O futuro das relações Brasil-China, por Luis Nassif 06 de janeiro 2023 por Luis Nassif

6 de janeiro de 2023 – Imagem: DAQUI

Um estudo do Carnegie Endowment for International Peace prevê uma relação internacional Brasil-China diferente dos dois primeiros governos Lula.

A China aposta em uma relação de alto nível, e a demonstração foi o envio, para a posse de Lula, de uma delegação de peso, comandada pelo vice-presidente Wang Qishan.

Lá, a estratégia consistiu em uma parceria diplomática “entre iguais”, pretendendo uma voz mais equitativa para as nações do Sul Global.

  • Dois países na periferia das instituições dominadas pelo Ocidente,
  • trabalhando em uma cooperação Sul-Sul,
  • como forma de construir uma nova geografia mundial.

Segundo o estudo, Lula foi fundamental para a formação, em 2006, dos BRICS – as economias emergentes do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

No final do primeiro mandato de Lula, o comércio Brasil-China saiu de quase nada para US $60 bilhões.

  • Em 2009, a China já se tornou o maior parceiro comercial do Brasil, e aportou no Brasil o recorde de US $7 bilhões do Banco de Desenvolvimento da China para o desenvolvimento do petróleo offshore.
  • O Brasil passou a responder por 47% do investimento estrangeiro direto da China na América Latina.
  • Entre 2010 e 2021, o Brasil recebeu US $22,47 bilhões da China Development Bank e do China Export-Import Bank.

Depois, mudaram as prioridades da China.

  • As dificuldades da Venezuela e Equador em honrar seus empréstimos
  • aumentou a relutância da China como financiador alternativo do desenvolvimento latino-americano, afetando o Brasil.

Em 2015 houve o recorde de US $7,5 bilhões em empréstimos chineses ao Brasil. Na década de 2020, praticamente desapareceram.

Segundo a análise,

  • o foco de Xi Jinping, o primeiro ministro chinês, não seria mais o BRI (Iniciativa do Cinturão e Rota),
  • mas o novo programa, Iniciativa de Desenvolvimento Global, não apropriada para um país de renda média alta, como o Brasil.

Além disso, do ponto de vista diplomático, a ação chinesa já é vitoriosa na América Latina.

  • Até algum tempo atrás, 15 dos 33 países da América Latina e Caribe reconheciam Taiwan como país independente. Agora, são apenas 8.
  • Há relações bilaterais fortes e acordos de livre comércio com Chile, Costa Rica, Panamá e Peru.

 

Outro ponto foi a política externa da China focada, agora, em tecnologia e na capacidade de inovação própria do país. Há interesse da China em participar do estabelecimento de padrões internacionais para as novas tecnologias.

  • E aí surgem as disparidades com o Brasil, cuja pauta de exportações depende fundamentalmente de commodities.
  • Capitais chineses já se instalaram no país, adquiriram, por exemplo, o aplicativo 99,
  • enquanto a parcela de downloads de aplicativos dos EUA permaneceu estagnada nos últimos cinco anos.

A diferença entre o nível tecnológico de China e Brasil impede o status de “parceiro igualitário” que definiu as relações nos primeiros governos Lula.

  • Com a guerra tecnológica instalada, além disso,
  • qualquer adesão brasileira a tecnologias chinesas
  • poderá ser vista como hostil aos Estados Unidos, a exemplo da guerra do 5G.

Apesar da crise e do enfraquecimento da economia brasileira, ainda há trunfos que poderão ser manobrados por Lula.

  • Graças às exportações de commodities, o Brasil é a única grande economia latino-americano a registrar superávit comercial considerável com a China.
  • A guerra comercial China-EUA fez as exportações brasileiras de soja dispararem para a China.

Com financiamento bilateral reduzido, Lula poderá ter acesso ao financiamento chinês através de instituições multilaterais,

  • especialmente após a China ter estabelecido um fórum conjunto com a Comunidades dos Estados Latino Americanos e Caribenhos
  • e fundado o Banco Asiático de Investimento em 2016.
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Luís Nassif

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