OUTRASMÍDIAS – MERCADO X DEMOCRACIA

Por Nouriel Roubini, no Project Syndicate | Tradução: Antonio Martins
Por Project Syndicate Publicado 09/12/2022 – Imagem: DAQUI
O economista que previu o colapso de 2008 aponta:
- dívidas privadas dispararam.
- Juros muito baixos e emissão de dinheiro em favor dos mais ricos impediam um colapso.
- Mas agora a inflação frustrou o remendo e tudo pode estar por um triz
A economia mundial está caminhando para uma confluência sem precedentes de crises econômicas, financeiras e de dívida, após a explosão de déficits, empréstimos e alavancagem.
No setor privado,
- a montanha de dívidas inclui famílias (endividadas em hipotecas, cartões de crédito, empréstimos para automóveis, empréstimos estudantis, empréstimos pessoais)
- empresas e corporações (empréstimos bancários, títulos de dívida e dívida privada)
- e o setor financeiro (passivo de instituições bancárias e não bancárias).
No setor público,
- estão os títulos dos governos centrais, subnacionais e locais,
- além de outros passivos formais e dívidas implícitas – como passivos não financiados dos sistemas de pensão por repartição e de atendimento à saúde.
- Tudo isso continuará a crescer à medida que as sociedades envelhecem.
Olhando apenas para as dívidas explícitas, os números são impressionantes.
- Globalmente, a dívida total dos setores público e privado como parcela do PIB aumentou de 200% em 1999 para 350% em 2021.
- A proporção é agora de 420% nas economias avançadas e de 330% na China.
- Nos Estados Unidos, é 420%, maior do que durante a Grande Depressão e após a Segunda Guerra Mundial.
Por certo,
- a dívida pode impulsionar a atividade econômica,
- se os tomadores de empréstimos investirem em novo capital (máquinas, residências, infraestrutura pública)
- que gere retornos superiores ao custo dos juros.
Mas muitos empréstimos são simplesmente para financiar recorrentemente as famílias que consomem acima de sua renda familiar – o que é uma receita para a falência.
Além disso, os investimentos em “capital” também podem ser arriscados, em casos como
- o de uma família que compra uma casa a um preço artificialmente inflado,
- uma corporação que tenta crescer -se muito rápido, independentemente dos retornos
- ou um governo que desperdiça o dinheiro em “elefantes brancos”.(projetos de infraestrutura extravagantes, porém inúteis).
Esses empréstimos em excesso vêm ocorrendo há décadas, por vários motivos.
A “democratização” das finanças permitiu que as famílias com poucos rendimentos financiassem o consumo com dívidas.
- Governos de centro-direita têm persistentemente cortado impostos sem também cortar gastos,
- enquanto governos de centro-esquerda gastam generosamente em programas sociais que não são totalmente financiados por impostos insuficientes.
E as políticas fiscais
- que favorecem a dívida em detrimento do patrimônio,
- auxiliadas pelas políticas monetárias e de crédito ultra flexíveis dos bancos centrais,
alimentaram um aumento das dívidas dos setores público e privado.
Anos
- de flexibilização quantitativa (QE), [em que os bancos centrais emitiram trilhões de dólares, em favor de um punhado de credores da dívida pública (Nota da Tradução)]
- e de crédito barato mantiveram os custos dos empréstimos próximos de zero e, em alguns casos, até negativos (como na Europa e no Japão até recentemente).
Em 2020,
- a dívida pública com rendimento negativo era de US$ 17 trilhões
- e, em alguns países nórdicos, até as hipotecas tinham taxas de juros nominais negativas.
A explosão de índices insustentáveis de dívida significava que
- muitos tomadores de empréstimos – famílias, corporações, bancos, bancos paralelos, governos e até mesmo países inteiros –
- eram “zumbis”insolventes sustentados por baixas taxas de juros (que mantinham os custos do serviço da dívida administráveis).
Durante a crise financeira global de 2008 e a crise da covid-19,
- muitos agentes insolventes que teriam ido à falência
- foram resgatados por políticas de taxa de juros zero ou negativa, flexibilização quantitativa e resgates fiscais definitivos.
Mas agora, a inflação – alimentada pelas mesmas políticas fiscais, monetárias e de crédito ultra flexíveis – pôs fim a este amanhecer financeiro dos mortos.
Com os bancos centrais
- forçados a aumentar as taxas de juros, em um esforço para restaurar a estabilidade de preços,
- os zumbis estão experimentando aumentos acentuados nos custos do serviço da dívida.
Para muitos, isso representa um golpe triplo, porque a inflação também está corroendo a renda familiar real e reduzindo o valor dos bens familiares, como casas e ações.
O mesmo vale para corporações, instituições financeiras e governos frágeis e super endividados:
- eles enfrentam custos de empréstimos em alta acentuada,
- rendas e receitas em queda
- e valores de ativos em declínio, tudo ao mesmo tempo.
Pior, esses eventos estão coincidindo com o retorno da estagflação (inflação alta junto com crescimento fraco).
A última vez que as economias avançadas experimentaram tais condições foi na década de 1970.
Mas naquela época, pelo menos os índices de endividamento eram muito baixos.
- Hoje, enfrentamos os piores aspectos da década de 1970 (choques estagflacionários)
- ao lado dos piores aspectos da crise financeira global.
- E, desta vez, não podemos simplesmente cortar as taxas de juros para estimular a demanda.
Afinal,
- a economia global está sendo atingida por persistentes choques negativos de oferta de curto e médio prazo
- que estão reduzindo o crescimento e aumentando os preços e custos de produção.
Isso inclui
- as interrupções pela pandemia no fornecimento de mão de obra e bens, bem como o impacto da guerra da Rússia na Ucrânia sobre os preços das commodities.
- A política de covid zero da China;
- e uma dúzia de outros choques de médio prazo – de mudanças climáticas a desenvolvimentos geopolíticos – que criarão pressões estagflacionárias adicionais.

Imagem: DAQUI
Diferente da crise financeira de 2008 e dos primeiros meses do covid-19,
- simplesmente socorrer agentes privados e públicos com macropolíticas frouxas jogaria mais gasolina no fogo inflacionário.
- Isso significa que haverá um pouso forçado – uma recessão profunda e prolongada – além de uma grave crise financeira.
À medida que
- as bolhas de ativos estouram,
- os índices de serviço da dívida disparam
- e as rendas das famílias, corporações e governos caem,
a crise econômica e o colapso financeiro se alimentam mutuamente.
Certamente, as economias avançadas que tomam empréstimos em sua própria moeda podem usar um surto inesperado de inflação para reduzir o valor real de algumas dívidas nominais de longo prazo com taxa fixa.
Com os governos relutantes em aumentar impostos ou cortar gastos para reduzir seus déficits, a monetização dos déficits dos bancos centrais será mais uma vez vista como o caminho de menor resistência.
Mas não se pode enganar todas as pessoas o tempo todo.
- Assim que o gênio da inflação sair da garrafa – que é o que acontecerá quando os bancos centrais abandonarem a luta diante do iminente colapso econômico e financeiro –
- os custos nominais e reais dos empréstimos aumentarão.
A mãe de todas as crises de dívida estagflacionária pode até ser adiada, não evitada.

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Nouriel Roubini