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Marco Politi – 01 Novembro 2022
O comentário é de Marco Politi, publicado em Il Fatto Quotidiano, 01/11/2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Seis mil é um número arredondado. Porque, no dia 11 de setembro passado, uma agência da ONU (que monitora a situação na Ucrânia) certificou que, desde o início do conflito, 5.827 pessoas foram mortas e 8.199 ficaram feridas, dados evidentemente baseados em informações provenientes de Kiev e dos territórios ocupados pelos russos.
- É quase certo que as perdas foram maiores. Quantas? Mil, duas mil a mais?
- Mesmo que fossem oito mil, seria uma tragédia,
- mas não aquele “genocídio” que a guerra psicológica vai propagando.
Não há dúvida de que as tropas russas se mancharam de crimes, pelos quais terão que responder.
- Mas é igualmente indubitável que, desde o início do conflito,
- desenvolveu-se paralelamente uma guerra psicológica com o objetivo de marcar a Rússia como um “mal absoluto”.
A partir do momento em que Bucha foi registrada como um horror, cada vala comum é automaticamente apresentada como um sepulcro de torturados.
Um caso marcante foi a descoberta na região de Pisky-Radkivski de uma “caixa cheia de coroas dentárias de ouro”.
Quem escreveu a respeito disso, dentre outros, foi o Huffington Post, publicando fotos e palavras diretamente de um tuíte do Ministério da Defesa ucraniano.
“Um mini Auschwitz. Quantas outras serão encontradas na Ucrânia ocupada?”,
foi o comentário institucional ucraniano.
O apelo é evidente: os russos são como os nazistas, que, nos campos de concentração, arrancavam os dentes de ouro dos judeus levados para as câmaras de gás.
Quarenta e oito horas depois, o correspondente do alemão Bild Zeitung descobriu o dentista da localidade:
- ele testemunha que os dentes são simplesmente de seus pacientes e absolutamente não são de ouro.
- Mas, enquanto isso, a notícia falsa deu a volta no mundo, e a notícia verdadeira se perdeu pelo caminho.
No Avvenire, o jornal dos bispos, o presidente da Comunidade de Santo Egidio, Marco Impagliazzo, escrevia há algum tempo que a
“militarização das consciências e a linguagem belicista [estão arrastando todos] para o turbilhão do bipolarismo do ódio, no qual o que importa não é entender e planejar o depois, mas tomar partido ou até mesmo torcer”.
É por esse motivo que o Papa Bergoglio
- se recusa a “abençoar” uma das partes do conflito
- e não deixa de convidar Zelensky a levar em consideração sérias propostas de negociação.
O pontífice, assim como Henry Kissinger e Angela Merkel, considera que também será preciso pensar no momento de reinserir a Rússia em um contexto europeu.
Essa não é exatamente a linha do governo de Kiev, pois o conselheiro presidencial Mykhailo Podolyak indica como objetivo da guerra “desmilitarizar e desnuclearizar” a Federação Russa.
O presidente ucraniano também está participando ativamente da guerra psicológica.
De maneira obsessiva,
- em todos esses meses, Zelensky apareceu praticamente todos os dias em todos os meios de comunicação
- e (remotamente) em todas as ocasiões de cúpulas internacionais
- e em todos os parlamentos ocidentais e em todos os eventos imagináveis, incluindo os festivais de cinema de Veneza e Cannes –
dizendo o que é preciso fazer ou não, batendo e batendo de novo em uma única narrativa:colocar a Rússia de joelhos e aumentar a chegada de armas cada vez mais poderosas para garantir a “vitória”.
- Aqueles que argumentam de forma diferente são pró-putinianos ou estão jogando estupidamente o jogo de Putin ou enfraquecendo o Ocidente.
- Quando uma guerra é santa, não há nada para discutir, nada para analisar, nada para propor.
- É preciso apenas destruir o infiel, o Inimigo absoluto.
Nesse turbilhão de irracionalidade,
- o Papa Bergoglio nada contra a corrente,
- e a União Europeia se deixa levar passivamente para uma escalada cada vez mais perigosa,
- sem que ninguém ponha sobre a mesa os objetivos de uma paz possível e os custos e benefícios de uma continuação da guerra.
A guerra santa exige
- que não se discuta o fato – denunciado pelo presidente francês, Macron – de que os Estados Unidos vendem gás líquido à Europa
- a um preço quatro vezes superior ao que é vendido no mercado estadunidense.
A guerra santa exige que
- que não se reflita sobre as palavras do presidente estadunidense, Biden, que definiu Putin como uma pessoa “racional”,
- mas que cometeu um grande erro de cálculo ao desencadear a guerra (mas, se Putin é racional, então por que não chegar a um cessar-fogo e tentar chegar a uma solução racional do conflito?).
Por fim, a guerra santa exige
- que a Otan não queira levar em conta
- aquelas que o secretário de Estado vaticano, cardeal Parolin, definiu como as “legítimas preocupações” de todas as partes.
Há uma distorção de fundo na narrativa desse conflito, narrativa segundo a qual apenas os ucranianos podem decidir qual é o momento para fazer a paz.
Mas é uma contradição.
- Existe uma cobeligerância entre o Ocidente e a Ucrânia,
- na qual Kiev paga muito em termos de perdas humanas e materiais in loco,
- e a Europa paga muito em termos econômicos.
Sem essa aliança, Kiev não poderia dar um passo. E então decidimos juntos. E juntos aproveitamos a oportunidade de uma trégua para avaliar conjuntamente as melhores escolhas a serem feitas.
Entrar no mérito dos problemas (Crimeia, Donbass) – afirma o Avvenire em editorial –
- não significa abandonar Zelensky,
- “mas fazê-lo entender que não pode interpretar o apoio do Ocidente como aval a qualquer intransigência e à recusa de encerrar a guerra”.
Na Europa, abre caminho a interrogação sobre se a estratégia da escalada armamentista e do fomento a cada vez mais ódio é a correta.
Na Itália, as pessoas são muito sensíveis sobre o assunto.
E, nos Estados Unidos, surge a questão sobre se o conflito russo-ucraniano pode consistir em um “cheque em branco”dado a Kiev.
