
José Veiga Torres | 17 Set 2022
Casa da Torre (Soutelo, Braga), dos jesuítas. Foto © Companhia de Jesus.
As sábias teologias e a tentação de poder e de prestígio não se terão sobreposto à aprendizagem simples e mútua dos comportamentos de conversão evangélica, que o Espírito sopra, sem fazer diferença entre as pessoas?
Há cerca de 1800 anos que uma hierarquia eclesiástica (clerical), assumindo, por si e para si, o poder da sucessão apostólica, dividiu os cristãos em dois estatutos: clérigos e leigos.
Ordenando-se por uma sacralização sacerdotal, como clérigos, tornaram-se
- os detentores e administradores do poder sagrado,
- administradores do “sacramento” e da graça,
- únicos intérpretes autorizados da palavra de Deus,
- pastores de um rebanho em risco de se tresmalhar.
Os demais cristãos, como leigos, para não se tresmalharem do rebanho eclesiástico,
- terão de ser dóceis a tais pastores,
- recetores do “sacramento” que só estes administram,
- e passivos ouvintes da palavra de Deus e do sentido que os pastores lhe dão, interpretada por sábias teologias.
Só passados cerca de 1800 anos, os cristãos leigos, muito ou pouco dóceis ao poder clerical,
- foram, pela primeira vez, solicitados pela hierarquia clerical a pronunciar-se sobre o que entendiam, desejavam e esperavam do “caminho” cristão da Igreja.
- Só agora a hierarquia eclesiástica entendeu que, para o seu sínodo (clerical), o Espírito Santo poderia querer dizer-lhe alguma coisa pela voz dos leigos.
Antes, pressupunha-se que o Espírito Santo só chegaria à Igreja por mediação clerical.
No entanto o Espírito Santo já se havia manifestado, claramente, desde o início das igrejas:
1 – “Pedro ainda estava a falar, quando o Espírito Santo desceu sobre todos os que ouviam a palavra. Os fiéis de origem judaica, que tinham ido com Pedro, ficaram admirados por o dom do Espírito Santo também ser derramado sobre os pagãos.”
Depois Pedro constatou que
“estas pessoas receberam o Espírito Santo da mesma forma que nós recebemos”, mesmo sem serem batizados (ac.10,44-47).
Pedro já havia verificado e dito:
“De facto, agora compreendo que Deus não faz diferença entre as pessoas, pelo contrário, ele aceita quem o teme e pratica a justiça, seja qual for a nação a que pertença” (Actos dos Apóstolos 10, 34-36).
Isto aconteceu em Cesareia, quando Pedro foi chamado pelo pagão centurião Cornélio, a quem não devia atender, porque, como lhe explicou:
“Sabeis que é proibido a um judeu relacionar-se com um estrangeiro ou entrar em sua casa. Deus, porém, mostrou-me que não se deve dizer que homem algum é profano ou impuro.” (Act. 10, 28).
A Pedro repugnava-lhe desobedecer a uma lei discriminatória,
- mas o espírito fez-lhe compreender que a dicotomia sagrado/profano
- não tem lugar em qualquer dos seres humanos,
- porque para Deus essa diferença não existe.
Já antes o mesmo Pedro repetira a profecia de Joel:
“Eu derramarei o meu espírito sobre todas as pessoas; os vossos filhos e filhas vão profetizar, os jovens terão visões e os anciãos terão sonhos” (Act 2,17).
2 – “Tende uma só aspiração, um só amor, uma só alma e um só pensamento… os mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo:
- ele tinha a condição divina, mas não se apegou à sua igualdade com Deus, pelo contrário, esvaziou-se de si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens,
- assim, apresentando-se como simples homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até à morte” (Filipenses 2, 2-9).
O apóstolo Pedro, ao ser venerado de joelhos pelo centurião Cornélio, foi claro:
“Levanta-te, eu também sou apenas um homem” (Act. 10, 26).
Pedro não se sacralizou. Fundadas sobre a rocha de Pedro, as igrejas teriam de falar como Pedro.
Jesus dessacralizou-se, mas as hierarquias eclesiásticas, desde finais do primeiro século iniciaram o caminho inverso ao de Jesus,
- de simples homens foram-se alcandorando a uma sacralização e sacerdotalização
- que não encontra nenhum fundamento na prática dos apóstolos,
- nem na prática dos que eles deixaram como presidentes das comunidades que fundavam,
- e que não consta dos carismas descritos pelo apóstolo Paulo, e que ele mesmo, Paulo, nunca assumiu.
Paulo deixava as comunidades desenvolverem-se por si mesmas e ia testemunhar, fundando outras.
Será credível que o Espírito Santo (de Jesus) tenha mudado de “espírito”?
3 – Quando os mais íntimos dos apóstolos disputavam lugares privilegiados no reino, Jesus disse como seria o seu poder:
- “Sabeis como aqueles que se dizem governadores das nações têm poder sobre elas, e os seus dirigentes exercem sobre elas a sua autoridade,
- mas entre vós não deverá ser assim…
- o filho do homem não veio para ser servido, ele veio para servir e para dar a sua vida” (Marcos 10, 42-45).
Como se justificarão as estruturas eclesiásticas (clericais) moldadas pelos sistemas administrativos, políticos e militares, quando o espírito de Jesus era converter, comunitariamente, esse tipo de estruturas (dominadoras) mundanas?
4 – Quando Jesus condenava os comportamentos farisaicos, manifestando-se até nas vestes, com “faixas largas… longas franjas”,
- que “gostam dos lugares de honra nos banquetes e dos primeiros lugares nas sinagogas,
- gostam de ser cumprimentados nas praças públicas e que as pessoas lhes chamem mestres.
- Quanto a vós nunca vos deixeis tratar por mestre. Pois um só é o vosso mestre, e todos sois irmãos.
- Na terra não chameis ‘padre’ a ninguém, pois um só é o vosso pai» (Mateus 23, 5-10).
As sábias teologias e a tentação de poder e de prestígio não se terão sobreposto à aprendizagem simples e mútua dos comportamentos de conversão evangélica, que o Espírito sopra, sem fazer diferença entre as pessoas?

José Veiga Torres
nascido e batizado na paróquia de Santa Maria Maior, da cidade de Viana do Castelo, a 30 de Agosto de 1930, reside em Coimbra. Contacto: joseveigatorres@sapo.pt
Fonte: https://setemargens.com/o-que-diz-o-espirito-as-igrejas/