O envelhecimento global ameaça dar uma virada na economia

 Un anciano con mascarilla hacía ejercicio en un parque de Hong Kong (China), el 6 de mayo.

ÁLVARO SANCHEZ – Madri – 29 DE MAIO DE 2022

Foto: um idoso de máscara fazia exercício em um parque de Hong Kong (China), em 6 de maio. VERNON YUEN (GETTY)

A maior longevidade e a queda dos nascimentos são uma tendência imparável que significará mais gastos com saúde, pensões ou dependência. Os especialistas prevêem mais impostos e uma nova forma de consumir

 

A China demorou 35 anos para abolir por completo a política do filho único (fez isso em 2015). E só mais seis para aumentar de dois para três  o número de filhos permitidos por casal.

Emmanuel Macron manteve no programa com o qual venceu as eleições francesas o aumento da idade de aposentadoria de 62 para 65 anos, apesar da impopularidade da medida.

A Coreia do Sul, o país com a taxa de fecundidade mais baixa da OCDE, continua a aumentar as ajudas para aqueles que decidem  ser pais, enquanto cada vez mais escolas fecham por falta de alunos.

As três notícias são reações a um mesmo fenômeno: a expectativa de vida está aumentando e os nascimentos não estão sendo rápidos o bastante  para manter intacto o sistema econômico.

 

O debate aparece e desaparece de forma recorrente.

  • A humanidade  enfrentou, nos últimos dois anos, ameaças suficientemente importantes – uma pandemia sem precedentes em um século, uma guerra iniciada por uma potência nuclear às portas da Europa –
  • para que as questões imediatas silenciem os debates de longo alcance, pelo menos fora do restrito mundo acadêmico.

Mas no caso da resposta à mudança demográfica, a inevitável passagem do tempo parece fadada a trazê-la à tona mais cedo ou mais tarde:

  • de acordo com a Organização Mundial da Saúde, entre 2020 e 2030 a porcentagem de habitantes do planeta com mais de 60 anos aumentará uns 34%,
  • e se o seu número acaba de superar o de menores de cinco anos, em 2050 ultrapassará o de adolescentes e de jovens entre 15 e 24 anos.

 

Há muitos outros dados, mas todos dizem algo parecido: nascem menos crianças e vivemos mais anos. Que consequências se podem esperar disso?

O economista Javier Santacruz, autor de vários estudos sobre o impacto demográfico, cita três efeitos:

  • um menor crescimento do PIB devido ao fato de que a queda da natalidade reduzirá a demanda — mercados pujantes como o da China podem tornar-se mais  pequenos;
  • —problemas para sustentar a estrutura de gastos públicos em áreas como as pensões, a saúde e a educação,  havendo menos contribuintes no sistema e mais pessoas dependentes,
  • e um certo desequilíbrio na maneira em que se extraem as matérias-primas.

“As sociedades mais envelhecidas são menos propensas a olhar para o futuro, de modo que exploram de maneira menos cuidadosa os recursos naturais”, afirma.

 

José García Montalvo, professor de Economia da Universidade Pompeu Fabra, ousa esboçar alguns traços do cenário que está por vir.

“A troca de elementos vai produzir desequilíbrios. A começar pelo fato de que o comportamento dos jovens e das pessoas de meia-idade é muito diferente do dos mais velhos: os primeiros poupam e os segundos gastam o que pouparam”.

 

O fato de os idosos às vezes gastarem mais do que ganham não significa que haverá um boom no consumo. Talvez até pelo contrário, pois nessas idades também diminui o pagamento recebido.

Segundo um estudo do BBVA Research1 baseado em gastos com cartões e valores sacados do banco, os clientes com maior nível de consumo são os que têm entre 35 e 64 anos.

 

No emprego, García Montalvo vê um panorama difuso.

Não se sabe

  • até que ponto a robotização tornará as empresas menos dependentes da mão de obra,
  • embora economias como a da  Espanha, mais focadas em serviços, possam continuar a precisar mais do fator humano do que outras.

 

No nível fiscal, Montalvo prevê que serão cobrados  mais impostos para financiar os crescentes gastos públicos.

“Os impostos eram bastante altos na década de 1950, e começam a baixar a partir daí com o baby boom entrando no mercado de trabalho, o que gerou uma enorme força de poupança.  Agora temos esse boom   ao contrário”, adverte.

 

Isso também tem uma derivação política.

  • Se agora baixar as pensões ou congelá-las já comporta um desgaste eleitoral para os governos,
  • ousarão eles fazê-lo quando essas medidas afetarem uma porcentagem ainda maior da população?
  • Haverá uma reação dos jovens para protestar devido  à desvantagem comparativa de que as crises recaiam com mais força  sobre os seus ombros?

 

Para María Jesús Valdemoros, professora do IESE, o perigo está aí.

“É um tema de que raramente se fala. Podem ocorrer tensões geracionais. As estatísticas mostram que as pensões recebidas são superiores aos salários dos que ingressam no mercado de trabalho. Será preciso gerenciá-lo”, diz.

El envejecimiento mundial amenaza con dar un vuelco a la economía | Economía | EL PAÍS

Uma mulher vota nas eleições para a Comunidade de Madrid em maio de 2021. – JESUS ​​HELLIN (EUROPA PRESS)

O lado bom

Há quem faça uma leitura positiva da tendência ao envelhecimento:

  • em primeiro lugar, porque prolongar a vida é em si um sucesso da medicina
  • que permite desfrutar da companhia dos entes queridos por mais tempo.

Mas a argumentação é mais ampla.

 

Empty Planet by Darrell Bricker and John Ibbitson

 

Foto: Reprodução

Como os canadenses John Ibbitson e Darrell Bricker explicam em seu livro The Empty Planet (O planeta vazio),

o crescimento populacional mais lento

  • pode levar a menos  trabalhadores compartilhando uma torta salarial mais alta,
  • retardar a degradação ambiental, reduzir o risco de fomes
  • e facilitar uma maior autonomia das mulheres — ainda mais amarradas que os homens às obrigações de cuidar dos menores— para empreender os seus próprios projetos profissionais.

Por correio eletrônico Bricker faz alusão ao outro lado da moeda.

  • “O maior desafio econômico do envelhecimento e da redução da população é o consumo, não a produção.
  • Os idosos não consomem tanto como os jovens. E o seu consumo em declínio não pode ser substituído por um robô. Robôs não compram casas, nem alimentos nem automóveis.
  • É por isso que o envelhecimento e a redução da população estão levando o mundo a um período prolongado de estagnação econômica”.

 

Elon Musk, o homem mais rico do mundo, também comentou o assunto nesta semana. E as suas previsões são ainda piores:

“O colapso da população é a maior ameaça que a civilização enfrenta”, disse ele na quarta-feira.

 

Pau Miret, sociólogo do Centro de Estudos Demográficos, com sede em Barcelona, ​​nega qualquer alarmismo.

Lembra que

  • os nascimentos em nível global ainda estão acima da taxa de reposição (nascem 2,4 filhos por mulher).
  • E o envelhecimento, sendo em parte uma consequência do aumento da longevidade,
  • não deve ser tratado como um problema, mas simplesmente como uma mudança com que é preciso lidar sem dramatizar.

Não faltam exemplos de atitudes pouco compreensivas com a nova dinâmica.

Miret relembra a polêmica causada em 2013 pelas palavras do então ministro das Finanças do Japão, Taro Aso, quando disse que

  • os idosos deveriam “se apressar e morrer”
  • para aliviar os gastos do Estado com assistência médica.

 

O discurso deste especialista é o oposto:

  • ele insiste que a chamada silver economy – economia de prata ou das cãs –
  • oferece oportunidades suculentas de negócios.

E até defende que

  • da queda da natalidade se pode extrair um bônus demográfico
  • se for aproveitada, por exemplo, para facilitar que as turmas escolares tenham uma ratio menor de alunos, sem massificações.

Aposentadorias progressivas?

 Valdemoros, do IESE, concorda que a economia pode ser nutrida por novas fontes de crescimento.

“Haverá muitos setores que se destacarão: serviços personalizados, domótica2, tecnologia para a autonomia, alimentação, vida saudável, turismo, saúde…”, enumera.

A professora, no entanto, avisa que,

  • se em 2019  um em cada cinco espanhóis tinha 65 anos ou mais,
  • em 2050 será um em cada três.
  • Por isso acredita que o conceito de velhice deve ser revisto para torná-lo mais flexível.

“Os japoneses, que estão um pouco à nossa frente nisto, não situam o envelhecimento em um limite fixo de idade como nós fazemos.

O deles é muito mais móvel conforme muda a esperança de vida, e falam de pré-idosos, idosos e super-idosos”, relata.

 

Valdemoros pede imaginação ao conceber políticas que abordem a relação entre envelhecer e trabalhar.

“Devemos questionar os esquemas tradicionais que nos levam a passar de repente de oito horas por dia, trabalhando,  para zero, talvez por meio de aposentadorias progressivas”, propõe.

 

Para Miret, a idade também não é a escala ideal. Ele acredita que

  • os idosos de hoje têm uma capacidade física semelhante à dos 10 anos mais jovens até há pouco tempo,
  • então o envelhecimento demográfico não precisa ser também social.

“O ponto de vista capitalista é muito focado no mercado de trabalho, mas isso não significa que estas pessoas estejam esgotadas na hora de se aposentar.”

 

A par de uma maior longevidade – a esperança de vida ao nascer passará de 72,6 anos em 2019 para 77,1 anos em 2050, segundo as Nações Unidas – a taxa de natalidade é o outro pilar que pode abalar as bases do atual edifício demográfico.

Essa mesma instituição calcula que

  • o número de filhos por mulher passou de 3,2 nascidos em 1990 para 2,5 em 2019.
  • E vai aprofundar essa tendência para 2,2 em 2050 e 1,9 em 2100.

Para Montalvo, o que antes era um fenômeno associado apenas aos países desenvolvidos, agora está se estendendo para o resto.

“Nos países pobres e emergentes, a transição demográfica está sendo muito mais rápida. É um contágio brutal”, afirma.

 

No contexto europeu, a Espanha é um dos países onde esta tendência é mais acentuada. Um estudo publicado por The Lancet diz que

  • a população espanhola será de 23 milhões de habitantes em 2100, metade do que é agora,
  • se não houver políticas de apoio à imigração.

Segundo dados de Eurostat para 2020, as mulheres espanholas são mães pela primeira vez em média aos 31,2 anos, atrás apenas da Itália (31,4 anos). E a média de filhos por mulher é de 1,19, muito longe da taxa de reposição, e apenas à frente de Malta (1,13  filho).

Em sua vertente mais geopolítica, a angústia demográfica é um fato.

Líderes como o húngaro Viktor Orbán e o russo Vladimir Putin, munidos  por um discurso nacionalista, referem-se frequentemente ao assunto.

“O destino da Rússia e as suas perspectivas históricas dependem de quantos sejamos”,

afirmou Putin em janeiro de 2020, semanas antes de o parlamento russo aprovar cheques bebê para promover  os nascimentos.

O motor será a África

Há áreas do planeta, como a África Subsaariana, onde o crescimento populacional continua a ser explosivo.

  • A Nigéria será o terceiro maior país do mundo em 2050, com cerca de 400 milhões de habitantes, mais que os Estados Unidos.
  • Na dianteira, a Índia ultrapassará a China nesta mesma década.
  • Os países que ainda estão crescendo ainda preenchem a lacuna dos que não o fazem.

As Nações Unidas prevêem que

  • a população mundial chegará a 8.500 milhões de habitantes em 2030,
  • a 9.700 milhões em 2050
  • e a 11.200 milhões em 2100.

Bem acima dos atuais quase 8.000 milhões.

O avanço será muito pontual. Das oito regiões em que se divide o planeta, apenas na África subsaariana se prevê que mantenha uma alta taxa de crescimento populacional até o final do século.

No entanto, mesmo nesta região, está aumentando fortemente o uso de contraceptivos – de 13% das mulheres que os usavam em 1990 passou-se para 29% em 2019. E ainda há muita margem para que o seu uso se estenda mais, o que resultará em taxas de natalidade menores.

 

A especialista em políticas demográficas Jennifer Sciubba, que acaba de publicar 8 billion and counting3 — [oito bilhões e contando, (sem tradução para o português)] —, lembra a este jornal a drástica mudança que os números deram.

“A cada ano, a fertilidade tende a diminuir em quase todo o planeta. Em 1968, no auge da preocupação com o crescimento populacional e o meio ambiente, havia 127 países onde as mulheres tinham em média cinco ou mais filhos.

Hoje existem só oito países com uma fecundidade tão alta. Contudo, a sua diminuição é nova em muitos países de baixa renda, razão por que ainda têm populações jovens e em crescimento.

Estes países enfrentam desafios na educação e na geração de empregos para tantos jovens, mas com as políticas adequadas podem ver dividendos na forma de crescimento econômico”, explica a americana.

 

Ao mesmo tempo, argumenta Sciubba, os países ricos têm populações que envelhecem a um ritmo nunca antes visto na história da humanidade.

“Se se alinhassem todos os habitantes do sul da Europa, do mais novo ao mais velho, a pessoa do meio teria 45 anos: uma das regiões mais envelhecidas do mundo”, destaca.

Na América do Sul, a pessoa do meio teria 32 anos, e na África Ocidental, apenas 18, compara.

 

O êxodo do campo para a cidade em países como a China, onde antes os filhos também eram uma força de trabalho imprescindível para trabalhar a terra,

  • deu lugar a uma sociedade muito mais urbana
  • e, portanto, menos necessitada desses trabalhadores.

O país deixou de ser um motor demográfico para o planeta, e a sua economia pode notá-lo.

Um estudo de David E. Bloom, professor de Economia e Demografia de Harvard, conclui que as autoridades deveriam favorecer que mais pessoas ingressem no mercado de trabalho.

“A  longo prazo, o caminho mais promissor para que a China evite possíveis consequências do envelhecimento da população é mobilizar a parte da sua força de trabalho potencial que está ociosa ou sub-utilizada”.

 

Entre as políticas, válidas para qualquer país, que Bloom considera eficazes para mitigar o impacto econômico do envelhecimento, ele cita

  • aumentar a idade de aposentadoria,
  • estimular a poupança,
  • aumentar a participação das mulheres no mercado de trabalho,
  • abrir as portas à migração
  • e dar mais incentivos ao sistema educacional.

Bricker, o co-autor de ‘O Planeta Vazio’4, alerta que

  • nem todos conseguirão lidar com os altos custos em saúde e  pensões.
  • E ele vislumbra problemas iminentes.

“Até 2030, toda a geração global do baby boom terá 65 anos ou mais. Será incrivelmente caro. Muitos países não terão recursos para fazer frente a isto”.

A Europa se apequena

 Uma olhada aos números totais ajuda a ter uma ideia da magnitude da mudança que está por vir.

Segundo a Organização Mundial da Saúde,

  • em 2030, uma em cada seis pessoas no mundo terá 60 anos ou mais.
  • Assim, elas passarão de 1.000 milhões em 2020 para 1.400 milhões apenas 10 anos depois.
  • Em 2050, serão mais que o dobro do que são hoje (2,1 bilhões).

E no caso dos maiores de 80 anos, a ONU projeta que o aumento será ainda maior: eles triplicarão de 143 milhões em 2019 para 426 milhões em 2050.

 

Boa parte deles residirá na Europa, um continente envelhecido que teme ficar diluído num planeta onde sua cota demográfica é cada vez menor.

Em Bruxelas, onde a visão de longo prazo é mais comum por não sofrer a pressão dos ciclos eleitorais, faz anos que o assunto preocupa.

É possível continuar a ser relevante num mundo em que os teus cidadãos são uma pequena minoria? Num discurso em 2016, o então presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, expressou assim o risco de cair na insignificância.

“A Europa está ficando menor. Representamos apenas 8% da população mundial quando no início do século XX representávamos 20%. E em 2050 seremos 5% — 5% de 10 bilhões de pessoas. Nossa demografia traz a sua própria disrupção.”

https://elpais.com/economia/2022-05-29/el-envejecimiento-mundial-amenaza-con-dar-un-vuelco-a-la-economia.html

 NOTAS:

 1  O departamento [do BBVA] anteriormente conhecido como Departamento de Estudos foi criado em 1932. Atualmente é chefiado por Jorge Sicilia, Economista-Chefe do Grupo BBVA. A sua missão é estimular o debate público e promover o conhecimento da sociedade sobre temas como a banca, a economia digital e a geoestratégia.

Como um conhecido e respeitado fornecedor de pesquisas e análises econômicas em vários países das Américas, Europa e Ásia, o BBVA Research prepara relatórios e previsões com base nas informações de sua equipe de mais de 100 analistas espalhados por dez países.

Domótica (do francês Domotique, da junção Domus “casa” com Immotique “automático”) é o termo usado para caracterizar a integração dos mecanismos automáticos de um espaço residencial, simplificando o quotidiano das pessoas, satisfazendo necessidades de comunicação, de conforto e segurança. O termo surgiu com os primeiros edifícios nos anos 80 na França quando pretendia-se controlar a iluminação, climatização, e segurança, interligando esses elementos.  (https://pt.wikipedia.org/wiki/Domotica)

 8 Billion and Counting: How Sex, Death, and Migration Shape Our World

 

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ÁLVARO SANCHEZ

Fonte: https://elpais.com/economia/2022-05-29/el-envejecimiento-mundial-amenaza-con-dar-un-vuelco-a-la-economia.html

 

 

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