Atribui-se a Napoleão Bonaparte ter notado que se pode fazer qualquer coisa com baionetas – exceto sentar sobre elas.
Se ele ainda estiver correto, é provável que a estratégia norte-americana fracasse. Será um alívio.
O caso do “balão espião” mostra a que ponto chega a irracionalidade dos que apostam essencialmente nas armas para manter sua hegemonia – e como eles pode ser perigosos.
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Antonio Martins
Fonte: https://outraspalavras.net/geopoliticaeguerra/eua-x-china-o-caso-do-balao-espiao/
