Temos de impedir que seja a Rússia a definir os termos da crise na Ucrânia

Nas últimas semanas, o público ocidental tem estado obcecado com a pergunta “O que se passa na cabeça de Putin”?

Os especialistas ocidentais interrogam-se:

  • será que as pessoas à sua volta lhe dizem toda a verdade?
  • Estará ele doente ou a enlouquecer?
  • Estaremos a empurrá-lo para um canto onde ele não verá outra saída para salvar a sua face a não ser acelerar o conflito para uma guerra total?
  • Devemos analisar a ambiguidade do nosso apoio à Ucrânia com a mesma crueldade com que analisamos a posição da Rússia.
  • Devemos ir além dos dois pesos e duas medidas aplicados hoje aos próprios fundamentos do liberalismo europeu.
  • Recordar como, na tradição liberal ocidental, a colonização era frequentemente justificada em termos dos direitos dos trabalhadores.

John Locke, o grande filósofo do Iluminismo e defensor dos direitos humanos,

  • justificou os colonos brancos que se apoderavam das terras dos nativos americanos
  • com um estranho argumento de esquerda contra o excesso de propriedade privada.

A sua premissa era que

  • um indivíduo só deveria ser autorizado a possuir tanta terra quanto lhe fosse possível utilizar produtivamente,
  • e não grandes extensões de terra que não fosse capaz de utilizar (e depois, eventualmente, arrendar a outros).

Na América do Norte, na sua visão,

  • os povos indígenas estavam a utilizar vastas extensões de terra principalmente apenas para a caça,
  • e os colonos brancos que queriam utilizá-la para uma agricultura intensa tinham o direito de a confiscar para benefício da humanidade.

Na actual crise da Ucrânia, ambas as partes apresentam os seus actos como algo que simplesmente tinham de fazer:

  • o Ocidente tinha de ajudar a Ucrânia a permanecer livre e independente;
  • a Rússia foi obrigada a intervir militarmente para proteger a sua segurança.

O exemplo mais recente:

  • o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo afirma que a Rússia será “forçada a tomar medidas de retaliação”se a Finlândia se juntar à NATO.
  • Não, não será “forçada”,da mesma forma que a Rússia não foi “forçada”a atacar a Ucrânia.

Esta decisão só parece “forçada”se se aceitar todo o conjunto de pressupostos ideológicos e geopolíticos que sustentam a política russa.

Estes pressupostos têm de ser analisados de perto, sem quaisquer tabus.

Ouve-se frequentemente

  • que devemos traçar uma linha estrita de separação entre a política de Putin e a grande cultura russa,
  • mas esta linha de separação é muito mais porosa do que possa parecer.

Deveríamos rejeitar resolutamente a ideia de que,

  • após anos de tentar pacientemente resolver a crise ucraniana através de negociações,
  • a Rússia foi finalmente forçada/coagida a atacar a Ucrânia — nunca se é forçado a atacar e aniquilar um país inteiro.

As raízes são muito mais profundas; estou pronto a chamá-las devidamente metafísicas.

Foto Reuters -Nunca se é forçado a atacar e aniquilar um país inteiro

 

A Rússia apresenta agora a sua invasão como um novo passo na luta pela descolonização, contra a globalização ocidental. Num texto publicado no início deste mês, Dmitri Medvedev, ex-Presidente da Rússia e agora vice-presidente do Conselho de Segurança da Federação Russa, escreveu que

  • “o mundo está à espera do colapso da ideia de um mundo centrado na América
  • e da emergência de novas alianças internacionais baseadas em critérios pragmáticos”.

(“Critérios pragmáticos significam o desrespeito pelos direitos humanos universais, é claro).

Por isso,

  • devemos também traçar linhas vermelhas, mas de uma forma que torne clara a nossa solidariedade para com os países em desenvolvimento.
  • Medvedev prevê que, devido à guerra na Ucrânia,

“em alguns Estados, a fome pode ocorrer devido à crise alimentar— uma declaração de cinismo de cortar a respiração.

Até Maio de 2022, cerca de

  • 25 milhões de toneladas métricas de cereais estão a apodrecer lentamente em Odessa,
  • em navios ou silos, uma vez que o porto está bloqueado pela marinha russa.

“O Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas (PAM) alertou que milhões de pessoas estão “a caminhar em direcção à fome”,

“a menos que os portos do Sul da Ucrânia que foram encerrados devido à guerra sejam reabertos”,relata a Newsweek.

A Europa promete agora ajudar a Ucrânia a transportar os cereais através da ferrovia e camiões — mas isto não é claramente suficiente. É necessário mais um passo:

  • uma exigência clara de abrir o porto para a exportação de cereais, incluindo o envio de navios militares de protecção para lá.
  • Não se trata da Ucrânia, trata-se da fome de centenas de milhões de pessoas em África e na Ásia.
  • Aqui deve ser traçada a linha vermelha.

O ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, disse recentemente:

“Imagine que [a guerra da Ucrânia] está a acontecer em África, ou no Médio Oriente. Imagine que a Ucrânia é a Palestina. Imagine que a Rússia é os Estados Unidos”.

Como esperado, comparar o conflito na Ucrânia com a situação dos palestinianos

“ofendeu muitos israelitas, que acreditam não haver semelhanças”, observou a Newsweek.

“Por exemplo, muitos salientam que a Ucrânia é um país soberano e democrático, mas não consideram a Palestina como um Estado”.

Claro que a Palestina não é um Estado porque Israel nega o seu direito a ser um Estado — da mesma forma que a Rússia nega o direito da Ucrânia a ser um Estado soberano.

Por mais que eu considere repulsivas as observações de Lavrov, por vezes ele manipula habilmente a verdade.

  • Sim, o Ocidente liberal é hipócrita, aplicando os seus elevados padrões de forma muito selectiva.
  • Mas hipocrisia significa que se viola os padrões que se proclamam,
  • e desta forma sujeita-se à crítica inerente — quando criticamos o Ocidente liberal, usamos os seus próprios padrões.

O que a Rússia oferece é um mundo sem hipocrisia — porque rege-se sem padrões éticos globais, praticando apenas o “respeito” pragmático pelas diferenças.

Vimos claramente o que isto significa quando, após a tomada do poder pelos taliban no Afeganistão, eles fizeram imediatamente um acordo com a China.

  • A China aceita o novo Afeganistão
  • enquanto os taliban ignorarão o que a China está a fazer aos uigures
  • — isto é, em poucas palavras, a nova globalização defendida pela Rússia.

E a única forma de defender o que vale a pena salvar na nossa tradição liberal é insistir impiedosamente na sua universalidade.

No momento em que aplicamos dois pesos e duas medidas, não somos menos “pragmáticos” do que a Rússia.

 

é um filósofo cultural. É investigador no Instituto de Sociologia e Filosofia da Universidade de Ljubljana e director internacional do Instituto de Humanidades de Birkbeck, na Universidade de Londres. O artigo foi originalmente publicado pelo diário britânico The Guardian e cedido ao PÚBLICO pelo autor

Fonte:  https://www.publico.pt/2022/05/27/opiniao/opiniao/parar-deixar-russia-definir-termos-crise-ucrania-2007901

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