
Oscar Ranzani – 10 Setembro 2022

Jorge Alemán – Foto: DAQUI
Autor de numerosos livros que dão conta de um pensamento que une psicanálise, filosofia e política, além de livros de poesia, durante a segunda metade dos anos 70 fez parte da vanguarda da psicanálise lacaniana na Espanha e é um dos intelectuais mais consultados.
Mas ele nunca se esqueceu de sua terra. Por isso, quando perguntado sobre até que ponto sua teoria pode explicar o que a sociedade argentina está vivendo,
Alemán consegue traçar um panorama agudo e lúcido tanto do discurso capitalista que Jacques Lacan abordou, quanto do discurso de ódio no presente argentino.
A entrevista é de Oscar Ranzani, publicada por Página/12, 08-09-2022. A tradução é do Cepat.
Eis a entrevista.
Em que aspectos se cumprem as características do discurso capitalista de que falava Lacan nestes tempos?
Em todos os aspectos. É a minha tese. Há uma homologia estrutural entre o discurso capitalista e o neoliberalismo.
- é o triunfo, em termos heideggerianos, da técnica.
- É a ideia de formatar o cérebro através das estruturas cognitivas, das nanotecnologias e das redes de computadores.
- É administrar o cérebro como se fosse uma empresa.
Ao mesmo tempo, o neoliberalismo tenta passar a culpa por toda a violência do sistema para o sujeito; isto é, o próprio sujeito é culpado de todas as circunstâncias adversas que ele tem que viver neste mundo.
A ideia é que cada sujeito considere sua liberdade em termos de custo-benefício.
Tudo isso foi previamente afirmado por Lacan quando escreveu o discurso capitalista.
Ele falou
- da rejeição do amor; ou seja, esta espécie de gestão da alma que existe agora com os termos empatia, autoestima e resiliência
- que, na realidade, são termos que tentam treinar os sujeitos para suportar qualquer coisa
- ou para que a única realidade desses sujeitos seja o seu narcisismo.
Lacan também anunciou nesse discurso o mais-gozo, um termo muito problemático.
- Não se encontra apenas na classe dominante, mas também desempenha seu papel nos setores explorados e oprimidos.
- Basta ver quando se diz que há muitos setores da população em diferentes partes do mundo que votam contra seus próprios interesses.
Se a estrutura do discurso capitalista fosse lida como devia, ver-se-ia que eles não estão votando contra seus próprios interesses.
Mas os interesses dos sujeitos
- não são seus interesses vitais,
- não são os interesses do princípio do prazer,
- não são interesses homeostáticos.
Eles estão em um além. São interesses ligados ao gozo.
E quando você coloca os interesses ligados ao gozo, tudo se torna muito mais problemático. Entende-se por que em uma favela há trocas de armas e marcas de todos os tipos. Finalmente, há um mercado.
As exigências e os imperativos de desempenho continuam a operar no coração mesmo da pobreza.
“Há muito medo de que tudo fique pior do que está”, você disse a esse cronista em 2017, quando Mauricio Macri já era presidente. Diante dos acontecimentos ocorridos nos últimos tempos, sua análise teve um caráter inegável de previsão.
Sim, piorou muito. O mundo está muito pior. Ou seja,
- em consequência dos efeitos de destruição no discurso capitalista dos pontos de ancoragem,
- surgiu um tipo de subjetividade que não tem onde se amarrar, que flutua, como diria Lacan;
- que não tem um horizonte político onde se incluir.
E o receptáculo de tudo isso tem sido a extrema direita.
Não devemos confundi-la com as extremas direitas históricas.
A extrema direita é uma agenda, não um partido político.
- E é esse híbrido de neoliberalismo e estrutura que se dispõe a fazer a destruição de todos os laços sociais, do sujeito,
- e transformar tudo em uma espécie de performance e treinamento para quem pode entrar no mercado ou para quem fica de fora.
E como analisa a partir da teoria psicanalítica os discursos de ódio e por que eles pegam em alguns sujeitos dessa maneira?
- Se a pessoa não tem nenhum legado simbólico,
- se o horizonte histórico em que ela pode se reconhecer foi destruído,
- as pulsões de morte e as pulsões de destruição estão em todos os sujeitos.
E se o sujeito é capturado de tal maneira
- que ele não tem mais história e a única coisa que ele ouve é o que está se movendo no presente absoluto
- e o que está se movendo está constantemente chamando à destruição e ao ódio de quem quer reintroduzir o campo transformador do popular,
- bem, há muito tempo o neoliberalismo entendeu que não vai se legitimar pelas instituições, que tem que ser legitimado pelo ódio.
Se você olhar como o neoliberalismo funciona dos Estados Unidos à Europa, observará que não buscam a legitimidade nas organizações institucionais, mas que a presença do ódio é constitutiva do neoliberalismo.
E o tipo de rejeição que ocorreu com o kirchnerismo é muito semelhante a uma rejeição que se espalha pelo mundo? A pergunta é porque na Argentina costuma-se falar de uma semelhança entre 1955 e o tempo presente em termos desse tipo de discurso.
Obviamente, a Argentina tem suas peculiaridades.
- Primeiro, há o ódio clássico ao peronismo.
- Em segundo lugar, há o ódio ao feminino, encarnado na figura de Cristina,
- quando o feminino assume uma vocação política de transformação e de levar o campo popular ao poder.
Isso se torna insuportável para muitos sujeitos, como o cara que buscava seu “minuto de glória”.
Este sujeito que outro dia procurou o seu “minuto de glória” é fruto do seu ódio e da intersecção desse ódio com todos os aparelhos mediáticos que promovem, que não têm outra consistência senão o ódio que promovem.
Chegou-se ao limite de que muitos sujeitos rejeitam a vice-presidente até por causa de sua voz. Como os discursos de ódio se configuram no nível individual?
Então.
- O ódio acaba sendo não algo direcionado a apenas uma forma de pensar. O ódio se dirige ao ser.
- Esse é o poder que o ódio às vezes tem sobre o amor: o ódio se dirige à própria existência.
- Então, a voz, os gestos, o corpo, o jeito de se mover, tudo isso alimenta o ódio.
E de que maneira você acha que se pode analisar a ideologia na formação psíquica? Ou talvez o psíquico seja o criador da ideologia?
A grande contribuição da esquerda lacaniana – e trabalhei isso no meu último livro, Ideologia –
- é a relação muito problemática, mas, enfim, relação entre a ideologia e o fantasma.
- A ideologia tem a ver com a reprodução das relações sociais de produção, isto é, com a exploração e a opressão,
- mas o fantasma empresta à ideologia uma superfície de inscrição.
Por exemplo, o que estávamos vendo neste sujeito outro dia. Esse sujeito, por qualquer motivo, realiza-se através de um ato violento que nele visa alcançar seu “minuto de glória”.
Isso não é algo meramente ideológico, é também de ordem fantasmática.
O grande mérito de Althusser é que,
- ao ler Lacan e escrever sobre os aparelhos ideológicos do Estado, inscreveu o problema do estágio do espelho; isto é, o das identificações dentro da ideologia.
- Portanto, se você vê um imigrante na Europa que vota na extrema direita, diz-se: “Mas como pode ir contra os seus interesses?”
Volto a insistir neste ponto:
- depende de quais identificações você tem,
- porque quando a história desaparece, as identificações se tornam muito fortes.
Freud dizia que uma mente saudável é aquela que não nega a realidade, mas se esforça para transformá-la. Se aplicado ao coletivo, em que aspectos esta é uma sociedade doentia e como pode ser transformada?
Os acontecimentos vão dizê-lo, porque a sociedade está realmente muito doente.
Há muitos lugares no mundo, por exemplo, aqui na Espanha,
- onde a coalizão formada pelo PSOE, Izquierda Unida e Podemos fez as coisas com muito bom senso, levando em conta a pandemia, a guerra e o tempo que lhe tocou governar.
- E é provável que perca a eleição.
Por quê?
Do outro lado tem essa direita desinibida que propõe que não vai pagar a luz, que já afirmou na época que a quarentena era uma imposição.
Devemos ter em mente que
- ficamos do lado dos argumentos, do lado das restrições, do lado do “devemos renunciar pelo bem comum”,
- e a direita está em processo de desinibição para que sejam posteriormente distribuídos por todas as partes.
Enquanto isso, a fratura do social torna-se cada vez mais profunda e a desigualdade aumenta. No gozo proposto pela extrema direita está o aumento da desigualdade.

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Oscar Ranzani
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