Passados dez anos sobre um aviso — na prática, para a opinião pública, a condenação de Andrés Torres Queiruga, pelo episcopado espanhol –, vem ele, numa entrevista à Vida Nueva, esclarecer que a sua teologia quis ser sempre “um serviço livre ao Evangelho” e que, com o Papa Francisco, aparece, felizmente, cada vez mais como “legítima uma crítica sã e livre na Igreja”.
Retomo o que então escrevi sobre quem considero — e não sou o único — um dos maiores teólogos católicos vivos.
- Para mim, A. Torres Queiruga foi e é o teólogo que, de modo mais profundo e conseguido,
- enfrentou o cristianismo com a modernidade e a modernidade com o cristianismo.
Deixo aqui três aspectos que considero nucleares do seu pensamento.
1. Tudo arranca (parte – NdR) da fé, com razões, no Deus que cria por amor.
- Deus não criou por causa d’Ele, da sua maior honra e glória,
- mas apenas por causa das criaturas e da sua felicidade.
Tomada no seu sentido radical, a criação por amor, a partir do nada, implica,
- por um lado, a presença suma de Deus à sua criação, de tal modo que, se Ele se retirasse, tudo voltava a donde veio, isto é, ao nada,
- e, por outro, a autonomia das criaturas.
Assim, a ciência, a política, a economia, a própria moral, não vão buscar a sua legitimação à religião, pois devem reger-se pelas suas próprias leis.
Segue-se que,
- sendo tudo milagre — o que existe podia pura e simplesmente não existir –,
- não há milagres no sentido da suspensão das leis que regem a natureza.
De facto, os milagres supõem o que não é pensável:
- um Deus “intervencionista”, que está fora do mundo e que, de vez em quando e de forma arbitrária, vem dentro.
- Ora, Deus, ao mesmo tempo que é infinitamente transcendente ao mundo, é infinitamente presente ao mundo,
- e é, enquanto Anti-mal, sempre Força infinita criadora e potenciadora das possibilidades das criaturas.
2. Deste modo, torna-se inteligível o conceito fundamental das religiões, a revelação: como sabem os crentes que Deus falou?
Tudo o que é autenticamente religioso é resposta humana a perguntas profunda e radicalmente humanas.
O que a especifica é o facto de descobrir nela a presença viva de Deus que quer manifestar-nos o seu amor e salvação. Há uma só realidade para crentes e não-crentes.
- O que acontece é que o crente tem a convicção de que a realidade não se esgota na sua imediatidade empírica,
- e essa convicção não surge porque é crente, mas porque a própria realidade, para a sua compreensão adequada, se apresenta incluindo uma Presença divina
- , que não se vê em si mesma, mas está implicada no que se vê.
Mediante certas características – a contingência radical, a morte e o protesto contra ela, a exigência de sentido último -, a própria realidade se mostra implicando essa Presença divina como seu fundamento e sentido último.
Assim, cito, na estrutura íntima do processo religioso,
- “não se interpreta o mundo de uma determinada maneira porque se é crente ou ateu,
- mas é-se crente ou ateu porque a fé ou a não-crença aparecem ao crente e ao ateu, respectivamente, como a melhor maneira de interpretar o mundo comum”.
3. A fé na ressurreição de Jesus é central no cristianismo.
- Mas ela não é a reanimação do cadáver, nem pode ser constatável pelos historiadores.
- Ela é real, mas não é um facto da história empírica.
- Se o fosse, seria constatável empiricamente e não era precisa a fé, nem seria ressurreição.
Os discípulos
- que, como Jesus, confessavam cada dia, na Shemoné Eshré, a fé no “Deus que ressuscita os mortos”
- e que tinham acreditado em Jesus continuaram a crer n’Ele, após a sua morte,
- uma morte que testemunhava o que foi o centro da sua mensagem por palavras e obras: que Deus é amor.
Mais uma vez, reflectindo,
- aprofundaram a convicção avassaladora de fé de que Jesus não morreu para o nada,
- mas para o interior da vida de Deus, que é a vida plena e eternal.
- E disso deram testemunho até à morte.
4. “Ou Deus quer tirar o mal do mundo, mas não pode, ou pode, mas não quer.
- Se quer e não pode, é impotente;
- se pode e não quer, não nos ama;
- se pode e quer, donde vem o mal real e por que é que não o elimina?”
Quando se considera este famso dilema de Epicuro, é preciso ser consequente.
De facto, não é legítimo invocar o mistério de modo cego, pois não pode ir contra a razão.
- Que diríamos de alguém que, podendo aliviar as dores de outra pessoa, o não fizesse?
- Não seria um sádico?
Assim, ou há alguma falha no dilema ou só resta a alternativa do ateísmo.
O que falha é o pressuposto de que é possível um mundo perfeito. Ora, um mundo finito perfeito não é possível, pois é contraditório.
Um mundo finito
“não pode existir sem que no seu funcionamento e realização apareça também o mal”.
Mas então ergue-se a pergunta:
como pode Deus dar-nos a salvação plena que esperamos após a morte, se continuaremos finitos e a finitude é que torna inevitável a existência do mal?
Este mundo é finito, mas perfectível… O tempo pertence à estrutura do ser finito. O crente é aquele que espera — e o ser humano é constitutivamente esperante –, após o tempo do crescimento e da maturação na história, a salvação plena por dom gratuito do Deus.
Então, já para lá dos limites da História,
- “não se pode afirmar que seja contraditório que, ao intensificar-se a presença criadora fora dos limites do espaço e do tempo,
- a criatura participe, de algum modo, com tal força na infinitude divina, que resulte livre do mal”,
conclui Andrés Torres Queiruga.

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia.
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Fonte: https://www.dn.pt/edicao-do-dia/04-fev-2023/a-criacao-a-ressurreicao-o-mal-e-deus-15774510.html