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Uma bomba social por trás do Auxílio Brasil

  • 10/08/2022
  • 18:32

 David Deccache, Daniel Conceição, e Fabiano Dalto, – 10 Agosto 2022

 “Os desafios para o próximo governo serão gigantes e as soluções devem ser construídas desde já. Não é possível esperar a eleição acabar e janeiro chegar. Se deixarmos tudo para fevereiro de 2023, enfrentaremos um dos piores inícios de governo de todos os tempos.
E nossa história recente mostra que governos fracos e impopulares acabam reféns do centrão e do mercado financeiro, com seu exército de profissionais ilusionistas armados de programas de televisão e grandes jornais”,
escrevem David Deccache, doutorando em Economia pela UnB de diretor do IFFD, Daniel Conceição, professor da UFRJ e presidente do IFFD e Fabiano Dalto, professor da UFPR e diretor do IFFD, em artigo publicado por Outras Palavras, 08-08-2022.

 

Eis o artigo.

 

O Congresso Nacional promulgou, no último mês, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 1/22.

A proposta, com prazo de validade para dezembro deste ano,

  • dobrou o valor do vale-gás,
  • criou um auxílio-gasolina para taxistas,
  • ampliou o Auxílio Brasil
  • e prevê um “voucher” para caminhoneiros.

Todas essas medidas, além de insuficientes, são temporárias e oportunistas, pois visam reduzir a rejeição do governo Bolsonaro no período eleitoral.

Além disso, porém, o pacote suscita duas questões políticas.

  • É justo criticá-lo usando o mesmo argumento empregado pela oposição neoliberal?
  • E – mais importante – que fazer em face da crise de renda e de crédito que ele tende a provocar já no início de 2023, sob um possível governo Lula?

 

* Primeiro, é importante destacar que uma crítica frágil – embora recorrente – ao pacote oportunista do Bolsonaro sustenta que a PEC é irresponsável do ponto de vista fiscal.

Esta, inclusive, foi a justificativa do Senador José Serra para o seu voto contrário, o único do Senado.

Trata-se de uma argumentação que tem sido utilizada incessantemente para obstruir o cumprimento das obrigações sociais do Estado.

Em essência

  • o argumento que equipara a PEC a uma “bomba fiscal” é mais um retirado da farta prateleira neoliberal de mitos falaciosos
  • cujo objetivo é aprofundar a mercantilização generalizada de todas as esferas da vida.

Do nosso ponto de vista, não se pode adotar falácias para combater o oportunismo eleitoreiro de Bolsonaro.

Pelo contrário,

  • devemos denunciar a insuficiência das medidas e propor um programa robusto de gastos públicos
  • que não só preserve a renda dos mais pobres como amplie sua proteção,
  • que tem sido ameaçada com a política neoliberal do governo.

 

Outra crítica recorrente e equivocada é a que alega que mais recursos na mão dos mais pobres terão fortes efeitos inflacionários.

  • Esta análise desconsidera que o processo inflacionário atual
  • decorre, principalmente, da política de preços da Petrobras,
  • e não de um excesso de demanda.

 

A crítica mais forte e necessária — porém, infelizmente ignorada até pelo campo progressista — tem sentido oposto às anteriores.

Implica dizer que  Bolsonaro deixou as pessoas morrendo de fome  nos últimos anos, ou por maldade ou por adequação à ortodoxia econômica.

  • O auxílio emergencial foi interrompido em dezembro de 2020, o que deixou dezenas de milhões à míngua.
  • Não havia restrições financeiras a manter o benefício, como provara o pacote de socorro estatal trilionário do início daquele ano.
  • Mas nada foi feito, ao longo de mais de um ano e meio, para minorar a fome e o sofrimento das vítimas da crise social.

O fato de o governo agir apenas agora, às vésperas do pleito presidencial, denuncia o caráter eleitoreiro da PEC 1/22.

 

* Aqui entra a segunda questão crucial.

  • Se por um lado, o pacote eleitoreiro não traz absolutamente nenhum risco fiscal à União,
  • as propostas oportunistas impõem enormes desafios para o campo progressista.

Foi armada uma bomba social para o possível governo Lula.

  • Ela elevará de modo importante a renda disponível das famílias no período pré-eleições mas a fará despencar, a partir de janeiro.
  • De quebra, submeterá milhões de pessoas ao sistema financeiro privado, com seus juros e práticas abusivas.

Para desarmar esta bomba, é preciso compreendê-la.

 

Em paralelo à PEC 1/22, o Congresso aprovou a Medida Provisória  (MP) 1106/22.

Ela permite aos bancos consignar (ou seja, entregar antecipadamente) aos bancos a renda que os beneficiários do Auxílio Brasil receberão a partir de janeiro.

  • Isso poderá ser feito por meio de empréstimos oferecidos agora pelo sistema bancário e pagos compulsoriamente, com juros, pelos devedores.
  • Com a redução de suas rendas, as famílias endividadas terão ainda mais dificuldades para arcar com as prestações
  • e enfrentarão dificuldades para adquirir os itens básicos de consumo necessários a sua própria sobrevivência.

 

Segundo a MP 1106/22,

  • os empréstimos consignados – aqueles cujos pagamentos de juros e amortizações são descontados automaticamente das rendas do devedor – poderão incidir sobre o Auxílio Brasil,
  • comprometendo até 40% do valor deste benefício.
  • O montante que poderá ser liberado em cada contrato pode chegar, em alguns casos, a R$ 3 mil.

 

É fácil compreender o caráter traiçoeiro deste crédito.

Nas vésperas da eleição, a expectativa do governo é que as liberações do crédito consignado injetem na economia brasileira recursos da ordem de R$ 77 bilhões.

No curto prazo,

  • significa uma adição, desconsiderando qualquer efeito multiplicador, próxima de 0,9% na taxa de crescimento do PIB deste ano,
  •  em paralelo a um aumento considerável do poder de compra.

No médio prazo, no entanto,

  • isso implica queda da renda disponível para o consumo das famílias,
  • superendividamento potencial e transferência automática da renda dos mais pobres para os bancos,
  • na forma dos pesados juros que incidirão sobre as dívidas familiares.

Há matérias na imprensa que apontam que alguns agentes do sistema financeiro pretendem cobrar taxa de juros de 98% ao ano pelo crédito consignado para quem recebe Auxilio Brasil.

 

 

Como exemplo,

  • nos cinco meses finais deste ano, uma família em situação de pobreza ou extrema pobreza receberá R$ 600 do Auxílio Brasil
  • e ainda poderá acessar crédito de aproximadamente R$ 3.000.

São quase vinte milhões de famílias nesta situação, o que significa algo como 72 milhões de pessoas, aproximadamente 1/3 da população brasileira.

 

O pacote eleitoreiro poderá significar uma ampliação de R$ 118,2 bilhões no poder de compra das famílias nos cinco meses finais do ano – e no cálculo estamos desconsiderando outros elementos, como os saques do FGTS.

Na prática, os impactos desta injeção de recursos serão ainda maiores, dado o efeito multiplicador.

  • As famílias irão ampliar fortemente o consumo, o que aquecerá diversos setores, do comércio à indústria, multiplicando o impulso inicial.
  • Por exemplo, considerando um efeito multiplicador de 1,5, o estímulo poderá aumentar o PIB em R$ 177 bilhões, um crescimento adicional de 2%.

Os impactos eleitorais podem ser consideráveis, talvez até suficientes para garantir Bolsonaro no segundo turno.

 

Contudo, este cenário econômico será radicalmente revertido já em janeiro, primeiro mês do possível governo Lula.

  • Além do fim do benefício extraordinário de R$ 200, algumas famílias terão descontos automáticos de até R$ 240 no Auxílio Brasil, para pagarem seus empréstimos consignados.
  • Isto significa que milhões de famílias verão sua renda disponível para o consumo de bens e serviços básicos/indispensáveis despencarem de R$ 600 para R$ 160.
  • Além disso, terão esgotado seus limites de crédito e não poderão recorrer a mais endividamento consignado.

 

Caso nada seja feito, o governo Lula terá que lidar com a explosão da já alta e intolerável situação de fome no Brasil nas suas primeiras semanas.

A desaceleração econômica ocasionada pelo choque depressivo da redução do poder de compra dos recebedores dos programas de transferência de renda será profunda.

  • Esta hipótese precisa ser evitada a todo custo,
  • pois caso se concretize minará o apoio popular do governo logo no seu início — período fundamental para determinar os rumos da governabilidade.

Com uma correlação de forças desfavorável,

  • o Executivo se tornará frágil frente ao Legislativo
  • e perderá impulso para avançar na concretização das suas promessas de campanha.

 

A situação exige dois passos urgentes.

O primeiro é articular a aprovação — ainda neste ano, imediatamente após a eleição — de uma PEC

  • que revogue definitivamente o teto de gastos e inicie a construção de um novo regime fiscal funcional,
  • baseado no planejamento econômico democrático.

Após a revogação do teto de gastos,

  • devem ser restabelecidas as ferramentas de planejamento,
  • como os planos plurianuais e as diretrizes orçamentárias,
  • conforme determinado na Constituição de 1988.

O novo regime também deverá ser economicamente responsável,

  • isto é, atento aos limites inflacionários da economia
  • e desapegado de resultados contábeis economicamente desimportantes e ilusórios,
  • como os indicadores de déficit fiscal e de razão dívida/PIB.

 

O primeiro passo descrito acima

  • permitirá que um governo Lula livre-se, já no início de seu mandato, de um teto de gastos disfuncional;
  • e que publique uma Medida Provisória (MP) no primeiro dia de seu governo prorrogando o benefício extraordinário e mantendo o Auxílio Brasil em R$ 600.

O tempo e espaço fiscal conquistados com a derrubada do teto de gastos e a prorrogação do Auxílio Brasil poderão ser usados para reconstruir o Bolsa Família.

Implica eliminar as graves distorções causadas pelo Auxílio Brasil,

  • em que uma família de duas pessoas recebe o mesmo valor que outra com dez filhos,
  • fora as outras inúmeras imperfeições técnicas do programa de Bolsonaro.

 

Entretanto, o novo Bolsa Família não pode voltar a ser simplesmente o que era.

  • Deve mirar um benefício mínimo de, pelo menos, R$ 600, além de conter regras funcionais de reajuste anual e impedimento de formação de filas.
  • Deve-se, também, no primeiro semestre, construir um programa que perdoe as dívidas das famílias que tiverem tomado empréstimos consignados com desconto automático do Auxílio Brasil,
  • mesmo que seja necessário que o governo federal faça o ressarcimento aos bancos de empréstimos tão covardemente predatórios.

 

Os desafios para o próximo governo serão gigantes e as soluções devem ser construídas desde já. Não é possível esperar a eleição acabar e janeiro chegar.

Se deixarmos tudo para fevereiro de 2023, enfrentaremos um dos piores inícios de governo de todos os tempos.

E nossa história recente mostra que governos fracos e impopulares acabam reféns do centrão e do mercado financeiro, com seu exército de profissionais ilusionistas armados de programas de televisão e grandes jornais.

David Deccache, Daniel Conceição, e Fabiano Dalto,

Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/621098-um-bomba-social-por-tras-do-auxilio-brasil

Leia mais:

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