
Por Ynaê Lopes dos Santos, na DW Brasil – Publicado 13/01/2023 – Foto: Reprodução
Ataque em Brasília também foi alimentado pela falsa ideia de supremacia – e é mais uma prova cabal do tamanho do racismo no Brasil. Todos sabemos que minorias sociais seriam barradas muito antes de chegar perto da Praça dos Três Poderes.
- fez de seu primeiro ato público como ministro uma ode à necessidade de dizer o óbvio
- depois de quatro anos de um governo que beijou a boca do autoritarismo e andou de mãos dadas com o fascismo.
Direto e reto, em pouco mais de 90 segundos, Silvio Almeida afirmou que
- trabalhadores e trabalhadoras, mulheres, pessoas pretas, povos indígenas,
- lésbicas, gays, bissexuais, transsexuais, travestis, intersexo, não binários,
- pessoas com deficiências, pessoas em situação de rua, idosos,
- vítimas da violência, vítimas da fome e da falta de moradia, anistiados e seus filhos, empregadas domésticas,
- pessoas com pouco acesso à saúde e ao transporte e todos aqueles que tiveram seus direitos violados:
vocês existem e são importantes para nós.
Com esse compromisso, o agora ministro Silvio Almeida
- olhava e via as ditas “minorias sociais”, demonstrando não só suas existências plurais,
- mas também atentando para o fato de essas minorias serem enormes, a maior parte do Brasil.
- Um grande quinhão da população brasileira que por muito tempo ficou relegado ao segundo escalão da possibilidade do exercício da cidadania e até mesmo da ideia de humanidade.
- aponta o abismo existente entre o governo que findou no dia 31 de dezembro de 2022,
- e o que começa com o terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva no raiar de 2023.
No entanto, como já disse tantas vezes aqui, lembrando a frase célebre de Tom Jobim, “o Brasil não é para amadores”.
O pior do Brasil
Exatamente uma semana depois da posse presidencial mais importante desde a redemocratização brasileira (talvez a mais importante de toda a experiência republicana), e quatro dias depois do discurso contundente de Silvio Almeida, o maior símbolo da democracia do país foi atacado por meio de atos criminosos.
- Vestidos com camisetas da seleção brasileira e empunhados da bandeira do Brasil,
- milhares de vândalos terroristas invadiram os palácios dos Três Poderes em Brasília,
- orquestrando uma onda de destruição e saque nunca antes vista na história do país.
Desde a derrota de Jair Bolsonaro nas urnas em 30 de outubro de 2022, um grupo da extrema direita se organizou com o intuito de inviabilizar a posse do presidente eleito.
- Acampamentos em frente a quartéis e batalhões do Exército pipocaram,
- a titulação de Lula foi marcada por tensões, que se somaram às ameaças de ataques terroristas em Brasília durante a posse.
- O caldeirão explodiu uma semana depois, jogando dejetos para todos os lados.
O pior do Brasil apareceu nesse dia 8 de janeiro.
Temos pessoas das mais variadas áreas analisando os eventos de 8 de janeiro,
- pensando não só na sua magnitude, simbolismo e destruição,
- mas também nas maneiras corretas de punir os terroristas envolvidos.
Uma primeira e importante resposta já foi dada:
a repactuação pela democracia brasileira, entrelaçando os três poderes, a imprensa, a opinião pública nacional e internacional de maneira nunca antes vista no Brasil.
No entanto, é fundamental lembrarmos duas coisas:
- a primeira é que a história brasileira nunca foi pacífica, mesmo que ataques terroristas desse porte sejam inéditos.
- A segunda é que o fascismo não é uma camisa que se veste e tira, ao sabor da moda.
O fascismo
- é uma ideologia e um movimento político mantido a fogo baixo pela extrema direita,
- que além de autoritário, ditatorial e violento,
- se alimenta da falaciosa ideia da desigualdade humana.
Supremacia branca foi determinante
Não é por acaso que,
- ao olharmos bem a cara da maior parte dos terroristas (que, como bons fascistas, se declaram “pessoas de bem” e patriotas acima de tudo),
- eremos que a imensa maioria deles não faz parte de nenhuma “minoria social”.
A maior parte das pessoas que invadiram os palácios dos Três Poderes
- são homens e mulheres brancos, da classe média,
- com alguns representantes da burguesia.
É crucial fazer uma análise racial e de classe desse episódio, porque sem ela não entendemos como o movimento ganhou as proporções a que assistimos. Inúmeros vídeos comprovam que
- parcela significativa da Polícia Militar do Distrito Federal foi conivente com os ataques terroristas,
- chegando a escoltar os vândalos até a Esplanada,
- mantendo-se propositadamente inertes às ações extremistas.
Essa postura
- não se explica apenas por uma possível simpatia política da Polícia Militar e de alguns dos seus comandantes pela causa criminosa.
- Mas também porque a Polícia Militar foi, historicamente, formada para obedecer às pessoas com o mesmo “biotipo”dos terroristas.
Descer o cacetete e agir de forma mais firme (e truculenta) é uma prerrogativa liberada apenas contra negros, indígenas, LGBTQIA+, trabalhadores, pessoas em situação de rua e miserabilidade.
Essa cara feia do Brasil que vimos no dia 8 de janeiro é uma cara branca.
E aqui não se trata de uma generalização, porque sei que a grande maioria da população branca do país condena veementemente os ataques terroristas.
Entretanto
- é fundamental encarar de frente que a ideia da supremacia branca e a maneira como ela é orquestrada no Brasil há décadas
- foi determinante para o sucesso dos ataques e crimes cometidos.
Todos nós sabemos que as minorias citadas no discurso do ministro Silvio Almeida seriam barradas muito antes de chegarem perto dos palácios dos Três Poderes.
Esse incidente
- foi mais uma prova cabal do tamanho do racismo no Brasil,
- e como a perspectiva da luta antirracista precisa permear todas as instâncias do governo Lula,
- sobretudo no que diz respeito à segurança pública.
Porque o racismo
- não é apenas as limitações e violências que ordenam a vida daqueles que não são enxergados como seres humanos,
- ele também é o castelo de privilégios que não nos deixa ver que, no Brasil,
- a barbárie é outro nome para a supremacia branca.

Ynaê Lopes dos Santos
é mestre e doutora em História Social pela USP, Ynaê Lopes dos Santos é professora de História das Américas na UFF. É autora dos livros
– Além da Senzala. Arranjos Escravos de Moradia no Rio de Janeiro (Hucitec 2010),
– História da África e do Brasil Afrodescendente (Pallas, 2017)