O improvável aconteceu

Leonardo Boff – 17 Dezembro 2022

Foto: Após 6 anos de de desatinos, brota a Esperança no Horizonte
“O improvável realizado nos leva a sonhar com os olhos acordados. Quem tem fome pode ter a certeza que vai comer, quem está desempregado sabe que vai poder trabalhar. Quem suportou todo tipo de injúria e humilhação se sente protegido pela lei que vai valer para todos”,
escreve Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor.

Eis o artigo.

Os fatos são sempre feitos. São feitos a partir de virtualidades presentes na realidade que, surpreendentemente ou por causas previsíveis, acabam vindo à existência.

Nas eleições presidenciais deste ano o improvável aconteceu.

  • Alguém que as Escrituras chamam de o inimicus homo, o homem do mal,
  • no afã de se perpetuar no poder usou todos os meios legítimos e, principalmente, os ilegítimos para conseguir seu objetivo.
  • Ele possui as características do “anticristo” que, para o Novo Testamento, é mais um espírito do que uma pessoa concreta.

Pode ganhar corpo num movimento e no seu líder, mas é, fundamentalmente, uma realidade inimiga de tudo que é vida e de tudo o que é sagrado.

 

A característica do “anticristo” é arrogar-se o lugar de Deus. É sentir-se para além do bem e do mal. E então usa a ambos, mas principalmente o mal:

  • promove a mentira, difunde fake news, estimula a calúnia,
  • incentiva a violência real, assassinando, ]
  • ou a violência simbólica, propalando difamações:

tudo o que provém do transfundo mais ancestral de nossas sombras irrompe com toda a desfaçatez.

 

O nosso país viveu durante todo um governo sob o espírito do “anticristo”.

Nunca se viu em nossa história

  • tanta maldade, tanta mentira estabelecida como método de governo,
  • tanta insensibilidade exaltada como virtude,
  • tanta proclamação da maledicência como forma de comunicação oficial.

E como disse São Paulo em sua Epístola aos Romanos:

“Aprisionaram a verdade sob a injustiça” (1,18).

 

É próprio do espírito do “anticristo” 

  • ocultar-se no mundo do obscuro, das zonas inimigas da luz
  • e destroçar todos os traços de transparência.

É próprio também deste tipo de espírito arrebanhar pessoas que se deixam fascinar

  • pela brutalidade dos comportamentos,
  • pela insensatez das decisões
  • e pela violência infligida aos mais fracos, aos covardemente postos à margem
  • como os pobres, as mulheres, os negros, os indígenas e aqueles que, por si só, não conseguem se defender.

Dizem exultantes:

“É isso mesmo, tem que se usar de violência; é bom ser grosso e grotesco”; “é isso que tem que ser”.

E proclamam aquele com quem se sentem representados como “mito” ou o “nosso herói”.

 

Mas a experiência secular humana tem mostrado

  • que a noite nunca perdura por todo o tempo,
  • que não há tempestade que, num dado momento, não cesse e dê lugar à alegria do brilho do sol.
  • Pois assim ocorreu em nosso país.

 

Quem tinha a absoluta certeza de triunfar, até por pretensa promessa divina, se viu, no último momento, derrotado.

  • O “mito” se desfez com a rapidez de um pequeno bloco de gelo, simplesmente se sentiu um morto-vivo, como que escondido em sua própria sepultura.
  • As palavras morreram-lhe na garganta.
  • As lágrimas nunca antes choradas, quando era digno chorá-las, não paravam de escorrer pelo rosto intumescido.

 

Comprova-se o que a história irreversivelmente tem revelado: o improvável acontece.

  • Por isso temos que contar sempre com o improvável e o inconcebível, pois ambos pertencem à história.
  • Quem usou de tudo, mas de tudo mesmo, até do mais sagrado que é o espaço religioso,
  • não impediu que o improvável irrompesse e o derrotasse surpreendentemente.

Demos uns exemplos.

  • O mais improvável dos EUA era que um negro chegasse, um dia, à presidência da república. E Obama chegou.
  • Que um prisioneiro político, com anos de prisão sob trabalhos forçados, também negro, chegasse a ser o presidente da África do Sul, Mandela.
  • Seria totalmente improvável que alguém vindo “do fim do mundo”, praticamente desconhecido, fosse eleito ao supremo pontificado, como o Papa Francisco.
  • Era absolutamente improvável que uma jovem camponesa de 17 anos chefiasse um exército, como Joana d’Arc, vencendo parte do exército inglês na Guerra dos Cem Anos.

Portanto, o improvável existe e pode acontecer.

Nenhum fato realiza todas as possibilidades escondidas dentro dele.

Inúmeras virtualidades estão lá dentro

  • e quando a história madura ou o mal chegou ao seu paroxismo e tem que ser vencido,
  • então o improvável irrompe vitorioso.
  • Contra todas as expectativas,inimicus homo perdeu.
  • O improvável o derrotou.

O Brasil voltou a respirar um pouco de ar menos contaminado pelo veneno da injustiça, da covardia e da mentira.

O improvável realizado nos leva a sonhar com os olhos acordados.

  • Quem tem fome pode ter a certeza que vai comer, quem está desempregado sabe que vai poder trabalhar.
  • Quem suportou todo tipo de injúria e humilhação se sente protegido pela lei que vai valer para todos.

E a esperança esperante, finalmente, voltou para nos possibilitar um destino mais auspicioso que nos propicie viver com a paz possível, concedida aos filhos e filhas dos bíblicos Adão e Eva.

 

 

Leonardo Boff

 

Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/624945-o-improvavel-acontece-e-aconteceu-leonardo-boff#

 

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