Quando a Ciência sai dos seus limites

Comentário  de Rui Osório, padre e jornalista português, à afirmação de Hawking em seu último livro The Grand Design (O Grande Projeto), de que: Deus é desnecessário para explicar a criação.
Vem espontaneamente à mente a resposta de Apeles ao sapateiro, em Atenas: “Sapateiro, não vás além das sandálias”.
“É verdade que, para a Física, Deus está a mais. Mas isso não quer dizer que seja a Física a dizer que Deus não é o Criador do Universo” do texto de Rui Osório.
 
João Tavares

Fonte: Voz Portucalense** – Porto, 8 de  Setembro de 2010:

Recordo-me, com simpatia, de Stephen Hawking quando, sobre a origem do Universo, dizia que Ciência, mesmo que um dia chegue a dar resposta a todas as nossas perguntas, nunca poderá responder à mais importante: por que é que o Universo se deu ao incómodo de existir?

Stephen Hawking, nessa altura, não saía da sua área científica de que é um prestigiado perito, mas, agora, entra, ousadamente, na Filosofia e na Teologia. Com estranheza, vejo-o a afirmar, segundo informação do jornal

“The Times”, no seu livro que virá a público amanhã, sob o título “The Grand Design”, que Deus não criou o Universo, mas foi o Universo por si, espontaneamente, que surgiu do nada. Defende, com essa premissa, que 

é redundante imaginar que há um Criador.

Di-lo à revelia das suas anteriores afirmações de físico de talento que a sua grave doença, esclerose lateral amiotrófica, que tanto o afecta, não o impediu de ter prestígio científico e o tornou professor em Cambridge, já jubilado, tendo sido responsável da cátedra que, antigamente, fora de Isaac Newton.

O livro “The Grand Design” é escrito em parceria com o físico norte-americano Leonard Mlodinov.

Exorbitando da Física e discorrendo sobre Filosofia e Religião, Hawking descuida o conselho sábio de Santo Agostinho: “o transcendente não pode deduzir-se do imanente”.

Em erro idêntico já tinha caído o darwinismo ao expulsar Deus da Biologia. Não admira que, ainda hoje, quem mais gostou da afirmação de Hawking tenha sido o biólogo e ateu militante Richard Dawkins.

À afirmação “dogmática” de que Deus não criou o Universo – a Ciência, quando perde a noção dos limites, cai no dogmatismo orgulhoso, tentando meter-se no que não é da sua competência, como discutir Deus – reagiram

criticamente, anglicanos, católicos, judeus e muçulmanos.

É verdade que, para a Física, Deus está a mais. Mas isso não quer dizer que seja a Física a dizer que Deus não é o Criador do Universo.

Ao dizê-lo, sai da sua natureza e da sua metodologia, para entrar indevidamente na Filosofia e na Teologia. Como se diz com humor, Einstein sabia tanto de Física que poderia dizer algum disparate em Filosofia. Mas ninguém o levava a sério como filósofo. Será que Stephen Hawking merece crédito em Filosofia ou em Religião?

A harmonia intelectual entre o humano e o divino desfez-se com o Positivismo do século XIX, ao dizer-se que a Ciência pertence ao mundo real, enquanto Deus é uma invenção da imaginação humana.

Será que o Positivismo, ontem como hoje, tem a última palavra, como pensa Stephen Hawking?

A mitologia moderna do ateísmo e do agnosticismo é por vezes ingênua e sem sentido crítico. Os ateus têm a liberdade de pensar que Deus não existe e os agnósticos de dizer que Deus não fala, mas deixem aos crentes a liberdade de confiar que Deus não fica calado e revela-Se de múltiplas maneiras.

* Cónego da diocese do Porto e jornalista – Portugal

conegoruiosorio@diocese-porto.pt

 

**  https://docs.google.com/fileview?id=0B47VyFyTNQT2MjUwNWMyNTgtZTU3My00NTZlLWFiYzQtM2JmNTQyOTJjYjc2&hl=pt_PT

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