- ‘liberdade de arbítrio no Estado de direito, que só pode existir dentro de limites determinados pelo fato de que cada um pode pretender liberdade igual‘,
- ou seja, a religião – de fato única – que vem do poder totalitário religioso, suprime a legitimidade de outro discurso religioso”.
“Estas eleições podem se tornar uma guerra, – afirma Tarso Genro –
- não porque a política dividiu radicalmente as pessoas de forma espontânea
- ou porque as religiões nos levaram a esta situação,
- mas sim porque o fundamentalismo das religiões do dinheiro e o discurso fundamentalista neoliberal encontraram um caminho comum, na situação histórica concreta:
a vitória das opressões de classe, que vem por dentro da dominação do rentismo ultraliberal e das guerras mundiais “parciais”, já são radicalmente avessos à razão, à liberdade de espírito e às liberdades políticas da democracia liberal representativa”.
Eis o artigo.
Estamos no limiar da recuperação dos valores da democracia e da República ou no limiar do acolhimento eleitoral da sua traição.
Aposto, otimista, na primeira hipótese, não sem lembrar – talvez suscitado por uma leitura mal lembrada de Jorge Luis Borges – que
- o traidor é homem de lealdades sucessivas e opostas
- e um fascista, um fanático, um sectário, é um homem que só é leal a si mesmo,
- ou seja, (é leal) a um ódio visceral ou a uma repulsa radical de tudo que é humano.
Fascistas e traidores da Carta de 1988 estão do mesmo lado, embora nem todos sejam conscientes do campo onde revezam os seus ódios e as suas mentiras.
Tempos limites
- são tempos de relembrar nossas vidas, erros, aprendizados
- e sobretudo de recordar o quão humanos permanecemos num tempo em que um Presidente diz que quer matar,
- mas é absolvido – mas além dos seus cúmplices – pela tolerância dos que formam a opinião,
- como se a omissão não fosse cumplicidade e a tolerância pudesse se vestir de algo que não fosse covardia.
No início da década de 1950 – mais precisamente em agosto de 1952 – o jornalista e escritor Gondin da Fonseca (1899-1977), repórter-cronista quando queria e genial panfletário político nos momentos adequados, concedia uma entrevista a sua querida sobrinha Regina Helena, na sua morada carioca na Tijuca.
- Dizendo que iria abandonar jornalismo, Gondin da Fonseca – também intelectual sofisticado e defensor da regulamentação profissional do jornalismo –
- se dizia “cansado”: queria “sombra e água fresca”.
Para ele, isso significava dedicar o seu tempo a escrever um livro sobre o escritor português Camilo Castelo Branco, que admirava com a mesma intensidade que amava Eça de Queiroz.
- Lembro este nome emblemático da imprensa e da intelectualidade daquela época conturbada da formação do Brasil moderno,
- porque no início desta campanha eleitoral seu nome me veio à mente através do título de um dos primeiros, senão o primeiro livro “político” que li do começo ao fim.

Em 1961, na santa ignorância dos meus 14 anos de idade li Senhor Deus dos Desgraçados! e aprendi lições que me marcaram até hoje,
- bem distante – graças ao Sr. Deus dos desgraçados –
- da cultura “fast-food” do modo neoliberal do viver e amar,
- marcada pela ascensão do fascismo em todo o mundo,
- cuja indiferença com o outro naturaliza tanto os bolsonaros da vida bem como o assassinato de adversários políticos.
O título arrebatador me surgiu sem aviso
- enquanto eu lia uma matéria nas redes sobre um destes pastores do dinheiro, que transitam das delegacias de polícia para seus templos nem tão discretos,
- onde se apresentam aos pobres da sociedade de classes com a sua conveniente visão de um Deus que é seu apoiador político celestial,
- sem jamais apresentar as fontes de suas rendas terrenas.
A confusão entre política e religião nunca foi tão grande no país e ela ajuda a radicalização do processo de disputa política,
- pois esta subsunção da política à religião (ou vice-versa) anula a discurso da razão democrática, de parte-à-parte,
- e permite a substituição do argumento pela fé,
- o que está apenas a um passo da violência política sem fim.
É possível respeitar todas as religiões e garantir a plenitude dos seus direitos à pregação religiosa,
- sem se deixar intimidar pelo ódio que exala das falsas pregações, destinadas a destruir a laicidade do Estado
- e assim reservar o direito à palavra, exclusivamente aos que concordam com as suas convicções e ensinamentos fundamentalistas,
- com o discurso oportunista que visa apenas os fins materiais desta vida, para os pastores em busca de capital.
Das religiões podem se originar
- ensinamentos que subjugam as pessoas, ao invés de orientá-las na fé
- e também ensinamentos que buscam extorquir uma parte das pequenas economias das pessoas do povo,
- ao invés de as aproximarem das mensagens de generosidade e solidariedade contidas em todas as religiões.
O Estado moderno é laico e proíbe que seu aparato de poder e os seus recursos sejam ocupados pelos governos, no Estado de direito,
- para premiar com atenção e direitos os “crentes” do seu grupo
- e excluir os demais, que não aceitam seus discursos de ódio e discriminação.
O ex-presidente Lula está sofrendo, neste momento em que escrevo este texto,
- uma campanha infame certamente promovida por estes pastores do dinheiro,
- difamadores e escroques largamente presentes na crônica policial.
Este início de campanha me lembrou igualmente o livro de Gondim da Fonseca, Senhor Deus dos desgraçados, para presumir um outro tipo de criador:
- aquele dos meliantes políticos vindo dos antros do fundamentalismo,
- cuja doutrina reporta-se a um “criador” que autoriza a extorsão pela fé
- e também estimula o combate político sem ideias para facilitar o seu enriquecimento sem causa.
Ao acabar com a laicização do Estado
- o discurso fundamentalsta, se tornado discurso do Estado,
- acaba com a “liberdade de arbítrio no Estado de direito,
- que só pode existir dentro de limites determinados pelo fato de que cada um pode pretender liberdade igual”,
- ou seja, a religião – de fato única – que vem do poder totalitário religioso, suprime a legitimidade de outro discurso religioso.
Assim,
- ela segrega para a segunda classe da cidadania as visões da religião que sejam tolerantes com a diversidade do ser humano,
- bem como com as diferenças culturais que formam cada comunidade do gênero humano.
Não é gratuito
- que a visão do “caminho único” na economia seja apropriado como “coisa sua”, pela maioria da religiões que pregam os dogmas do fundamentalismo e da intolerância religiosa,
- que se converte rapidamente em intolerância política na vida comum.
Não é estranho também
- que os partidos de extrema direita tendentes ao fascismo
- sejam pródigos em se apresentar em nome de Deus, da Pátria e da Família, para escorar a sua identidade totalitária.
Estas eleições podem se tornar uma guerra,
- não porque a política dividiu radicalmente as pessoas de forma espontânea
- ou porque as religiões nos levaram a esta situação,
mas sim porque o fundamentalismo das religiões do dinheiro e o discurso fundamentalista neoliberal encontraram um caminho comum, na situação histórica concreta:
- a vitória das opressões de classe, que vem por dentro da dominação do rentismo ultraliberal e das guerras mundiais “parciais”,
- já são radicalmente avessos à razão, à liberdade de espírito e às liberdades políticas da democracia liberal representativa.
Não há mais dissimulação possível – dentro da democracia política –
- por isso naturalizaram o fascismo
- e passaram a cultuar a morte como consenso
- e a distorção religiosa como arma da hegemonia.
Isso nos chama à vida e nos dará forças para vencer.

Tarso Genro
Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/621354-o-deus-dos-desgracados-artigo-de-tarso-genro
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