“Acompanho de perto com preocupação e dor a situação criada na Nicarágua, que envolve pessoas e instituições”, disse o pontífice após a bênção do Angelus do domingo na Praça de São Pedro.
Esta foi a primeira vez que o papa falou em público sobre o tema delicado, que provocou grandes controvérsias entre os analistas pelo silêncio de Francisco.
Muitos questionaram
- os motivos do silêncio de quase duas semanas do papa latino-americano sobre a grave crise entre a Igreja da Nicarágua e o governo de Ortega,
- aprofundada após a detenção na sexta-feira do bispo de Matagalpa, Rolando Álvarez, um aberto opositor do regime.
Perseguição, operações de busca, detenções, fechamento de meios de comunicação católicos e até o exílio de religiosos estão entre as medidas enfrentadas pela Igreja no país da América Central nos últimos anos.
Francisco, que tem o hábito de falar sobre vários temas, de catástrofes naturais até tragédias pessoais,
- não mencionou diretamente a detenção do bispo Álvarez e um grupo de colaboradores que estavam na diocese,
- embora tenha citado indiretamente “pessoas e instituições” afetadas.
Em sua mensagem, o papa afirmou:
“Quero expressar minha convicção e desejo de que por meio de um diálogo aberto e sincero ainda é possível encontrar as bases para uma convivência respeitosa e pacífica”.
- “Um silêncio papal não significa inatividade ou falta de decisão, não, nada disso.
- Significa que estão trabalhando em outros planos”,
afirmou na semana passada Rodrigo Guerra, secretário do Pontifício Conselho para a América Latina.
Toda a Igreja latino-americana,
- do influente Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM),
- passando pelos arcebispos da Costa Rica, El Salvador, México e inclusive o cardeal hondurenho Óscar Andrés Rodríguez Maradiaga, considerado próximo ao papa,
- expressaram solidariedade com o religioso perseguido, pediram orações e lamentaram a situação.
“Uma ruptura é muito fácil, mas a sabedoria do Santo Padre é que busca caminhos de diálogo, porque há milhões de fiéis católicos que também estão sofrendo”,
disse Rodríguez Maradiaga à imprensa católica no domingo.
“As palavras do papa certamente decepcionaram muitos porque esperavam que o papa condenasse alguns e defendesse outros”,
comentou a teóloga colombiana Consuelo Vélez.
“O papa se expressou nos termos que apresentou em sua última encíclica, Fratelli Tutti”,
destacou, em uma referência ao documento papal dedicado à fraternidade e amizade social.
O texto resume a linha adotada por Francisco em quase 10 anos de pontificado.
- E não apenas para o caso da Nicarágua, um conflito que conhece de de perto,
- mas também para a guerra russa na Ucrânia.
O papa sempre defende o diálogo.
Desde que assumiu a liderança da Igreja Católica em 2013, Francisco quer ser identificado como o artesão do diálogo e da paz, um pacifista convicto.
Em 4 de agosto, Álvarez foi posto em prisão domiciliar na Cúria de Matagalpa, junto com uma dúzia de pessoas.
O local foi sitiado dias depois que o bispo denunciou o fechamento pelas autoridades de cinco rádios católicas e exigiu que o governo de Daniel Ortega respeitasse a “liberdade religiosa”.
De acordo com a polícia, a Diocese de Matagalpa está sendo investigada por tentar “organizar grupos violentos” e “incitar ódio para desestabilizar o Estado da Nicarágua”.
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AFP
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