
CRISTOVAM BUARQUE – CB – Correio Braziliense – 26/07/2022
Muitos produtores, com lógica imediatista, ignorando filhos, netos e o Brasil,não veem a conservação florestal como parte da produção agrícola.No máximo, limitam as preocupações às matas dentro de sua propriedade.
Faltando poucas semanas para as eleições, não se veem propostas dos candidatos para salvar o agronegócio de três ameaças que sofrerá no futuro.
* A primeira é a ameaça ecológica.
O agronegócio não sobreviverá às mudanças climáticas que ele ajuda a provocar.
- A destruição das florestas fatalmente afetará a produção da agricultura local,
- por isso a necessidade de regras para conservar as matas é indispensável para o agronegócio.
Além disso, os impactos do desflorestamento afetam o clima em escala planetária, provocando consequências desestabilizadoras de todo o sistema agrícola: o agronegócio brasileiro não ficará imune.
- Muitos produtores, com lógica imediatista, ignorando filhos, netos e o Brasil,
- não veem a conservação florestal como parte da produção agrícola.
- No máximo, limitam as preocupações às matas dentro de sua propriedade.
Há candidatos que não se preocupam com o equilíbrio ecológico, outros que usam a agenda ecológica em oposição à produção agrícola.
Alguns candidatos movidos por preconceitos ideológicos
- consideram o agronegócio como adversário
- porque não fazem as contas para saberem o que aconteceria na economia se não tivéssemos o agro.
Outros não veem qualquer problema ecológico no Brasil,
- dizem que se europeus já queimaram suas florestas no passado,
- temos direito de queimar as nossas, agora, no século 21.
Precisamos salvar o agronegócio, trazendo-o para o longo prazo, mesmo que isso exija sacrifícios no imediato.
O novo governo
- deve ser defensor das florestas do mundo, inclusive da Amazônia, para salvar o agronegócio,
- negociando com empresários para convencê-los a defender os interesses nacionais no longo prazo.
- Propondo uma governança mundial para todas as florestas, inclusive as nossas.
* A segunda ameaça ao agronegócio vem do boicote que se arma no mundo contra a importação de produtos brasileiros.
Ao mesmo tempo que tomará medidas protetoras do meio ambiente,
- o próximo governo tem de ser capaz de usar a diplomacia
- para evitar o desastre que desabará sobre a economia brasileira
- quando, em defesa da saúde da Terra, compradores se negarem a comprar nossos produtos.
A coincidência do terrível verão que os europeus enfrentam com sucessivos recordes de destruição da Amazônia levará, certamente, à pressão para suspensão de compra de nossos produtos.
Há 180 anos,
- por razões morais e econômicas, os ingleses proibiram o tráfico de escravos.
- Inicialmente, nossos escravocratas usaram o conceito de soberania para justificar a continuação do tráfico.
O bom senso prevaleceu e o Brasil fez a própria lei proibindo o tráfico,
- os fazendeiros escravocratas diminuíram lucros,
- mas mantiveram a demanda por açúcar.
Para os europeus de hoje, a queimada da Amazônia é vista como barbárie brasileira, do tipo da escravidão no século 19.
O agronegócio do século 21 precisa lembrar dos escravocratas do final do século 20.
* O terceiro salvamento do agronegócio tem a ver com o óbvio esgotamento dele no médio e longo prazo, devido a mudanças tecnológicas, geopolíticas e ambientais.
Muitos não querem ver, mas aconteceu no passado.
- As riquezas do açúcar e do algodão se esgotaram no Nordeste, quando a produção foi levada para o Caribe e para o sul dos Estados Unidos;
- a imensa riqueza da borracha se esgotou no norte, quando seringueiras foram levadas para a Malásia, e quando a borracha sintética foi inventada.
- São Paulo evitou a debacle do café, graças à preparação para o momento seguinte, da industrialização.
Empresários lúcidos e governantes comprometidos permitiram ao Estado dar o salto para implantar o parque industrial, usando o capital acumulado antes da crise de 1929.
O Centro-Oeste precisa se preparar para o futuro,
- quando a China produzir soja e carne na África, na metade da distância para seus centros consumidores, ou até mesmo na Sibéria Russa, levando produtos de trem para Pequim.
- Ou quando eles forem produzidos sinteticamente.
O próximo governo precisa salvar o agronegócio, preparando-o para os novos tempos da economia do conhecimento.
Assim como foi feito em São Paulo
- ao passar da cafeicultura para a indústria mecânica.
- O Centro-Oeste deve começar sua marcha do agronegócio para a indústria do conhecimento.
Para tanto, o próximo governo precisa
- oferecer condições para, aliados aos empresários, formular um rumo que faça do Centro-Oeste o nosso Vale do Silício:
- investir em educação de base, universidades e centros de pesquisa,
- em uma estratégia para salvar o agronegócio, mesmo depois dele, transformando-o no chipnegócio da economia do futuro.
CRISTOVAM BUARQUE
Professor emérito da UnB e membro da Comissão Internacional da Unesco para o Futuro da Educação. Ex-senador, ex- governador do DF e ex-ministro da Educação.
Fonte: https://www.correiobraziliense.com.br/opiniao/2022/07/5024629-artigo-salvem-o-agro.html