Entrevista especial com Roberto Pereira Silva

Na foto: Celso Furtado | DAQUI
Por: João Vitor Santos | 06 Setembro 2022
Na onda das análises acerca do bicentenário, professor retoma o pensamento de Celso Furtado, alguém que demorou para ver um Brasil realmente independente e que sonhou um país com autonomia e igualdade.
Tem gente que não gosta de fazer aniversário, talvez porque inevitavelmente esse completar de mais um giro da Terra nos joga diretamente na seara dos pensamentos sobre o nosso passado.
Quando falamos de uma nação, ou até de um país, chovem análises
- sobre o nosso passado, sobre o que somos hoje e o que, quem sabe,
- muito provavelmente, haveremos de ser no futuro.
Ao invés de se render a essas elocubração, que quase caem na cilada do presentismo,
- o professor Roberto Pereira Silva faz um movimento distinto
- ao revisitar o pensamento de Celso Furtado justamente acerca da Independência do Brasil.
“Para Celso Furtado, a Independência do Brasil é um evento fundamental, mas que deve ser compreendido em um quadro mais amplo de modificações políticas que marcaram o final do século XVIII e o início do século XIX”, adianta.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, Silva detalha que Furtado compreende que
“a Independência foi feita com uma sociedade polarizada entre grandes proprietários de terras e escravos”.
O professor observa, ainda, que
- Celso Furtado via a independência do Brasil como um projeto inacabado,
- pois faltava uma autonomia, aquela capaz de ler o mundo,
- mas aplicando em suas terras somente aquilo que realmente servisse à sua realidade.
“Talvez a maior lição da obra de Furtado seja essa de colocar a explicação do Brasil e do subdesenvolvimento como o principal critério de verificação de qualquer teoria. Se ela não explica a realidade, é a teoria que deve ser alterada, modificada, repensada”, reflete.
E acrescenta:
- “a expansão do neoliberalismo no final do século XX fez com que Furtado reforçasse ainda mais a questão da soberania e da autonomia nacional. (…)
- A perda de autonomia sempre foi vista como um grande prejuízo para o Brasil”.
A partir disso, podemos compreender a centralidade da realidade das agruras de um nordeste ressequido e carcomido pelos interesses daqueles que só pensam na expropriação.
“E Furtado não falava disso apenas em termos de decisões econômicas e políticas.
- A perda de autonomia cultural, ou seja, a imitação dos padrões de consumo e de pensamento criados nos centros do capitalismo
- iam dificultando cada vez mais as formas de reflexão criativa para sair da crise econômica”, acrescenta.
Quem sabe, como provoca Silva, não possamos voltar a Furtado para realmente repensar um projeto de nação independente e autônoma.
Afinal, na década de 1960 ele já via como inegociável
“a democracia e o projeto de desenvolvimento com distribuição de renda”.
“Acredito que Celso Furtado não desistiria de propor caminhos e soluções, pois a sua convicção na possibilidade da ação planejada e no papel do Estado para corrigir essas distorções é uma das ideias que moviam seu pensamento e sua ação”,
sintetiza o professor Silva, pensando o Brasil de hoje à luz de Celso Furtado.

Roberto Pereira Silva (Foto: Arquivo pessoal)
Roberto Pereira Silva é professor do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas e do programa de pós-graduação em economia da Universidade Federal de Alfenas. Graduado em História pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo – USP, também é mestre em História Econômica pelo Programa de Pós-Graduação em Economia do Desenvolvimento do Instituto de Economia da Universidade de Campinas e doutor pelo programa de História Econômica da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.
É autor de O jovem Celso Furtado: história, política e economia (1941–1948) (Edusc, 2011).
Juntamente com Alexandre Freitas Barbosa e Alexandre Macchione Saes, é autor do artigo Celso Furtado e a (In) dependência do Brasil. O texto integra o livro Independência do Brasil – a história que não terminou (Boitempo, 2022), organizado por Antonio Carlos Mazzeo e Luiz Bernardo Pericás.
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Confira a entrevista.
IHU – Qual o entendimento de Celso Furtado acerca do evento de 1822, a Independência do Brasil?
Roberto Pereira Silva – Para Celso Furtado, a Independência do Brasil é um evento fundamental, mas que deve ser compreendido em um quadro mais amplo de modificações políticas que marcaram o final do século XVIII e o início do século XIX.
A ruptura com a metrópole ocorre em um quadro de crise econômica na colônia e no reino. Desde a crise da produção aurífera, e passando pela “falsa euforia”de exportação de produtos tropicais do final do XVIII, faltava ao Brasil um produto de exportação que garantiria a riqueza da metrópole.
Furtado compreende a Independência em um amplo quadro de modificações na transição do século XVIII para o XIX | Foto: Arquivo Senado Federal
Com a abertura dos conflitos políticos na Europa, Portugal se vê numa situação econômica, social e política difícil, com queda de receitas decorrentes da colônia e aumento dos gastos militares para fazer frente aos conflitos do velho continente.
- Para Furtado, o pacto colonial se rompe com a Abertura dos Portos, em 1808,
- e 1822 significa a ruptura política que, por sua vez, não resolve os conflitos nem do reino, nem da ex-colônia.
Será preciso esperar a consolidação do Estado Nacional e a entrada do café como principal produto de exportação para encerrar a fase de transição política.
Isso ocorre entre as décadas de 1830 e 1840, e agora o Estado Nacional nascente tem condições de estabelecer uma política econômica para favorecer os interesses das elites agrárias:
- manutenção do tráfico de escravizados até 1850, mesmo em face da pressão inglesa,
- política de manutenção do monopólio da terra
- e a reinserção no comércio internacional com as exportações de café.
Para Celso Furtado, a Independência do Brasil deve ser compreendida em um quadro mais amplo de modificações políticas que marcaram o final do século XVIII e o início do século XIX – Roberto Pereira Silva – Tweet
IHU – O Brasil teve um processo de independência diferente de outros países latino-americanos. Em que medida esse processo distinto impactou na concepção de projetos de nação e de desenvolvimento econômico e social?
Roberto Pereira Silva – Uma das riquezas da interpretação de Celso Furtado é a comparação entre os processos de independência do Brasil e dos Estados Unidos.
É esse contraponto que lhe permitiu destacar as principais peculiaridades da Independência do Brasil.
No caso brasileiro,
- a Independência foi feita com uma sociedade polarizada entre grandes proprietários de terras e escravos.
- Faltava, no Brasil, elites mercantis e manufatureiras ligadas não só ao comércio de exportação, mas também às atividades internas para fazer frente ao projeto agroexportador e escravista dessa elite.
Segundo Furtado, a heterogeneidade social dos Estados Unidos foi fundamental para implementar um projeto de Nação calcado
- no trabalho livre,
- na indústria e no mercado interno,
enquanto o Brasil manteve-se como nação escravista e primário-exportadora.
No caso brasileiro, a Independência foi feita com uma sociedade polarizada entre grandes proprietários de terras e escravos – Roberto Pereira Silva – Tweet
IHU – Muito antes de termos solidificado o conceito de globalização ou mercado global, o Brasil, desde a colônia, passando pelo Império e avançando pelas duas fases da República, sempre teve seu desenvolvimento econômico muito atrelado e dependente de mercados externos. Essa é uma das causas de nossa quase eterna (in)dependência?
Roberto Pereira Silva – Sem dúvida alguma, a dependência dos mercados externos foi uma das principais características da economia brasileira até 1930.
- Por isso é importante considerarmos que, para Celso Furtado, a Independência é um fenômeno exclusivamente político.
- Ele continua falando de economia colonial ou dependente ao longo do século XIX.
O fim da economia colonial/dependente
- ocorre somente com a crise de 1929 e o surgimento da industrialização
- baseada no trabalho livre assalariado e no mercado interno.
Esses três elementos são as condições para uma economia nacional.
IHU – Como podemos compreender a formação intelectual de Celso Furtado e sua concepção sobre economia e sobre o Brasil? No que essa sua experiência de vida pode inspirar economistas e escolas de economia em tempo de uma chamada “economia de mercado”?
Roberto Pereira Silva – A formação intelectual de Celso Furtado, assim como grande parte de sua geração, se deu com o que Antônio Candido chamou de “dialética entre localismo e cosmopolitismo”.
- Ao mesmo tempo que Furtado atualizava-se com o que era produzido, primeiro em História, Administração e Ciências Sociais, até chegar à Economia,
- ele sempre contrapunha essas teorias e seus conceitos à realidade brasileira, concreta.
A concretude do Nordeste, onde nasceu, e depois da economia brasileira que ele descobriu e descortinou quando foi trabalhar na Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe – Cepal.
Talvez a maior lição da obra de Furtado seja essa
- de colocar a explicação do Brasil e do subdesenvolvimento como o principal critério de verificação de qualquer teoria.
- Se ela não explica a realidade, é a teoria que deve ser alterada, modificada, repensada.
Talvez a maior lição da obra de Furtado seja essa de colocar a explicação do Brasil e do subdesenvolvimento como o principal critério de verificação de qualquer teoria – Roberto Pereira Silva – Tweet
IHU – Ao longo de sua história, no transcorrer do século XX, Celso Furtado pensou um projeto de desenvolvimento nacional. Que projeto foi esse e em que medida foi levado adiante?
Roberto Pereira Silva – O projeto de desenvolvimento de Celso Furtado é amplo, complexo e mutável, sempre respondendo aos anseios e aos problemas da sociedade.
Na década de 1950, esse projeto se apresentava como a industrialização planejada pelo Estado como forma de superar
- o atraso brasileiro,
- a heterogeneidade (o convívio de diferentes estruturas sociais e econômicas) econômica.
No final da década de 1950, ele percebe que
- essa industrialização acentua as desigualdades regionais,
- e então esse projeto é repensado para recolocar o planejamento econômico a nível regional,
- para diminuir as desigualdades entre as regiões do Brasil, sobretudo o Nordeste.
A luta pelo Nordeste foi também um período em que sua obra incorpora, cada vez mais, a necessidade da democracia e de participação da população no projeto de desenvolvimento. É preciso que o desenvolvimento seja um anseio nacional e não uma decisão tomada na cúpula do governo.
A luta pelo Nordeste foi também um período em que sua obra incorpora, cada vez mais, a necessidade da democracia e de participação da população no projeto de desenvolvimento – Roberto Pereira Silva – Tweet
O Golpe de 1964 modifica as esperanças de Furtado.
- O projeto de desenvolvimento industrial e democrático permanece no horizonte,
- mas as dificuldades impostas pelo regime autoritário e pela perda da soberania nacional com a expansão do capital estrangeiro e das multinacionais
- torna-se uma preocupação fundamental.
Das reflexões sobre os fatores que impedem o desenvolvimento é que Furtado vai derivar a necessidade de retomar
- a autonomia nacional,
- a democracia,
- a redução das desigualdades,
tudo isso acompanhado de uma valorização da cultura nacional.
IHU – Como a onda de liberalismo do final do século XX, em que uma outra concepção de Estado surgia, impactou o projeto de Celso Furtado? Aliás, são o liberalismo e o neoliberalismo os entraves para o desenvolvimento de nação tal qual pensou Furtado?
Roberto Pereira Silva – A expansão do neoliberalismo no final do século XX fez com que
- Furtado reforçasse ainda mais a questão da soberania e da autonomia nacional,
- ou seja, a necessidade de que o país recuperasse a possibilidade de dirigir e decidir o seu destino.
A perda de autonomia sempre foi vista como um grande prejuízo para o Brasil. E Furtado não falava disso apenas em termos de decisões econômicas e políticas.
A perda de autonomia cultural, ou seja,
- a imitação dos padrões de consumo e de pensamento criados nos centros do capitalismo
- iam dificultando cada vez mais as formas de reflexão criativa para sair da crise econômica.
A expansão do neoliberalismo no final do século XX fez com que Furtado reforçasse ainda mais a questão da soberania e da autonomia nacional – Roberto Pereira Silva – Tweet
IHU – Qual a concepção de Celso Furtado acerca da indústria nacional? Como, a partir dessas suas perspectivas, podemos pensar a indústria para o Brasil no século XXI?
Roberto Pereira Silva – A indústria nacional era considerada, na década de 1950, o principal motor do desenvolvimento.
- Furtado nunca foi um nacionalista extremo, que não admitia o capital estrangeiro,
- mas, para ele, os interesses nacionais devem prevalecer sobre os interesses privados das empresas estrangeiras.
Outra questão crucial para Furtado era a dependência tecnológica.
- A centralidade da indústria passa necessariamente pela inovação tecnológica
- e a concentração do conhecimento em algumas indústrias ou países foi ampliando os entraves para o desenvolvimento econômico dos países subdesenvolvidos.
IHU – No que consistia o panfleto de 1962, “A pré-revolução brasileira”? Em que medida poderíamos atualizar essas ideias para as transformações que varrem o século XXI?
Roberto Pereira Silva – O panfleto “A pré-revolução brasileira”, um dos capítulos do livro homônimo, foi uma intervenção no debate político poucos anos antes do Golpe Militar.
- É um texto em que Furtado rechaça a via revolucionária chamada por ele de “marxista-leninista”,
- mas também qualquer projeto autoritário de direita.
A Pré-Revolução Brasileira, de Celso Furtado (Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1962) | Imagem: divulgação
Para Furtado,
- o que havia de inegociável na conjuntura de crise do início da década de 1960 eram a democracia e o projeto de desenvolvimento com distribuição de renda.
- Qualquer projeto político que negasse qualquer um ou os dois princípios deveria ser descartado pela sociedade.
O texto foi muito mal interpretado pela imprensa nacional e internacional, colocando Furtado como um autor que pregava a revolução.
Para Furtado, o que havia de inegociável na conjuntura de crise do início da década de 1960 eram a democracia e o projeto de desenvolvimento com distribuição de renda – Roberto Pereira Silva – Tweet
IHU – Se alguém lhe pedisse a indicação de apenas uma obra de Celso Furtado para ler e pensar sobre os desafios de nosso tempo, qual o senhor indicaria?
Roberto Pereira Silva – Acho que o livro “Formação econômica do Brasil” ainda é uma obra inspiradora para quem quer tomar contato com o pensamento de Furtado e, também, para se pensar os problemas do Brasil.
Formação Econômica do Brasil, em edição mais recente, de 2007 (São Paulo: Companhia das Letras | Foto: divulgação
O livro é uma junção de teoria econômica e história, perpassa séculos de nossa história econômica e traz reflexões que ainda hoje são importantes, tais como:
- a importância do Estado Nacional e do Planejamento Econômico;
- a economia voltada para o mercado interno e a ampliação do poder de consumo;
- o combate às desigualdades sociais e econômicas.
Outros pontos fundamentais, também,
- sobretudo para os jovens estudantes de economia e ciências sociais,
- é o esforço de elaboração de conceitos e categorias para se pensar a realidade do Brasil e dos países atrasados.
O livro é um exemplo de construção de um pensamento autônomo, livre de amarras teóricas que possam dar uma visão deturpada dos problemas do país.
Celso Furtado veria com grande desencanto e desespero a situação atual. Veria tudo isso como um retorno ao que há de mais cruel em nosso passado – Roberto Pereira Silva – Tweet
IHU – O senhor também desenvolveu inúmeros trabalhos acerca do pensamento e da figura de Celso Furtado. A partir de tudo que já leu, pesquisou e ouviu sobre ele, o que imaginaria que ele poderia dizer acerca da esperança para um Brasil que viu voltar a dor da fome, do desalento e da falta de perspectiva de uma vida melhor?
Roberto Pereira Silva – Celso Furtado veria com grande desencanto e desespero a situação atual.
- Veria tudo isso como um retorno ao que há de mais cruel em nosso passado.
- A exasperação dele seria muito grande, também,
- pois para ele a situação atual seria fruto de decisões de política econômica.
O Jovem Celso Furtado – História, Política e Economia, de Roberto Pereira Silva (Edusc, 2011) | Foto: divulgação
O nível de miséria e de fome
- poderia ser facilmente evitado no Brasil
- com uma política que garantisse o fornecimento de alimentos para o mercado interno,
- em detrimento das exportações.
As políticas redistributivas também poderiam ter sido tomadas de forma muito mais eficaz no país.
Entretanto, acredito que Celso Furtado não desistiria de propor caminhos e soluções, pois a sua convicção na possibilidade da ação planejada e no papel do Estado para corrigir essas distorções é uma das ideias que moviam seu pensamento e sua ação.

João Vitor Santos
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