
Leonardo Boff – Imagem: DAQUI – 09 Setembro 2022
Eis o artigo.
No dia 7 de setembro de cada ano, celebramos o dia da Independência do Brasil. Mas se trata de uma independência inconclusa. Foi feita por Dom Pedro I montado em cima de um burro e não como épica e falsamente o pinta Meireles, montado num belo cavalo.
Ao independizar-se o Brasil, foram mantidas as mesmas relações da época colonial, dos senhores da Casa Grande e dos escravizados da senzala.
- Não esqueçamos o fato de que a Independência se fez ainda no quadro do escravismo, que foi brutal e cruel para milhões de pessoas trazidas de África e aqui escravizadas.
- Mesmo depois da Lei Áurea de 1888, os escravizados não tiveram nenhuma compensação seja em terras, trabalhos e oportunidades.
- Foram lançados ao deus-dará sem absolutamente nada.
Hoje os afrodescendente constituem de 54% de nossa população para a qual nunca saldamos a nossa dívida por tudo o que sofreram e ajudaram a construir esta nação.
Como país, fomos sempre dependentes.
- Primeiro de Portugal,
- depois da Inglaterra,
- em seguida dos EUA
- e atualmente dos países opulentos com suas megacorporações que exploram nossas riquezas.
Nunca houve um projeto de nação.
- Sempre predominou, como foi amplamente mostrado pelos historiadores, uma política de conciliação das classes endinheiradas entre si e de costas para o povo, excluído e covardemente desprezado e odiado.
- Elas ocuparam o Estado e seus aparelhos para garantirem seus privilégios, usufruírem das vantagens dos grande projetos, das propinas e da corrupção simplesmente naturalizada.
Por isso temos um país profundamente dividido entre
- um pequeno número de miliardários e bilhardários,
- uma porção de classe média
- e entre as grandes maiorias marginalizadas e excluídas dos bens da civilização.
Houve, na época colonial, resistências e revoltas de gente do povo, de negros e indígenas, todas esmagadas violentamente com enforcamentos, fuzilamentos ou, no melhor dos casos, com o exílio e com golpes e ditaduras na época republicana.
Na verdade,
- aqui a democracia delegatícia foi e continua sendo de baixa e até de baixíssima intensidade,
- com uma liberdade tão somente formal e jurídica mas sem o seu insubstituível complemento, a igualdade.
- Por isso grassa uma vergonhosa desigualdade, das maiores do mundo, que é uma injustiça social tão grave que clama aos céus pelas vítimas que produz.
Olhando para trás nossa história pátria é marcada por sombras escuras,
- do genocídio indígena,
- da colonização,
- do escravismo
- e da dominação das elites do atraso, como as qualifica o sociólogo Jessé Souza, que agarram ao poder.
Quando alguém vindo do andar de baixo, sobrevivente da grande tribulação brasileira, chegou ao poder,
- Luis Inácio Lula da Silva, com sua sucessora Dilma Rousseff, introduziram políticas sociais de inserção de milhões de pobres e famintos,
- logo se armou contra eles um golpe jurídico-parlamentar-midiático.
Desta forma
- se salvou a velha ordem (da desordem social)
- e foi continuada por uma figura insana e psicopática que tirou do armário de partes importantes da população tudo o que havia de ódio e de perversão, recalcadas e fruto tardio do tempo da escravidão.
Os escravizados eram simplesmente “peças” a serem vendidas e compradas no mercado e tratadas com os famosos três Ps: pau, pão e pano.
- Pau como chibatadas desumanas,
- pão para não morrerem de forme
- e pano para esconderem as vergonhas.
A prática era da violência que continua ainda hoje com a população negra e pobre.
Fine finaliter:
- aqui nossa independência foi manca e inacabada, o que nos tira qualquer sentido de celebração.
- Como nunca houve uma revolução, como nos grandes países que deram seu salto de qualidade, que apeasse do poder-dominação à classe do privilégio e do enriquecimento fácil,
- nunca nos foi dada a oportunidade de fundar uma nação com um projeto para todos, altivo e ativo.
- Apenas prolongamos o regime de dependência de vários outros poderes forâneos até a presente data.
Qual seria a nossa chance e o nosso destino? Olhar para frente e para o futuro.
- Somos uma nação continental,
- com a maior riqueza ecológica do planeta em termos de água doce, florestas tropicais, solos férteis, imensa biodiversidade
- e um povo aberto, hábil e inteligente que conseguiu sobreviver a todo tipo de opressão.
Sabemos que a Terra alcançou o seu limite.
- No dia 28 de julho de 2022 ocorreu o Dia da Sobrecarga da Terra (The Earth Overshoot Day) ou seja, utilizamos todos os bens e serviços naturais indispensáveis para a vida.
- Entramos no cheque especial. Usamos, nos sete meses passados, todo o estoque de água, minerais, vegetais e energia que o planeta pode produzir e regenerar no período de 365 dias.
- Para continuarmos a viver seria necessária a biocapacidade de 1,75 Terras que não temos.
Com o crescimento inesperado do aquecimento global e com o que já existe de CO2 e metano acumulados na atmosfera, os eventos extremos serão inevitáveis.
Chegamos atrasados.
- Com ciência e técnica podemos apenas mitigar os efeitos extremos que virão com destruição de ecossistemas e milhares de vidas humanas.
- Segundo dados deste ano do IPCC, isso poderá ocorrer nos próximos 3-4 anos.
Haverá pontos de inflexão sociais como
- a erosão do modo de vida das populações,
- aumento de conflitos, violência, migração e crises humanitárias,
- afetando a infraestrutura, a segurança alimentar, hídrica e energética.
Muitas nações não conseguem produzir o que sua população necessita, situação agravada pela intrusão da Covid-19.
- Ele pode ser a mesa posta para as fomes e as sedes de toda a humanidade.
- Esta dependerá em grande parte do Brasil, da umidade de nossa Amazônia, da proteína de nosso gado e aves e da produção de alimentos de nossos solos.
- Grande parte dos países, hoje independentes, serão dependentes de nós.
Finalmente teremos alcançado a nossa real independência, não para nosso orgulho e benefício mas como serviço para a vida na Terra e a sobrevivência da humanidade.
Finalmente poderemos entoar a canção carnavalesca:
”Liberdade, Liberdade! Abre as asas sobre nós. E que a voz da Igualdade seja sempre a nossa voz” –
e de toda a humanidade.
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Leonardo Boff
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