Carl Sagan – infelizmente – tinha razão

O astrônomo, cientista planetário, cosmólogo, astrofísico, astrobiólogo e promotor da ciência Carl Sagan fala a um microfone
Felipe Espinosa Wang – Foto: DAQUI

Mais de 25 anos atrás, astrofísico americano previa um futuro distópico em que prevaleceria a desinformação e a pseudociência, levando ao “emburrecimento” dos EUA e a uma “celebração da ignorância” através da mídia.

Há 27 anos, o astrofísico e grande divulgador da ciência Carl Sagan (1934-1996), conhecido mundialmente pela série de televisão Cosmos, lançou uma previsão extremamente acertada sobre o futuro, na qual parecia antecipar o auge das grandes tecnologias e da desinformação.

  • Ainda que a previsão dissesse respeito especificamente ao futuro dos Estados Unidos, os temas de que trata possuem um caráter mais universal;
  • uma premonição geral da sociedade moderna.

 

Além de seu trabalho como astrônomo, cientista planetário, cosmólogo, astrofísico, astrobiólogo e promotor da ciência, Sagan também era um escritor prolífico.

  • Em 1995, publicou O mundo assombrado pelos demônios: A ciência vista como uma vela no escuro,
  • no qual aborda desde questões espirituais até desmentidos sobre abduções alienígenas.

Mas, bem além desses temas, seu livro constrói uma defesa apaixonada da ciência e do método científico, e explica como ela ajudou a iluminar muitos dos rincões mais sombrios do universo.

Dessa forma, o astrofísico demonstra como a busca pela paz e pela verdade era minada por dois velhos conhecidos da humanidade: a superstição e a pseudociência.

Redescoberta oportuna

Hoje, passados 27 anos  da publicação da obra, o que mais chama a atenção nas redes sociais é uma passagem descritiva na qual Sagan faz uma previsão sobre futuro dos Estados Unidos, inquietantemente similar à realidade em que se vive.

 

“A ciência é mais do que um conjunto de conhecimentos, é uma forma de pensar.

Tenho um pressentimento sobre uma América, na época dos meus netos ou bisnetos,

  • quando os EUA serão uma economia de serviços e informação;
  • quando quase todas as principais indústrias de manufatura terão escapado para outros países;
  • quando impressionantes poderes tecnológicos estarão nas mãos de alguns poucos, e ninguém que represente os interesses públicos conseguir compreender os problemas;
  • quando os seres humanos tiverem perdido a capacidade de estabelecer seus próprios objetivos ou de questionar com conhecimento de causa os que detêm a autoridade;
  • quando, apegados aos nossos cristais e consultando nervosamente nossos horóscopos, com nossas faculdades mentais em declínio, incapazes de distinguir entre o que nos faz sentir bem e o que é verdade, retrocedemos, quase sem perceber, à superstição e às trevas.”

Ainda que Sagan costumasse projetar visões otimistas,

  • o trecho descreve uma possível sociedade distópica, repleta de divisão, confusão, desconfiança nas autoridades
  • e uma separação cada vez maior entre os mais ricos e os mais pobres,
  • sob lideranças cada vez mais autoritárias.

 

“Emburrecimento” dos EUA

No capítulo em questão, Sagan trata, ainda, de alguns fenômenos culturais americanos da época,

  • como o programa de televisão Beavis e Butthead e o filme Debi e Lóide,
  • que ele considerava exemplos da decadência intelectual nos EUA:

“O emburrecimento dos Estados Unidos é mais evidente

  • na lenta degradação dos conteúdos substanciais na mídia enormemente influente,
  • nas frases de efeito de 30 segundos (agora reduzidas a dez segundos ou menos),
  • as programações baseadas no mínimo denominador comum,
  • apresentações crédulas sobre pseudociência e superstição,
  • mas, sobretudo, numa espécie de celebração da ignorância.” 

 

Pode-se apenas imaginar qual seria sua opinião sobre o futuro dos Estados Unidos

  • se ele estivesse vivo hoje e testemunhasse o fenômeno das novas redes sociais, desde o YouTube e o Instagram 
  • até à ascensão vertiginosa dos serviços de streaming, entre outros.

Muitos, talvez, considerem

  • que a previsão feita há 27 anos não seja realmente uma revelação, e estão, provavelmente, corretos,
  • uma vez que vislumbrar um futuro distópico não é especialmente complicado.

 

Mesmo assim, Sagan, com sua grande sensibilidade e inteligência,

  • foi capaz de captar grande parte da essência das mudanças que começavam a se formar naquela época,
  • e que hoje parecem óbvias.

Escutar as vozes do passado pode ajudar a recordar e refletir mais sobre o que se pode melhorar na sociedade atual.

 

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Felipe Espinosa Wang

Fonte: https://p.dw.com/p/4G2VU

 

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