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Rosa Pedroso Lima – 5 junho 2022
Uma nova e corajosa Constituição para a Cúria Romana – Imagem: Reprodução
Francisco escolheu o Dia de Pentecostes para marcar o arranque da nova Constituição do Vaticano Praedicate Evangelium e, com ela, faz a mais profunda reforma da Cúria romana.
“Evangelizar e Renovar” são as duas palavras de ordem. A saída de vários cardeais de cena é mais do que certa e o Papa abre a porta aos leigos – e às mulheres – para que possam assumir o controlo de postos chave da Igreja.
A partir deste domingo, o Vaticano tem, oficialmente uma nova Constituição.
Chama-se “Praedicate evangelium”, (pregai o Evangelho) e revoga as normas inscritas no “Pastor Bonus” (Bom Pastor), concluído em 1988, pelo então Papa, João Paulo II.
A mudança de títulos, só por si, espelha bem o sentido da reforma que Francisco quer levar a cabo:
- mais do que centrada em si mesma, o Papa quer uma Igreja virada para fora e capaz de cumprir a sua missão evangélica.
- Não hesita em acabar com o “carreirismo”, como ele próprio o designa,
- limitando os anos de mandato em cada cargo, reduzindo o número de organismos de chefia na Igreja
- e abrindo ainda a porta a leigos – e a mulheres – para chegarem ao topo da hierarquia vaticana.
A revolução chegou a Roma, depois de nove anos de pontificado de Francisco e de outros tantos anos de trabalho da equipa especial nomeada pelo Papa para proceder à reforma da Cúria.
O diagnóstico foi feito, logo à sua chegada a Roma,
- quando perante bispos e cardeais, Francisco fez questão de enunciar os 15 pecados, ou doenças graves, que atingiam o coração da Igreja católica.
- Do “Alzheimer espiritual” ao “terrorismo dos mexericos”, passando pelo “exibicionismo”, a “burocracia” ou a “graxa aos chefes”,
- o Papa não poupou palavras para mostrar o estado de choque em que ficou perante as primeiras impressões que a Cúria lhe causou.
Agora, com a nova Constituição na mão, o organigrama da Cúria romana passa a ser composto
- pela Secretaria de Estado,
- 16 dicastérios,
- 3 tribunais
- e ainda os organismos económicos e restantes institutos da Igreja.

Imagem: Vem, Espírito Santo, renova a tua Igreja e confirma-a na pureza do Evangelho que nos convida à Unidade, ao Amor e ao Serviço / Reprodução
O Papa deixa claro, logo no preâmbulo, que a estrutura da Igreja, não pode ser vista como um centro de poder.
“A Cúria Romana não se coloca entre o Papa e os bispos, mas ao serviço de ambos”, diz Francisco, para quem
“todos os cristãos, em virtude do Batismo, são discípulos-missionários”, razão suficiente para que a reforma da Igreja
“deva incluir o envolvimento de leigas e leigos, também em papéis de Governo e responsabilidade”.
Como sinal dos tempos de mudança,
- o primeiro Dicastério (designação que agrega as antigas Congregações e os Conselhos Pontifícios) passa a ser o da Evangelização, que será presidido pelo próprio Papa Francisco.
- Em segundo lugar na lista hierárquica surge o Dicastério da Doutrina da Fé – que integra a Comissão de Protecção de Menores com a sua própria estrutura dirigente, num sinal claro da importância dada por Francisco ao combate à questão dos abusos.
Gigantesca dança de cadeiras
Francisco quer reformar a Igreja e fazer da evangelização o “primeiro serviço que pode prestar a cada pessoa e a toda a humanidade no mundo de hoje”.
Uma tarefa, que melhor do que ninguém, o Papa sabe que não pode ser feita apenas por decreto.
E, menos ainda, será possível fazer uma revolução com uma Cúria desconfiada do caminho proposto e acomodada, há décadas (senão séculos) ao conforto instalado entre as luxuosas quatro paredes da Santa Sé.
Mas, para isso, também a nova Constituição tem solução.
Por decreto,
- fica agora estabelecido um prazo limite de cinco anos de mandato para cada alto cargo no Vaticano (renovável apenas uma vez)
- o que serve para travar a possibilidade de uma má escolha se perpetuar para além do desejável.
- Isto, conjugado com o limite dos 75 anos para o exercício de cargos de cardeais e arcebispos, permite um refrescamento inédito na história da Cúria.
Nos próximos tempos, é de prever uma gigantesca dança de cadeiras entre os principais organismos do Vaticano.
- Francisco tem agora carta branca, por exemplo, para renovar mais de dois terços dos mais altos responsáveis das atuais Congregações.
- Isto porque, seis dos atuais nove prefeitos têm mais de 75 anos e por isso têm todo o enquadramento legal para poderem vir a ser substituídos.
São eles
- o cardeal canadiano Marc Ouellet (Congregação para os bispos),
- o argentino Leonardo Saudi (Igrejas Orientais),
- os italianos Beniamino Stella (Clero) e Giuseppi Versaldi (Educação Católica),
- o espanhol, Luis Ladaria (Doutrina da Fé) e o brasileiro João Braz de Aviz (Institutos Religiosos).
A juntar-se a este núcleo pode ainda o Papa retirar Robert Sarah, o cardeal guineense que dirige a Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos que, apesar de não ter atingido o limite de idade, está há mais de cinco anos no cargo.
Sarah é um dos cardeais que mais se tem destacado entre o grupo de conservadores do Vaticano e tem, assumidamente, manifestado o seu desagrado por muitas das tentativas de reforma do Papa Francisco.
Os dados estão lançados.
Francisco tem agora o instrumento legal para concluir a sua reforma da Cúria, assim como os meios para limpar as teias de aranha do governo do Vaticano. A sua revolução começa agora.
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Rosa Pedroso
Fonte: https://expresso.pt/sociedade/2022-06-05-Vaticano-a-revolucao-entra-hoje-em-vigor-b9e20c07
