Alexander Busch – 26 de janeiro de 2023
Lula em Buenos Aires: “É necessário que o Brasil ajude a todos os parceiros” Foto: Esteban Collazo/Argentinian Presidency/AFP
Da cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) em Buenos Aires não saiu nada muito concreto. Apenas a generosidade de Lula para com o colega argentino Alberto Fernández:
- o Brasil pretende financiar, por meio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES),
- a segunda etapa da construção de um gasoduto que deverá ligar a jazida de gás de xisto de Vaca Muerta à capital Buenos Aires.
A concessão do crédito foi defendida por Lula com as seguintes palavras:
“De vez em quando, nos criticam por pura ignorância. Pessoas que acham que não pode haver financiamento de engenharia em outros países. Eu acho que não só pode, como é necessário que o Brasil ajude a todos os parceiros.”
É de se perguntar
- se Lula realmente acredita nisso
- ou se quer apenas dar alguma esperança ao colega em aflição em meio a uma grave crise política e econômica.
O projeto, afinal, não faz sentido para o Brasil de ângulo algum.
- O gasoduto atravessa várias províncias antes de finalmente terminar na capital.
- Como esse gás chegaria de lá até o Brasil?
- Isso exigiria uma conexão com a rede de distribuição de gás boliviana ou um terminal de gás liquefeito.
Tudo isso é caro — e não traz energia para o Brasil.
Risco alto
Além disso, o risco do crédito é alto, mesmo que empresas brasileiras se encarreguem da construção. Na Argentina, existem diferentes impostos, dependendo da província pela qual o gasoduto passa.
Para completar, a Argentina
- tem controles de capital,
- duas dúzias de diferentes taxas de câmbio nacionais
- e fundos de reservas internacionais cronicamente vazios.
A Argentina também é conhecida por não pagar suas dívidas. É por isso, aliás, que o país tem dificuldade em obter créditos do exterior.
Só ao FMI, a Argentina deve 40 bilhões de dólares.
São pequenas, portanto, as chances de que o gasoduto seja construído e o BNDES receba seu dinheiro de volta.
O risco do financiamento será assumido pelo BNDES – ou, em última instância, o contribuinte brasileiro.
- Como a maioria dos impostos no Brasil incide sobre o consumo,
- pode-se dizer que os pobres do Brasil pagariam por um gasoduto no país vizinho,
- do qual o Brasil provavelmente não tiraria muito benefício.
Em Buenos Aires, Lula também prometeu financiar com crédito exportações brasileiras para a Argentina. Mais uma vez, o problema é o mesmo:
- por que os contribuintes brasileiros deveriam subsidiar as exportações de suas próprias empresas
- quando ninguém mais está disposto a correr esse risco?
Fracassos passados
Nos governos anteriores de Lula,
- o Brasil financiou por meio do BNDES massivos projetos de construtoras brasileiras,
- mas quatro países jamais devolveram os empréstimos: Venezuela, Angola, Cuba e Moçambique.
Com essas naçōes muito mal avaliadas no Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional,
- não é de se admirar que muitos desses empréstimos e projetos de construção
- tenham aparecido nas investigações da Lava Jato.
No Brasil, as promessas de empréstimos externos de Lula à Argentina causaram inquietação.
“Já pagamos um preço muito alto, se vamos fazer, que seja feito de outra forma”,
disse ao jornal Valor Econômico a ex-presidente do BNDES Maria Silvia Bastos Marques.
A executiva, que liderou a instituição entre 2016 e 2017, ressaltou que o novo governo quer dar máxima prioridade no orçamento ao combate à pobreza, mas o orçamento é finito.
“Quais são as nossas prioridades? Emprestar para países vizinhos ou elevar a renda média nacional?”, questionou.
Otaviano Canuto, que foi secretário de assuntos internacionais do Ministério da Fazenda no primeiro governo Lula, também expressou ceticismo.
- “A grande projeção internacional de Lula em seu primeiro governo se relacionou […] com os resultados de redução da pobreza na época e o financiamento generoso à exportação de serviços de construção.
- Tem o desejo [do governo] de promover, assim como China faz, o financiamento de infraestrutura na África e América do Sul.
- Nós temos que ter consciência de que isso não ocorre sem custos. E os custos têm que entrar na conta, tem que ter clareza disso,”
disse Canuto ao Valor Econômico.
“Do ponto de vista de importância na agenda, está claro que esse não é o melhor veículo para aumentar a competitividade de exportações brasileiras ou da indústria nacional”,
afirmou o o economista, que foi vice-presidente do Banco Mundial, sobre os financiamentos.
Só nos resta esperar que Lula se abstenha de suas absurdas aventuras no exterior. O risco de um novo fracasso é enorme.

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Alexander Busch – Jornalista
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