
Andrea Grillo – 30 Janeiro 2023
Eis o artigo.
As declarações do Papa Francisco sobre a homossexualidade de que “não é crime” suscitaram uma série de reações de justo interesse, mas muitas vezes baseadas em algumas confusões que fazem parte da cultura contemporânea e que merecem um pouco de atenção.
Aqui está o texto completo do trecho sobre o tema da entrevista à Associated Press. Embora retirado de um texto ainda mais amplo (ao qual remeto aqui), já é suficiente para entender mais corretamente a intenção da declaração, tendo em vista que a pergunta a que Francisco responde diz respeito à “criminalização dos homossexuais” e ao apoio de alguns os bispos a leis penais contra a homossexualidade, às vezes punida com a pena de morte:
“A condenação da homossexualidade chega de muito longe. Hoje acredito que os países que têm condenações legais são mais de cinquenta. E destes acredito que cerca de dez tenham a pena de morte. Não a nomeiam diretamente, mas dizem “aqueles que têm comportamentos inaturais“.
Tentam dizer isso de uma forma encoberta. Mas há países ou pelo menos culturas que têm essa forte tendência. Penso que é injusto. Aqui em audiência recebo grupos de pessoas assim. Somos todos filhos de Deus e Deus nos ama como somos e pela força que cada um de nós tem de lutar por sua dignidade.
Ser homossexuais não é crime. ‘Sim, mas é um pecado’.
Primeiro, vamos distinguir entre pecado e crime. Mas a falta de caridade para com o próximo também é pecado, e aí? Todo homem e toda mulher precisa ter uma janela em sua vida para a qual direcionar sua esperança e poder receber a dignidade de Deus. E ser homossexuaisnão é um crime, é uma condição humana”.
Para entender melhor essas declarações, é necessário especificar, primeiro, que o mundo moderno tardio, resultante das revoluções do final do século XVIII, introduziu uma distinção valiosa.
Ou seja, aquela entre o “crime” do ponto de vista criminal e o “pecado” do ponto de vista moral e religioso.
- A distinção não é necessariamente uma oposição nem uma contradição:
- salvaguarda e produz duas ordens diferentes e irredutíveis de experiência.
A isso devemos acrescentar também uma terceira categoria, aquela do “ilícito“, que se distingue tanto do crime como do pecado.
- O que é crime do ponto de vista penal é sempre um ilícito do ponto de vista do sistema jurídico,
- mas pode não ser um pecado e até ser uma virtude.
Vamos pensar em uma lei penal que estabeleça o crime de “estudo universitário” para as mulheres.
- Certamente, o ordenamento jurídico considera ilícita até mesmo a tentativa de matricular uma mulher na universidade.
- Mas do ponto de vista moral e religioso, poderá até ser uma virtude garantir o estudo “clandestino” para as mulheres.
Da mesma forma, é muito possível que
- aquilo que a tradição moral e religiosa considera pecado (por ex., o adultério)
- possa ter sido considerado crime (como era na Itália até 1968)
- e continue a ser considerado um “ilícito” (que por ex. leva à separação).
Obviamente, entre direito penal, direito civil e administrativo, moral e religião existem muitas formas de influência recíproca.
Por exemplo,
- na Alemanha ainda hoje a “fornicação” (Unzucht) tem uma relevância penal, enquanto na Itália não é assim.
- As histórias das relações entre crime, ilícito e pecado estão ligadas às histórias das culturas, línguas e povos.
E há evoluções de cada um dos três termos:
- há crimes antigos que são “descriminalizados” (por exemplo, o adultério)
- e novos crimes que “surgem” (como homicídio de trânsito).
Isso também acontece nas tradições religiosas:
- há ações que eram não pecado (como a guerra ou a pena de morte)
- e que, devido à evolução da consciência da fé e da cultura, tornam-se pecado.
Se considerarmos a questão específica da “homossexualidade”,
- as palavras do Papa Francisco me parecem soar sobretudo em defesa da possibilidade garantida ao ordenamento jurídico de não traduzir em crime todo pecado.
- Isso seria o sinal de uma falta de laicidade, que consiste precisamente em garantir sempre uma certa elasticidade e distinção entre os comportamentos público, comunitário e privado.
Isso, no entanto, levanta uma grande questão.
- Se a nível público e privado podemos apreciar um certo acolhimento da identidade e do comportamento homossexual, o que podemos dizer e fazer no plano eclesial?
- Basta-nos permanecer fiéis à clássica identificação da homossexualidade com um “vício da castidade“, sem, no entanto, pretender que essa leitura seja válida nem no plano público nem no privado?
- Ou podemos corrigir aquela orientação clássica simplesmente com a adição de um “estilo de caridade“?
O repensamento das categorias
Para entender melhor a identidade homossexual, há na Igreja Católica a lenta elaboração de uma série de distinções entre
- orientação ou tendência homossexual,
- assunção pessoal da orientação
- e realização do ato sexual.
O entendimento em termos de pecado oficialmente não diz respeito à orientação, mas sim à sua assunção e certamente à realização do ato. A livre escolha é identificada na ausência de resistência ao ato homossexual, que a continência prescreveria.
Aqui está o núcleo da resposta que encontramos nos documentos mais recentes e no Catecismo da Igreja Católica.
- É evidente que se trata ainda de uma elaboração um tanto tosca,
- porque especifica o respeito pela pessoa homossexual,
- mas condiciona o respeito à escolha da continência.
Aqui surge uma cisão entre a pessoa e seus comportamentos que tende a pensar a homossexualidade como vício ou patologia, não como identidade.
- Se a identidade homossexual não é uma identidade viciosa ou doentia, não pode ser dissociada dos comportamentos que a integram.
- A admissão de que se trata de uma “condição humana”parece-me a maior abertura, mas que exige uma grande reelaboração do saber tradicional.
De fato, essa leitura “em andamento” se baseia em uma compreensão demasiado drástica da alteridade e da fertilidade, que se refere apenas ao par homem-mulher.
- Isso tende a excluir que haja verdadeira alteridade entre duas pessoas do mesmo sexo e que possa haver fecundidade entre elas.
- A autoridade da natureza é assumida de forma imediata e quase identificada com a vontade de Deus.
Pensar a alteridade e a fecundidade mesmo entre pessoas do mesmo sexo, superando a visão da homossexualidade como “autocomplacência infecunda” seria o caminho a percorrer.
Mas aqui deve-se reconhecer que
- os pronunciamentos oficiais entre o final do último milênio e o início do novo milênio
- introduziram “definições”que condicionam fortemente a evolução interna da consciência eclesial e da sensibilidade.
Para poder intervir com autoridade sobre as práticas eclesiais seriam necessárias duas etapas diferentes.
- Primeiro se precisa de uma nova Instrução da Congregação para a Doutrina da Fé, propondo uma leitura diferente do fenômeno homossexual,
- com base numa compreensão mais ampla da sexualidade.
- Essa seria a premissa para uma modificação também dos números do Catecismo.
Talvez seria muito útil uma colocação diferente do tema dentro do CIC também.
Agora ela aparece em uma sequência bastante constrangedora.
- A sequência das “ofensas contra a castidade” é de fato esta:
- luxúria, masturbação, fornicação, pornografia, prostituição, estupro
- e, finalmente, embora em um parágrafo diferente, a homossexualidade.

Maniferstação da Comunidade LGBT+ (Foto: Ted Eytan | Creative Commons)
O papa e a teologia
Para essa evolução, como é claro, nem sempre se pode pedir ao papa que faça o papel de “lebre”. O que Francisco disse sobre o Bispo também se aplica ao Bispo de Roma:
- às vezes tem que estar na frente de todos,
- mais frequentemente no centro,
- às vezes atrás, com os mais lentos.
Cabe principalmente aos teólogos e aos católicos competentes oferecer novos esquemas para entender a homossexualidade de maneira mais respeitosa.
Só assim será possível um real acolhimento daqueles que vivem abertamente a sua identidade homossexual.
- Isso implica uma elaboração nada fácil da relação entre as estruturas eclesiais e as estruturas sociais.
- Sobretudo se a estrutura social, ou seja, o reconhecimento público dos direitos e deveres dos indivíduos,
- tomou novos rumos e protege bens que não são considerados como tais pela comunidade eclesial.
E, no entanto,
- uma leitura crente e moral do mundo não é incompatível com o crescimento da tolerância e do respeito.
- Mas a “liberdade de consciência“ é um bem oficialmente reconhecido na Igreja Católica somente a partir de 1965.
Esse fato não deve ser esquecido e também condiciona fortemente a maneira como “pedimos ao papa soberano” que organize uma nova estrutura. Desenvolver uma cultura do acolhimento e do respeito requer não apenas “atos de autoridade”,
mas de teólogos que tenham a audácia de pensar em grande a identidade sexual de todos.
Sobre isso, na Itália, não faltam vozes de grande interesse, como aquelas de Basilio Petrà e de Aristide Fumagalli, que há pelo menos uma década trabalham cuidadosamente sobre o tema, libertando a razão crente de diversos preconceitos.
A evolução da doutrina católica, com toda a devida articulação, é a única forma de permanecer fieis à tradição e de “fazer cultura”no contexto do mundo contemporâneo.
- Distinguir entre pecado, crime e condição humana,
- como saber elaborar não só “estilos de caridade“, mas também “percursos de justiça” e “categorias de respeito“,
- faz parte daquelas tarefas complexas que a Igreja jamais pode delegar integralmente ao seu passado.

.
Andrea Grillo
Leia mais:
- O mal sem culpa e as injustiças dos homens. Artigo de Andrea Grillo
- Flandres e o Responsum: luzes e sombras. Artigo de Andrea Grillo
- Ratzinger, entre tradição e modernidade. Entrevista com Andrea Grillo
- Ratzinger. Um balanço. Entrevista com Andrea Grillo
- “A homossexualidade não é um pecado”, afirma o cardeal Marx
- Bélgica: oração para os casais homossexuais
- EUA. Casamento homossexual, liberdade religiosa e as guerras culturais
- Francisco, assertivo: “Homossexualidade não é crime”
- A carta do Papa a James Martin sobre homossexualidade e pecado
- A armadilha da mentira: por que os padres gays podem falar sinceramente sobre sua sexualidade. Artigo de James Alison
- Vaticano reafirma proibição a padres gays
- Igreja e homossexualidade. Olhar para a pessoa como Deus a olha: Em uma única comunidade cristã
- Igreja e homossexualidade
- ”A Igreja Católica deve mudar seu olhar sobre a homossexualidade”, afirma bispo alemão
- O celibato e a castidade do padre (Parte 1)
- O celibato e a castidade do padre (Parte 2)
- “A casta dos castos”: como o celibato obrigatório dos padres perverte a Igreja
- “O celibato não é uma exigência da própria natureza do sacerdócio”. Entrevista com Antônio José de Almeida
- Sexualidade na Igreja: caminhar sobre a água
- Quando a sexualidade era celebrada na Igreja