AMÉRICA DO SUL

No Brasil, agora não é momento para divisão no primeiro turno, mas para uma vitória acachapante contra a minoria que está ao lado do golpe.
- Fazendo as urnas silenciarem as armas, não importa o que pense, o que sinta e o que ordene o ministro da Defesa.
- Ele tem direito a um voto, reconhecido pelas regras, com o mesmo valor de qualquer outro brasileiro com mais de 16 anos.
No mesmo dia em que o ministro da Defesa mandou carta ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com a arrogância usual de pessoas armadas, insinuando desconfiança quanto à transparência do processo eleitoral, a democracia boliviana condenou sua ex-presidente a 10 anos de prisão, por ter contestado os resultados eleitorais que reelegeu o presidente Evo Morales.
As pessoas mais velhas lembram que a Bolívia era símbolo da “democracia de banana”:
- seus presidentes constantemente destituídos e substituídos por militares ou civis.
- Houve ano com mais de um presidente no espaço de poucos meses.
- Até que a Bolívia fez sua redemocratização e elegeu o primeiro presidente em 1982.
A partir de então, todos os resultados eram respeitados.
O rigor democrático só ficou sob suspeição quando a eleição de Evo Morales foi contestada devido a uma vantagem mínima sobre seu opositor.
Vale lembrar que Morales fez a primeira interferência dentro do marco legal ao induzir a reforma da Constituição que lhe permitiu reeleições sucessivas,
- cujos resultados apertados levaram ao golpe dado pela presidente do Congresso,
- sucessora legal, agora condenada a 10 anos de prisão, como golpista.
Enquanto isso,
- no Brasil, temos um presidente que, prevendo sua derrota,
- se prepara, com roteiro pronto meses antes, para dar um golpe e continuar no poder, mesmo depois de derrotado.
Sua arrogância e estupidez permitem alertar para o que está preparado:
- levantar suspeita sobre a apuração com urnas eletrônicas;
- ter a justificativa pronta para alegar que houve fraude.
A partir daí, pode usar diversos caminhos,
- um deles seria mobilizar os congressistas, inclusive os que também foram derrotados, para reconhecerem fraude e prorrogarem todos os mandatos de deputados, senadores, governadores, presidente até 2024.
- Hoje, isso ainda é uma ficção, fantasia, tanto quanto seria imaginar a tentativa de golpe do Trump.
Não seriam disparados tiros, o Congresso funcionaria com a maioria do centrão e outras forças,
- tudo isso garantido pelas Forças Armadas, cuja tradição se presta a esse tipo de intervenção.
- Faz parte da formação de muitos dos nossos militares separar patriotismo de democracia e não ter pelos civis o respeito de cidadãos do mesmo nível.
Ex-Presidente Jeanine Anés da Bolívia. Ela ajudou a dar o golpe: agora está presa
No Brasil, agora não é momento para divisão no primeiro turno, mas para uma vitória acachapante contra a minoria que está ao lado do golpe.
- Fazendo as urnas silenciarem as armas, não importa o que pense, o que sinta e o que ordene o ministro da Defesa.
- Ele tem direito a um voto, reconhecido pelas regras, com o mesmo valor de qualquer outro brasileiro com mais de 16 anos.
- a lição da Bolívia é tão importante ao condenar a ex-presidente Jeanine Anès.
- Também a lição que vem do Congresso americano, que apura a tentativa de golpe por Trump, em janeiro do ano passado.
- Golpe que serve de receituário para Bolsonaro.
Com a diferença de que nossas Forças Armadas não têm a tradição democrática e respeitosa das instituições e do poder civil que têm as dos Estados Unidos.
O presidente, os comandantes militares e parlamentares civis
- precisam perceber que desta vez não haverá anistia para os crimes de desobediência à ordem democrática.
- Eles terminarão presos, talvez anos depois do golpe, mas certamente não haverá esquecimento.

O livro Por que falhamos: O Brasil de 1992 a 2018
- coloca a falta de julgamento dos crimes contra a democracia e a liberdade, em 1964,
- como uma das causas de o Bolsonaro ter sido eleito por 56 milhões de eleitores.
Votos que ele realmente teve, sem fraudes, mas que não teria se os crimes da ditadura tivessem sido julgados.
- Os democratas brasileiros também precisam considerar que o presidente, seus ministros e as Forças Armadas
- estão avisando o que vão fazer: denunciar fraude e não reconhecer a derrota do Bolsonaro.
Por isso, desde já, os democratas devem agir com a única arma que têm:
- o apoio da população ao trabalho do TSE com as respeitadas urnas eletrônicas, apurando a vontade manifestada pelo povo, no voto.
- Explicitar esse apoio democrata transformando a eleição em um plebiscito do tipo feito no Chile, décadas atrás, para acabar com o regime militar de Pinochet.
Todas as forças políticas chilenas, apesar de suas divergências, estiveram unidas pelo “NO” à continuação do golpe militar.
No Brasil, agora não é momento para divisão no primeiro turno, mas para uma vitória acachapante contra a minoria que está ao lado do golpe.
- Fazendo as urnas silenciarem as armas, não importa o que pense, o que sinta e o que ordene o ministro da Defesa.
- Ele tem direito a um voto, reconhecido pelas regras, com o mesmo valor de qualquer outro brasileiro com mais de 16 anos.
A força dessa unidade é a melhor defesa da vontade democrata contra a força dos autoritários, dos quais, temos de reconhecer, temos recebido sucessivos alertas, com a sinceridade dos arrogantes e dos despudorados portadores de armas diante de desarmados acovardados.
Cristovam Buarque
Professor emérito e ex-Reitor da UnB, membro da Comissão Internacional da Unesco para o Futuro da Educação e Ex Governador e Senador
Fonte: https://www.correiobraziliense.com.br/opiniao/2022/06/5015125-analise-a-licao-da-bolivia.html