Papa Francisco e a recusa de “abençoar” uma das partes: a Ucrânia não pode decidir a paz sozinha

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Marco Politi – 01 Novembro 2022

 Seis mil é o número simbólico que, em certo sentido, marca toda a dificuldade de remeter o caso ucraniano a uma análise racional. Afastando-o daquela que parece ser uma corrida cega rumo à escalada militar – incluindo um incidente nuclear – para direcioná-lo a um cessar-fogo, como o Papa Francisco pede.
E como as 400 organizações e associações leigas e católicas se preparam para pedir com a manifestação nacional, que será realizada em Roma no dia 5 de novembro.

O comentário é de Marco Politi, publicado em Il Fatto Quotidiano, 01/11/2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Seis mil é um número arredondado. Porque, no dia 11 de setembro passado, uma agência da ONU (que monitora a situação na Ucrânia) certificou que, desde o início do conflito, 5.827 pessoas foram mortas e 8.199 ficaram feridas, dados evidentemente baseados em informações provenientes de Kiev e dos territórios ocupados pelos russos.

  • É quase certo que as perdas foram maiores. Quantas? Mil, duas mil a mais?
  • Mesmo que fossem oito mil, seria uma tragédia,
  • mas não aquele “genocídio” que a guerra psicológica vai propagando.

 

Não há dúvida de que as tropas russas se mancharam de crimes, pelos quais terão que responder.

  • Mas é igualmente indubitável que, desde o início do conflito,
  • desenvolveu-se paralelamente uma guerra psicológica com o objetivo de marcar a Rússia como um “mal absoluto”.

A partir do momento em que Bucha foi registrada como um horror, cada vala comum é automaticamente apresentada como um sepulcro de torturados.

 

Um caso marcante foi a descoberta na região de Pisky-Radkivski de uma “caixa cheia de coroas dentárias de ouro”.

Quem escreveu a respeito disso, dentre outros, foi o Huffington Post, publicando fotos e palavras diretamente de um tuíte do Ministério da Defesa ucraniano.

“Um mini Auschwitz. Quantas outras serão encontradas na Ucrânia ocupada?”,

foi o comentário institucional ucraniano.

 

O apelo é evidente: os russos são como os nazistas, que, nos campos de concentração, arrancavam os dentes de ouro dos judeus levados para as câmaras de gás.

Quarenta e oito horas depois, o correspondente do alemão Bild Zeitung descobriu o dentista da localidade:

  • ele testemunha que os dentes são simplesmente de seus pacientes e absolutamente não são de ouro.
  • Mas, enquanto isso, a notícia falsa deu a volta no mundo, e a notícia verdadeira se perdeu pelo caminho.

 

No Avvenire, o jornal dos bispos, o presidente da Comunidade de Santo EgidioMarco Impagliazzo, escrevia há algum tempo que a

“militarização das consciências e a linguagem belicista [estão arrastando todos] para o turbilhão do bipolarismo do ódio, no qual o que importa não é entender e planejar o depois, mas tomar partido ou até mesmo torcer”.

 

É por esse motivo que o Papa Bergoglio

  •  se recusa a “abençoar” uma das partes do conflito
  • e não deixa de convidar Zelensky a levar em consideração sérias propostas de negociação.

O pontífice, assim como Henry Kissinger e Angela Merkel, considera que também será preciso pensar no momento de reinserir a Rússia em um contexto europeu.

 

Essa não é exatamente a linha do governo de Kiev, pois o conselheiro presidencial Mykhailo Podolyak indica como objetivo da guerra “desmilitarizar e desnuclearizar”Federação Russa.

O presidente ucraniano também está participando ativamente da guerra psicológica.

De maneira obsessiva,

  • em todos esses meses, Zelensky apareceu praticamente todos os dias em todos os meios de comunicação
  • e (remotamente) em todas as ocasiões de cúpulas internacionais
  • e em todos os parlamentos ocidentais e em todos os eventos imagináveis, incluindo os festivais de cinema de Veneza e Cannes –

dizendo o que é preciso fazer ou não, batendo e batendo de novo em uma única narrativa:colocar a Rússia de joelhos e aumentar a chegada de armas cada vez mais poderosas para garantir a “vitória”.

 

  • Aqueles que argumentam de forma diferente são pró-putinianos ou estão jogando estupidamente o jogo de Putin ou enfraquecendo o Ocidente.
  • Quando uma guerra é santa, não há nada para discutir, nada para analisar, nada para propor.
  • É preciso apenas destruir o infiel, o Inimigo absoluto.

 

Nesse turbilhão de irracionalidade,

  • Papa Bergoglio nada contra a corrente,
  • e a União Europeia se deixa levar passivamente para uma escalada cada vez mais perigosa,
  • sem que ninguém ponha sobre a mesa os objetivos de uma paz possível e os custos e benefícios de uma continuação da guerra.

A guerra santa exige

  • que não se discuta o fato – denunciado pelo presidente francês, Macron – de que os Estados Unidos vendem gás líquido à Europa
  • a um preço quatro vezes superior ao que é vendido no mercado estadunidense.

A guerra santa exige que

  • que não se reflita sobre as palavras do presidente estadunidense, Biden, que definiu Putin como uma pessoa “racional”,
  • mas que cometeu um grande erro de cálculo ao desencadear a guerra (mas, se Putin é racional, então por que não chegar a um cessar-fogo e tentar chegar a uma solução racional do conflito?).

Por fim, a guerra santa exige

  • que a Otan não queira levar em conta
  • aquelas que o secretário de Estado vaticano, cardeal Parolin, definiu como as “legítimas preocupações” de todas as partes.

 

Há uma distorção de fundo na narrativa desse conflito, narrativa segundo a qual apenas os ucranianos podem decidir qual é o momento para fazer a paz.

 

Mas é uma contradição.

  • Existe uma cobeligerância entre o Ocidente e a Ucrânia,
  • na qual Kiev paga muito em termos de perdas humanas e materiais in loco,
  • e a Europa paga muito em termos econômicos.

Sem essa aliança, Kiev não poderia dar um passo. E então decidimos juntos. E juntos aproveitamos a oportunidade de uma trégua para avaliar conjuntamente as melhores escolhas a serem feitas.

 

Entrar no mérito dos problemas (CrimeiaDonbass) – afirma o Avvenire em editorial –

  • não significa abandonar Zelensky,
  • “mas fazê-lo entender que não pode interpretar o apoio do Ocidente como aval a qualquer intransigência e à recusa de encerrar a guerra”.

 

Na Europa, abre caminho a interrogação sobre se a estratégia da escalada armamentista e do fomento a cada vez mais ódio é a correta.

Na Itália, as pessoas são muito sensíveis sobre o assunto.

E, nos Estados Unidos, surge a questão sobre se o conflito russo-ucraniano pode consistir em um “cheque em branco”dado a Kiev.

 

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