O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes determinou nesta sexta-feira (03/02) que o senador Marcos do Val (Podemos-ES) seja investigado
- por suspeita de falso testemunho, denunciação caluniosa e coação no curso do processo,
- após dar quatro versões diferentes sobre o suposto golpe articulado pelo ex-deputado Daniel Silveira (PTB-RJ)
- com a conivência do então presidente Jair Bolsonaro (PL).
Na quinta-feira,
- Moraes havia autorizado a Polícia Federal (PF) a colher o depoimento de Do Val na condição de testemunha
- numa investigação aberta para apurar os atos golpistas que culminaram na invasão das sedes dos três Poderes por bolsonaristas radicais em 8 de janeiro.
Marcos do Val foi eleito em 2018, com 863 mil votos, para um mandato de oito anos. Ele chegou a dizer que renunciaria ao cargo, mas depois voltou atrás.
Acusações contra Bolsonaro e Silveira
O caso veio a público após Do Val afirmar em uma transmissão ao vivo nas redes sociais na madrugada da quinta-feira (02/02)
- que recebeu, em dezembro, um pedido do ex-deputado Silveira para gravar uma conversa com o ministro Moraes
- para tentar incriminá-lo e anular a eleição presidencial de outubro, perdida por Bolsonaro.
- Segundo Do Val, o ex-presidente participou da reunião na qual o pedido foi feito.
“Eu ficava puto quando me chamavam de bolsonarista. Vocês me esperem que vou soltar uma bomba. Sexta-feira vai sair na Veja a tentativa de Bolsonaro de me coagir para que eu pudesse dar um golpe de Estado junto com ele, só para vocês terem ideia. E é lógico que eu denunciei”,
disse Do Val, em um debate na internet com membros do Movimento Brasil Livre (MBL).
Após as revelações, a Veja antecipou a publicação da reportagem exclusiva.
Qual seria o plano
À Veja, o senador relatou que, com o apoio de um grupo muito restrito, Silveira e Bolsonaro teriam elaborado o seguinte plano:
- alguém de confiança do presidente se aproximaria do ministro Alexandre de Moraes, que também exerce a presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE),
- devidamente equipado para gravar as conversas do magistrado com o intuito de captar algo comprometedor que servisse como argumento para prendê-lo.
A prisão de Moraes seria o estopim que levaria a uma série de medidas que provavelmente atirariam o país numa confusão institucional sem precedentes desde a redemocratização.
Do Val disse que foi escolhido para levar adiante a trama pelo fato de ter uma relação de mais de dez anos com Moraes e, portanto, estar acima de suspeitas.
Em entrevista à GloboNews, o senador disse que Silveira foi claro sobre o plano:
“O nosso objetivo é anular a eleição, manter o presidente no cargo e o ministro Alexandre ser preso'”,
teria dito Silveira, segundo Do Val.

Como foi a reunião
- Segundo a Veja, a reunião entre Do Val, Silveira e Bolsonaro ocorreu no Palácio da Alvorada em 9 de dezembro e durou cerca de 40 minutos.
- Mais tarde, à Globonews, o senador disse que o encontro teria ocorrido na Granja do Torto, a residência de campo da Presidência da República.
- Depois, em nova entrevista à emissora, ele voltou a dizer que havia sido no Palácio da Alvorada.
Naquele mesmo dia, após semanas de silêncio, Bolsonaro fez uma de suas poucas aparições públicas após as eleições para falar com apoiadores.
- Na ocasião, ele pediu desculpas por eventuais erros e destacou sua ligação com as Forças Armadas,
- em uma mensagem aparentemente sem sentido para quem havia ficado tanto tempo calado.
“A ideia é que eles colocariam um equipamento de gravação, teria um veículo já próximo ao STF captando o áudio, e eu, nessa reunião com o ministro Alexandre, eu conduzindo, para ele falar que em alguns dos processos dele ele ultrapassou as linhas da Constituição”,
explicou o senador nesta quinta à Agência Senado.
Versões sobre a reação de Bolsonaro
Na primeira versão de seu relato, em entrevista à Veja,
- Do Val disse que, na reunião, Bolsonaro conversou sobre os acampamentos mobilizados em apoio a ele.
- Em seguida, após ser apresentado ao plano, o senador perguntou como este seria colocado em prática.
Segundo a revista,
- o ex-presidente teria respondido que já tinha acertado com o Gabinete de Segurança Institucional (GSI)
- que o órgão – responsável pela segurança do presidente – daria o suporte técnico à operação de gravação fornecendo os equipamentos de espionagem necessários.
Mais tarde, à GloboNews,
- Do Val retirou a informação e disse que Bolsonaro somente afirmou que não pediria a desmobilização dos acampamentos para não sinalizar a Moraes que estaria envolvido na organização.
- Nessa versão, teria sido Silveira quem afirmou que o GSI estaria à disposição.
Na mesma entrevista,
- o senador disse que Bolsonaro indicou concordar com a ideia.
- Mais tarde, em nova entrevista à emissora, ele retirou a informação: “Bolsonaro ouviu tudo e ficou calado.”
- Do Val disse, contudo, que o ex-presidente não rejeitou as ideias de Silveira.
Também à GloboNews, Do Val afirmou que
- Bolsonaro voltou a falar com ele no encontro ao se despedir.
- “Pensa e depois você me manda a resposta”, teria dito o ex-presidente.
Ao jornal Folha de S.Paulo,
- o general Augusto Heleno, ex-ministro-chefe do GSI na gestão Bolsonaro, disse que o envolvimento da pasta no plano de golpe é “mentira”, assim como o da Abin.
- “Eu jamais tomei conhecimento de qualquer ação nesse sentido”, disse Heleno, segundo o jornal.
As mensagens obtidas pela Veja
- mostram Silveira orientando como Do Val deveria chegar ao Palácio da Alvorada, de forma discreta, sem ser percebido.
- Ele teria sido levado ao local por um carro da segurança do presidente.
Nas mensagens, Silveira reforça a Do Val que apenas cinco pessoas teriam conhecimento do plano – três das quais estavam na reunião.
- O ex-deputado pede que o senador não comente a ideia com ninguém, nem mesmo com a esposa,
- e afirma, que, se nada fosse obtido da conversa com Moraes, o material simplesmente seria descartado.
No entanto, se alguma informação comprometedora fosse extraída do ministro, Do Val sairia como um “herói”.
Após a reunião, Do Val disse que pensaria no caso e que entraria em contato mais tarde.
Do Val alerta Moraes
Em uma das versões, o deputado disse ter se reunido com Moraes presencialmente no Supremo Tribunal Federal dias antes do encontro para que o ministro desse a ele detalhes sobre como agir.
- Moraes teria dito que ele deveria ir à reunião com Bolsonaro e Silveira para acumular informações.
- Do Val diz ter ouvido do ministro que “informação sempre é bom”.
Interlocutores do ministro citados pelo portal de notícias G1 disseram
- que o senador não é amigo de Moraes,
- e que ele foi recebido em público, no Salão Branco,
- assim como costuma ocorrer com outros pedidos de audiência.
Segundo esses interlocutores,
- o senador teria mais tarde informado o ministro sobre o plano golpista e contado que recusou o pedido de Silveira para grampeá-lo.
- Moraes perguntou se Do Val prestaria depoimento sobre o caso,
- mas o senador teria recusado.
Assim, o ministro disse que nada poderia fazer.
Mensagens publicadas pela revista Veja confirmam que Do Val entrou em contato com Moraes após a reunião com Silveira e Bolsonaro.
“Boa noite, ministro! Dia emblemático. Aproveito para informar que não vou à Brasília nesta semana. Minha filha está precisando muito da minha presença aqui.
- Mas precisava falar como foi o encontro com PR [presidente da República] e o DS [Daniel Silveira]. Me pediram uma ação esdrúxula, imoral e até criminal.
- Não sei como poderia te contextualizar, com segurança.
- Caso for necessário, posso ir a Brasília para encontrá-lo. Sei que neste momento está muito turbulento em sua missão. Mas conte comigo”,
diz uma mensagem enviada por Do Val a Moraes em 12 de dezembro.
Em 14 de dezembro, cinco dias após a reunião com Bolsonaro e Silveira, Do Val e Moraes conversaram pessoalmente em Brasília. À noite, Do Val informou a Silveira que não aceitaria participar do plano.
“Fiz o meu papel de não prevaricar. Fui e comuniquei ao ministro. E me coloquei à disposição como testemunha”,
disse Do Val, segundo a Agência Senado.
Moraes confirma conversa
Moraes confirmou nesta sexta-feira o teor da conversa relatada por Do Val. O magistrado falou sobre o caso enquanto participava de um evento da organização empresarial Lide, através de videoconferência.
“Ele solicitou uma audiência como outros deputados e senadores, eu o recebi no Salão Branco”,
afirmou, ao relatar a conversa com o senador.
O ministro disse que
- a intenção do grampo seria tirá-lo da presidência dos inquéritos das fake news e dos atos antidemocráticos que tramitam no STF.
- Ele disse ter ouvido de Do Val que Bolsonaro e Silveira tiveram
“a ideia genial de colocar uma escuta no senador e, a partir dessa gravação, pudessem solicitar minha retirada da presidência dos inquéritos”.
“Foi uma tentativa de uma ‘operação Tabajara’ que mostra exatamente o quão ridículo nós chegamos (sic) na tentativa de um golpe no Brasil”.
Moraes confirmou ter solicitado um depoimento a Do Val, mas disse que senador se recusou a fazê-lo.
“Disse que era uma questão de inteligência e não poderia confirmar”, explicou. “Para mim, o que não é oficial, não existe.”
Ele assegurou que a Polícia Federal continuará investigando o caso, assim como os atos golpistas ocorridos em Brasília.
“As investigações da PF continuarão e vamos analisar a responsabilidade de todos aqueles que se envolveram na tentativa de golpe. Temos informações adiantadíssimas sobre os financiadores, desde o ano passado”,afirmou.
Prisão de Silveira
Paralelamente às revelações de Do Val, Silveira foi preso nesta quinta-feira pela PF por desrespeitar ordens judiciais.
- Ele estava em Petrópolis, no Rio de Janeiro, e sua residência foi alvo de busca e apreensão,
- um dia após o fim do seu mandato parlamentar.
- Com ele, foram encontrados cerca de R$ 270 mil em dinheiro.
Segundo Moraes,
- o ex-deputado desrespeitou decisões judiciais ao não usar tornozeleira eletrônica e não pagar uma multa,
- bem como ao usar as redes sociais,
- atividade que lhe tinha sido proibida pela Justiça.
Silveira concorreu ao Senado pelo Rio de Janeiro no ano passado, mas perdeu para Romário. Ao ficar sem mandato, perdeu também a imunidade parlamentar na quarta-feira, quando os novos parlamentares tomaram posse no Congresso.
- Moraes reestabeleceu a prisão de Silveira, que foi condenado pelo plenário a oito anos e nove meses de reclusão, em regime inicial fechado,
- por crimes de ameaça ao Estado Democrático de Direito e coação no curso do processo.
Apoiador de Bolsonaro, Silveira havia tido a condenação judicial perdoada pelo ex-presidente.
Moraes também cancelou todos os passaportes de Silveira e proibiu visitas na prisão, salvo de seus advogados.
Ele apontou ainda que Silveira danificou o equipamento de monitoração eletrônica que estava sob sua responsabilidade, além de reiterar os ataques comumente proferidos contra o Supremo e o TSE, colocando em dúvida o sistema eletrônico de votação.
Repercussão
No plenário do Senado, o senador Humberto Costa (PT-PE) disse que as acusações são “de extrema gravidade”.
- “O Congresso Nacional deve acompanhar a par e passo.
- Suponho que o ministro Alexandre de Moraes e o STF devem instalar algum tipo de investigação específica sobre isso. A
- té porque, se for verdadeira essa informação pelo senador Marcos do Val, há indícios extremamente fortes da participação direta do ex-presidente da República em uma tentativa de golpe”, afirmou.
Por outro lado, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho de Jair Bolsonaro, confirmou que houve a reunião, mas disse que a situação “não configura nenhuma espécie de crime”.
“O senador Marcos do Val já havia me relatado o que tinha acontecido, que isso iriar ser trazido a público,
- contudo numa linha de que essa reunião, que aconteceu, seria uma tentativa de um parlamentar de demover as pessoas que estavam nesta reunião de fazer algo absolutamente inaceitável, absurdo e ilegal.
- O que peço aqui, obviamente, é que todos os esclarecimentos sejam feitos.
- Não digo abertura de inquérito porque a situação narrada não configura nenhuma espécie de crime”,
afirmou.
le,rc (Lusa, Agência Senado, ots)
Deutsche Welle
Fonte: https://www.dw.com/pt-br/o-que-se-sabe-sobre-o-plano-golpista-relatado-por-marcos-do-val/a-64597007
