
Há 27 anos, o astrofísico e grande divulgador da ciência Carl Sagan (1934-1996), conhecido mundialmente pela série de televisão Cosmos, lançou uma previsão extremamente acertada sobre o futuro, na qual parecia antecipar o auge das grandes tecnologias e da desinformação.
- Ainda que a previsão dissesse respeito especificamente ao futuro dos Estados Unidos, os temas de que trata possuem um caráter mais universal;
- uma premonição geral da sociedade moderna.
Além de seu trabalho como astrônomo, cientista planetário, cosmólogo, astrofísico, astrobiólogo e promotor da ciência, Sagan também era um escritor prolífico.
- Em 1995, publicou O mundo assombrado pelos demônios: A ciência vista como uma vela no escuro,
- no qual aborda desde questões espirituais até desmentidos sobre abduções alienígenas.
Mas, bem além desses temas, seu livro constrói uma defesa apaixonada da ciência e do método científico, e explica como ela ajudou a iluminar muitos dos rincões mais sombrios do universo.
Dessa forma, o astrofísico demonstra como a busca pela paz e pela verdade era minada por dois velhos conhecidos da humanidade: a superstição e a pseudociência.
Redescoberta oportuna
Hoje, passados 27 anos da publicação da obra, o que mais chama a atenção nas redes sociais é uma passagem descritiva na qual Sagan faz uma previsão sobre futuro dos Estados Unidos, inquietantemente similar à realidade em que se vive.
“A ciência é mais do que um conjunto de conhecimentos, é uma forma de pensar.
Tenho um pressentimento sobre uma América, na época dos meus netos ou bisnetos,
- quando os EUA serão uma economia de serviços e informação;
- quando quase todas as principais indústrias de manufatura terão escapado para outros países;
- quando impressionantes poderes tecnológicos estarão nas mãos de alguns poucos, e ninguém que represente os interesses públicos conseguir compreender os problemas;
- quando os seres humanos tiverem perdido a capacidade de estabelecer seus próprios objetivos ou de questionar com conhecimento de causa os que detêm a autoridade;
- quando, apegados aos nossos cristais e consultando nervosamente nossos horóscopos, com nossas faculdades mentais em declínio, incapazes de distinguir entre o que nos faz sentir bem e o que é verdade, retrocedemos, quase sem perceber, à superstição e às trevas.”
Ainda que Sagan costumasse projetar visões otimistas,
- o trecho descreve uma possível sociedade distópica, repleta de divisão, confusão, desconfiança nas autoridades
- e uma separação cada vez maior entre os mais ricos e os mais pobres,
- sob lideranças cada vez mais autoritárias.
“Emburrecimento” dos EUA
No capítulo em questão, Sagan trata, ainda, de alguns fenômenos culturais americanos da época,
- como o programa de televisão Beavis e Butthead e o filme Debi e Lóide,
- que ele considerava exemplos da decadência intelectual nos EUA:
“O emburrecimento dos Estados Unidos é mais evidente
- na lenta degradação dos conteúdos substanciais na mídia enormemente influente,
- nas frases de efeito de 30 segundos (agora reduzidas a dez segundos ou menos),
- as programações baseadas no mínimo denominador comum,
- apresentações crédulas sobre pseudociência e superstição,
- mas, sobretudo, numa espécie de celebração da ignorância.”
Pode-se apenas imaginar qual seria sua opinião sobre o futuro dos Estados Unidos
- se ele estivesse vivo hoje e testemunhasse o fenômeno das novas redes sociais, desde o YouTube e o Instagram
- até à ascensão vertiginosa dos serviços de streaming, entre outros.
Muitos, talvez, considerem
- que a previsão feita há 27 anos não seja realmente uma revelação, e estão, provavelmente, corretos,
- uma vez que vislumbrar um futuro distópico não é especialmente complicado.
Mesmo assim, Sagan, com sua grande sensibilidade e inteligência,
- foi capaz de captar grande parte da essência das mudanças que começavam a se formar naquela época,
- e que hoje parecem óbvias.
Escutar as vozes do passado pode ajudar a recordar e refletir mais sobre o que se pode melhorar na sociedade atual.
Fonte: https://p.dw.com/p/4G2VU