“No Sudão do Sul, a tribo Dinka é a mais afetada pela escravidão”.

Pró-memoria para a próxima viagem do Papa

Bacio

 por Sandro Magister – 26 de maio 2022 – Foto: Daqui

Com problemas de saúde, o Papa Francisco cancelou a sua viagem ao Líbano. Mas mantém a de 2 a 7 de julho à República Democrática do Congo, com escalas em Kinshasa e Goma, e depois ao Sudão do Sul, com parada em Juba.

 

Quanto seja importante para ele sobretudo  esta última meta confidenciou-o ao receber em 13 de maio a Comissão Internacional Anglicano-Católica, cujos líderes, o arcebispo de Canterbury Justin Welby e o moderador da Igreja da Escócia, acompanharão o Papa na viagem .

  • “Rezemos – disse ele – para que esta peregrinação ecumênica de paz inspire os cristãos do Sudão do Sul e do mundo
  • a serem promotores de reconciliação, tecedores de concórdia, capazes de dizer não à perversa e inútil espiral da violência e das armas.
  • Lembro que este caminho começou anos atrás com um retiro espiritual feito aqui no Vaticano com os líderes do Sudão do Sul”.

 

Muitos se lembram

  • daquele inusitado retiro espiritual, em abril de 2018, dos líderes das duas facções em guerra,
  • concluído pelo papa com um beijo dos pés deles (ver foto).
  • Gesto infelizmente seguido por um novo recrudescimento do conflito entre as respectivas tribos dos Dinka e dos Nuer, ambas de religião católica.

 

De fato, tanto na região oriental do Congo como no Sudão do Sul continuam desde há anos ferozes guerras tribais, com centenas de milhares de vítimas.

A poucos quilômetros de Goma, para onde Francisco se deslocará,

  • foi morto o embaixador italiano no Congo, Luca Attanasio, em 22 de fevereiro de 2021.
  • E no dia 25 de abril seguinte, em Rumbek, no Sudão do Sul, o recém-nomeado bispo da cidade, o missionário italiano Christian Carlassare,
  • foi atacado com armas de fogo, pelo padre e coordenador diocesano John Mathiang – posteriormente preso e condenado – e por um grupo de leigos com cargos na diocese,
  • todos indignados por o novo bispo não pertencer à sua tribo.

 

Carlassare, embora não totalmente recuperado dos seus graves ferimentos,

  • anunciou que irá a pé de Rumbek até Juba para se encontrar com o papa,
  • com dias e dias de caminhada, junto com uma centena de jovens da sua diocese,
  • na lama da estação chuvosa e por estradas muitas vezes inseguras devido aos confrontos armados.

 

Portanto é a paz indiscutivelmente a meta  ideal da viagem de Francisco a estes dois países africanos.

Mas não está excluído que o papa dedique igual atenção a outra praga, a escravidão, que nas suas formas modernas se espalha de forma consistente precisamente no Congo e no Sudão do Sul.

 

Nestes dias, na revista “Vita e Pensiero” da Universidade Católica de Milão, foi  publicado um artigo de uma especialista, Beatrice Nicolini, professora de história da África e de relações internacionais, que

  • depois de resumir a história da escravidão no continente negro, com seus extremos mais cruéis no Congo sob o domínio colonial da Bélgica,
  • mostra o quanto esta praga causa estragos ainda hoje, com suas maiores vítimas entre as mulheres e as crianças.

A parte final do seu ensaio, dedicada à atualidade e com particular atenção ao Congo e ao Sudão do Sul, é reproduzida abaixo.

 

Mas é útil também notar que na semana passada

  • Francisco se reuniu e deu o seu apoio ao  Santa Marta Group, fundado em 2014 e presidido pelo cardeal e arcebispo de Westminster Vincent Nichols,
  • que reuniu no Vaticano durante três dias chefes de polícia, organizações governamentais e especialistas de diversos países
  • com o objetivo de fortalecer o combate às formas modernas de escravidão.

 

*

 

ESCRAVIDÃO E SERVIDÃO NA ÁFRICA: FERIDAS ABERTAS

 

por Beatrice Nicolini – “Vita e Pensiero”, março-abril de 2022

 

Conflitos e economias ainda são hoje a principal causa  de difusão da escravidão no mundo. A mudança da escravidão para o escravismo e para o “tráfico humano” leva à identificação de algumas macro-áreas na África, os novos percursos, onde tais discriminações e violências são praticadas e amplamente difundidas, ainda que incluídas nas sociedades locais.

 

A primeira é a África Mediterrânea, onde numerosos representantes governamentais participam, inclusive ativamente, do comércio e da exploração de seres humanos.

 

Mais ao sul, o Sudão e a Mauritânia são países onde frequentes conflitos e golpes de estado levaram centenas de milhares de pessoas, principalmente de grupos não-brancos e não-muçulmanos, a condições de escravidão.

Só na Mauritânia, cerca de um milhão de escravos são propriedade dos patrões e constituem o dote nos contratos matrimoniais (a Mauritânia decretou a abolição da escravatura em 1981 mas foi só em 2015 que a legislação foi adequada).

 

Em Madhol, no Sudão do Sul, na década de 1990 um mercador árabe vendeu 132 escravos, homens, mulheres e crianças, por um total de 13.200 pagos dólares americanos pagos por um membro de uma organização internacional de solidariedade cristã. Na região, ainda hoje é possível comprar uma criança da família de origem e revendê-la com ganhos razoáveis.

E é exatamente no Sudão do Sul que o grupo dos Dinka é o mais atingido pelo tráfico de seres humanos. A maioria dos ataques visa à aquisição de meninos e meninas para a exploração militar e sexual pelas milícias rebeldes.

  • Essa prática ocorre na zona sul do país,
  • na fronteira com Uganda, Quênia e Etiópia,
  • uma área tradicionalmente negra e não muçulmana.

 

Na África Ocidental,

  • no Senegal, a UNICEF estimou que cerca de 20.000 crianças com idades entre nove e doze anos são escravizadas todos os anos.
  • Na Libéria, o fenômeno da exploração infantil continua.

 

Na África Oriental, no Chifre da África,

muitas crianças são compradas por países árabes para as corridas de camelo e muitas jovens mulheres como amantes “exóticas”.

Aqui as mulheres africanas são consideradas entre as mais belas do mundo e são conhecidas pela sua “doçura”, sendo muito desejadas pelos árabes e pelos ricos centro-asiáticos.

  • Uma africana atraente pode valer até 10 mil dólares americanos:
  • é drogada e usada para fins sexuais,
  • e geralmente a sua vida nessas condições não dura mais de dois anos.

 

As crianças-cadáveres escravizadas nas minas de coltan do Congo

As criança escravizadas nas minas de coltan do Congo / Aleteia

 

Na África equatorial, a servidão é encontrada nas plantações e minas da República Democrática do Congo e nos Estados vizinhos.

No norte de Uganda, tenta-se levar, à noite, o maior número possível de crianças para hospitais e locais protegidos por homens armados para que não sejam sequestradas para se tornarem crianças-soldados.

 

A doutora Colette Kitoga (licenciada pela Universidade Católica – Policlínica “Gemelli” de Roma), diretora do “Mater Misericordiae”, centro de reabilitação de crianças-soldado em Bukavu, na República Democrática do Congo,

  • diz que “seus” meninos – mais de 3.000 desde 1997, quando o centro foi criado, até hoje –
  • nunca erguem os olhos: estão convencidos de que assim, se por acaso assistirem a um homicídio ou a violências,
  • não serão acusados ​​e perseguidos como testemunhas inconvenientes.

 

Na Tanzânia, a exploração de menores envolve as minas de diamantes, de coltan – mineral essencial para os componentes de computadores e de telefones celulares – e de tanzanita. 

Esta última é uma gema semi-preciosa, de cor azul-violeta intensa e muito brilhante, única em todo o mundo e muito procurada.

  • A tanzanita foi descoberta pelos Masai no Quênia
  • e o seu valor hoje é equiparado ao dos diamantes;
  • estas pedras são encontradas perto do Monte Kilimanjaro e as crianças escavam o dia todo com as suas mãozinhas.

Têm de descer a uma profundidade de trezentos metros com sistemas de ventilação deficientes. Nesses túneis estreitos, as crianças podem se movimentar melhor e os pais incentivam os seus filhos a trabalhar nas minas porque não há escolas perto dos centros de mineração.

 

Nas minas da África do Sul, muitos trabalhadores só podem ver as suas famílias uma vez por ano. As condições de isolamento e alienação conduzem inevitavelmente à proliferação de fenômenos como o alcoolismo, a  tóxico-dependência e a exposição a doenças de alto risco, como a tuberculose e a SIDA.

O fenômeno da migração para os principais centros mineiros da África do Sul de trabalhadores de Moçambique, Zimbábue, Botswana e Lesoto muitas vezes também provoca surtos de rivalidade entre os grupos.

Para os mineiros que morrem no trabalho, estaria prevista uma pensão para as viúvas, mas muito poucas conseguem obtê-la devido a dificuldades burocráticas intransponíveis – no caso de Moçambique é preciso uma autorização de residência na África do Sul – logísticas e econômicas.

 

Nos últimos quinze anos, mais de 10.000 mineiros moçambicanos morreram na África do Sul.

O fim do apartheid desencadeou pequenos, mas significativos, projetos de construção de pequenas casas próximas às minas para as famílias dos trabalhadores, justamente para reduzir a taxa de mortalidade por AIDS e tornar as condições de vida destes últimos menos duras.

É verdade que na África austral as condições sócio-políticas são diferentes das de outras áreas do continente; o exemplo da África do Sul tem contribuído para a cobertura pela mídia de casos dramáticos e, em alguns casos, para a sua consequente redução.

 

 

Settimo Cielo

 

Sandro Magister

http://magister.blogautore.espresso.repubblica.it/

 

 

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