
Luiz Verneck Vianna – 02 Janeiro 2023n- Foto:Divulgação
Replantar o tecido social destruído demandará tempo, persistência e clareza de propósitos. Trata-se de reanimar a vida sindical, os movimentos associativos e os partidos políticos de esquerda, nas cidades e no mundo agrário, este, hoje, tristemente confiado à manipulação dos interesses do agronegócio”, escreve Luiz Werneck Vianna, sociólogo, PUC-Rio.
Eis o artigo.
O caminho que se abre à frente do governo Lula-Alckmin é de um desfiladeiro em que estão entrincheirados em suas margens atiradores de precisão e toda sorte de inimigos empenhados a impedir seus passos rumo à reconquista da democracia.
Para esse intento
- contam menos os aderentes raiz do regime Bolsonaro
- e bem mais com os setores das elites
- que se sentem ameaçados pela perda dos privilégios de que desfrutavam no governo anterior.
Essa será uma passagem de alto risco, a exigir extrema perícia dos que lideram sua condução, certamente em nível superior ao que ocorreu no curso da campanha eleitoral.
Na hora de partida sua perícia já é testada
- pela falta de recursos orçamentários que viabilizem a continuidade do programa Bolsa Família, compromisso seu compartilhado com o governo a que sucede,
- a que se acrescenta igual carência, diante da crise social que aflige a imensa massa de vulneráveis em situação de pobreza extrema, de meios para enfrentar os males que padecem.
Nessa aziaga circunstância, o governo eleito recorreu ao remédio heroico de uma emenda constitucional a fim de lograr uma dotação orçamentária capaz de minimamente garantir recursos para o atendimento emergencial das necessidades imperativas da população.
Nesse sentido,
- o futuro governo se encontra enredado em difíceis negociações com o Legislativo, dominado em sua maioria por forças que lhe foram adversárias na disputa eleitoral,
- salvo se perfilharem uma via alternativa à emenda constitucional como uma medida provisória como primeiro ato de governo.
Sem dúvida,
- a recente decisão do STF que julgou inconstitucional o orçamento secreto e os poderes que concedia aos chefes do poder legislativo retira algo de força desse poder,
- mas não a ponto de o deixar desarmado diante do novo governo,
- que tudo indica optará pelo caminho razoável da negociação da emenda constitucional segundo manifestações de suas lideranças, processo que ora se conclui.
No caso, as forças políticas do Centrão recobram o exercício de papeis influentes e, de algum modo, encontram seu lugar no governo entrante.
Tudo como dantes no quartel de abrantes,
- uma vez que a política de conciliação surge como a sua marca distintiva, sua forma de palmilhar o terreno minado que tem pela frente,
- reiterando o estilo do governo FHC de compatibilizar o moderno com o atraso sob ligeira predominância, onde couber, do primeiro.
Tal deverá ser o preço a ser pago,
- forçado pelo papel de destruição que o governo Bolsonaro deixa em seus rastros
- ao invertebrar a sociedade em seus elementos mais simples,
- em sua política de terra arrasada dos nexos sociais orgânicos
- de acordo com os ditames de sua inspiração neoliberal de que essa coisa de sociedade não existe.
Replantar o tecido social destruído demandará tempo, persistência e clareza de propósitos.
Trata-se de
- reanimar a vida sindical, os movimentos associativos e os partidos políticos de esquerda, nas cidades e no mundo agrário,
- este, hoje, tristemente confiado à manipulação dos interesses do agronegócio.
Conceder alento ao moderno, numa sociedade como a nossa que viveu décadas de modernização autoritária,
- importa instaurar um estatuto de plena autonomia aos seus seres sociais,
- tarefa que reclama uma intelectualidade ativa que abra pela reflexão caminhos para novas trajetórias críticas sobre o passivo da nossa história
- e ilumine novas possibilidades de ações progressistas.
A restauração da cultura democrática
- se encontra na dependência da musculatura que vierem a adquirir os entes da sociedade civil na luta por suas reivindicações,
- a fim de contornar o cenário hostil, atualmente configurado numa composição adversa das câmaras congressuais,
- buscando espaço e oportunidades que viabilizem o reencontro da sociedade com suas melhores tradições.
O futuro está em aberto, e, se bem que no nosso passado encontremos boas inspirações,
- ele está a exigir de nós espírito de descoberta e de invenções audaciosas num contexto exigente e desafiador,
- que só poderemos enfrentar na medida em que começarmos a caminhar, passo a passo, na busca de uma sociedade igualitária e justa.

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Luís Werneck Vianna
Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/625166-uma-travessia-dificil-artigo-de-luiz-werneck-vianna#
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