
“Uma Cúria Romana sinodal, marcada pela reciprocidade e pela participação, impulsionada pelo Espírito para a missão, dedicada ao serviço, segundo o modelo dos Atos dos Apóstolos? Não seria um milagre? Esse pensamento pode ter ocorrido ao Papa Francisco, pois a nova constituição entra em vigor no dia 5 de junho, solenidade de Pentecostes”.
O comentário é de Austen Ivereigh, escritor e jornalista britânico e pesquisador em História da Igreja Contemporânea no Campion Hall, na Universidade de Oxford. Seu livro mais recente é “Vamos sonhar juntos: o caminho para um futuro melhor” (Ed. Intrínseca, 2020), uma entrevista com o Papa Francisco. O artigo foi publicado por Commonweal, 27-04-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
Muitos de nós que estamos interessados na reforma do órgão central de governo da Igreja fomos enganados: disseram-nos que a nova constituição da Cúria Romana conteria poucas surpresas.
Sabíamos que
- ela se chamaria Praedicate Evangelium (“Preguem o Evangelho”),
- e que a sua ideia unificadora, tirada da Evangelii gaudium,
- seria tornar a Igreja apta para a evangelização do mundo (secular) de hoje, e não para a sua autopreservação em uma cristandade que desapareceu.
Sabíamos que
- os órgãos vaticanos não seriam mais divididos em ovelhas e cabras – “congregações” superiores com influência jurídica e “conselhos” inferiores para produzir relatórios que ninguém lê –,
- mas seriam classificados como “dicastérios”, do grego dikastērion, tribunais.
Também sabíamos de outras coisas:
- que as mulheres e os leigos teriam altos cargos em alguns dos dicastérios,
- que os dicastérios fundiriam departamentos existentes e que toda a operação seria reduzida.
Então, o que haveria de verdadeiramente novo no governo eclesial da Cidade Eterna? Afinal, a reforma estrutural está em processo experimental desde 2015, visível a olho nu. A Praedicate Evangelium, assumimos nós, apenas tornaria “de jure” aquilo que já era “de facto”.
Isso acabou não sendo verdade, mas você não conseguiria adivinhar isso pelo modo como o Vaticano lançou a Praedicate Evangelium, amortecendo o rufar dos tambores.
A primeira nova constituição da Cúria Romana em mais de 30 anos chegou às caixas de entrada em um sábado, sem o habitual aviso, sem comentários e apenas em italiano.
A coletiva de imprensa dois dias depois também parecia destinada a manter as rolhas nas garrafas: três clérigos italianos leram um comentário de 23 páginas, que incluía um relato minucioso da forma
- como a Praedicate Evangelium foi redigida e corrigida durante um período de nove anos, em 40 reuniões do Conselho de Cardeais que aconselham o papa,
- depois enviada aos cardeais e aos chefes da Cúria e a todas as conferências episcopais,
- até finalmente ficar pronta em junho de 2020 – para ser ainda mais modificada pela Congregação para a Doutrina da Fé e pelo Conselho para os Textos Legislativos, que, aliás, em breve serão renomeados.
Uma coisa ficou clara:
- a quinta constituição apostólica sobre a Cúria Romana na história da Igreja
- – depois das de Sisto V em 1588, Pio X em 1908, Paulo VI em 1967 e João Paulo II em 1988 –
- é fruto de um nível exaustivo de consulta, segundo o antigo princípio de que “o que afeta a todos deve ser discutido por todos”.
A Praedicate Evangelium foi construída para durar até a próxima geração.
A verdadeira novidade
Então, o que havia de novo?
A principal manchete era que
- qualquer batizado podia agora chefiar qualquer dicastério,
- “dependendo da sua competência, poder de governo e função”, como afirma o quinto dos “Princípios e Critérios”.
O modo como isso foi noticiado (“Papa permite…”) não era, de fato, novidade:
- o Dicastério para a Comunicação é chefiado por um leigo, Paolo Ruffini, há anos,
- e meia dúzia de mulheres (principalmente religiosas e membros de movimentos) ocupam há muito tempo cargos importantes na Cúria –
- mulheres como Francesca di Giovanna, encarregada das relações da Santa Sé com as Nações Unidas e outros organismos multilaterais.
No entanto, havia algo novo aqui, algo importante, na justificativa desse princípio:
- “qualquer fiel” pode, em princípio, chefiar um dicastério,
- porque a autoridade na Cúria é exercida vicariamente, em nome do papa,
- com poder delegado diretamente por ele.
Ora, é verdade que a constituição de João Paulo II também deixava claro que o poder da Cúria é exercido vicariamente, por meio do poder recebido do papa. Mas a Pastor bonus assumia que esse poder era delegado apenas aos cardeais e bispos, porque, bem, desde 1588 era assim.
Na coletiva de imprensa de lançamento da Praedicate Evangelium, no entanto, o canonista jesuíta Pe. Gianfranco Ghirlanda mostrou que a suposição deveria, no mínimo, ser a oposta.
- Se o poder é o mesmo (vicário, delegado pelo papa) seja ele exercido por um bispo, padre, religioso ou leigo,
- então isso resolve uma longa disputatio eclesiológica – ou seja, se o poder de governo é conferido pelo sacramento da Ordem.
Se fosse, então os leigos não poderiam receber nenhum ofício na Igreja que envolvesse o exercício desse poder.
O Concílio Vaticano II não quis resolver a questão, que foi deixada em aberto no Código de Direito Canônico revisto de 1983. Mas agora, de acordo com Ghirlanda, cujo trabalho foi sobre esse mesmo tema, a Praedicate Evangelium
“confirma que o poder de governo na Igreja não vem do sacramento da Ordem, mas da missão canônica”.
Ouviram isso? Roma falou; a questão está resolvida.
O fato de Ghirlanda ter sido solicitado oficialmente a apresentar a constituição só pode significar que essa implicação mais ampla é aquilo que o papa pretende e é lei.
Nunca o clericalismo recebeu um golpe final tão letal.
Dessa e de muitas outras formas,
- a apresentação discreta da Praedicate Evangelium contrastava com a sua importância,
- como o papa, que odeia o triunfalismo, sem dúvida pretendia.
Pois a Praedicate Evangelium destila em lei a essência da reforma de Francisco, mostrando
- não apenas para que serve a Cúria Romana,
- mas também para que serve a Igreja
- – e que forma e cultura ambas devem ter se quiserem praticar com credibilidade o Evangelho que pregam no terceiro milênio.
Mudanças e transformações
Esta, enfim, é a reforma
“desejada vivamente pela maioria dos cardeais no âmbito das congregações gerais antes do conclave” em 2013,
como a Praedicate Evangelium lembra no final de seu preâmbulo.
- A data da publicação da constituição – 19 de março, nono aniversário da missa inaugural do Papa Francisco –
- é um lembrete daqueles dias, quando os cardeais, após a renúncia de Bento XVI, se levantaram um após o outro
- para exortar o próximo papa a transformar uma corte de comparsas disfuncional, voltada para dentro e autoengrandecida em um organismo de serviço a toda a Igreja, eficaz e voltado para fora.
Eles queriam que a Cúria Romana, que passou grande parte de 2011 e 2012 mergulhada em escândalos,
- fosse uma inspiração e um modelo, não um constrangimento;
- que facilitasse ao invés de bloquear as relações entre os bispos e o papa;
- que fosse uma ajuda na evangelização ao invés de um contratestemunho.
Qualquer um que ouviu esses apelos veria imediatamente como a Praedicate Evangelium os aborda especificamente.
Enquanto a constituição Pastor bonus, de São João Paulo II, foi chamada simplesmente de “Constituição Apostólica sobre a Cúria Romana”, a Praedicate Evangelium de Francisco é chamada de “Constituição Apostólica sobre a Cúria Romana e o seu serviço à Igreja no mundo”.
A queixa mais comum — depois das finanças, que ocuparam os primeiros anos da reforma de Francisco —
- era de que a Cúria era uma lei em si mesma, autorreferencial e altiva,
- enfiada entre a Igreja local e o papado.
A Cúria tratava os bispos notoriamente com desprezo,
- como eles constatavam em suas visitas ad limina a Roma (assim chamadas porque a cada cinco anos os bispos de um país fazem uma visita oficial ad limina apostolorum, “ao limiar dos apóstolos”,
- percorrendo os dicastérios e reunindo-se com o papa).
Muitos bispos dizem que
- a atitude foi encorajada pela carta apostólica Apostolos suos, de São João Paulo II em 1988,
- que quase negava qualquer legitimidade às conferências episcopais.
Isso mudou há muito tempo. Os bispos agora estão maravilhados com a sua recepção em Roma com Francisco: as autoridades da Cúria ficam ansiosas para ouvi-los, aprender com eles e ajudá-los.
Em seu preâmbulo, a Praedicate Evangelium
- elogia o papel fundamental das conferências episcopais e dos colegiados regionais,
- pede uma “saudável descentralização” – isto é, uma autonomia regulada pelo princípio da comunhão –
- e diz claramente que a Cúria “não se coloca entre o papa e os bispos, mas se põe a serviço de ambos”.
Refletindo a natureza hierárquica da Igreja, que é primacial e também colegial (os bispos governam “com e sob Pedro”),
- o serviço da Cúria está organicamente ligado aos bispos, assim como o papa;
- e a sua missão é construir laços de governo colegial e de comunhão,
- atuando como um centro nevrálgico para ideias criativas e contatos entre as conferências episcopais.
Seis artigos da Praedicate Evangelium (nn. 38-43) são dedicados às visitas ad limina, dando-lhes grande importância e enfatizando o papel da Cúria em facilitá-las.
Espírito de serviço e missão
Outra reclamação naquelas reuniões dos cardeais em fevereiro e março de 2013 dizia respeito à cultura de trabalho no Vaticano:
- as autoridades da Cúria eram escolhidas a partir de um restrito grupo italiano, que muitas vezes se revelavam obstrucionistas incompetentes,
- mas autoimportantes, propensos ao nepotismo, senão até à corrupção de fato,
- carreiristas e clericalistas espiritualmente secos separados em todos os sentidos do Povo de Deus.
Colocando no papel os anos das reformas de Francisco, o segundo capítulo da Praedicate Evangelium diz que os curiais devem se distinguir
- pela sua vida espiritual, experiência pastoral, sobriedade de vida e amor aos pobres,
- assim como pela sua competência e capacidade de discernimento,
- e que eles devem servir com um espírito de colaboração e corresponsabilidade.
Eles podem ser selecionados entre bispos, clérigos, religiosos e leigos.
O que importa não é o seu estado de vida, mas o seu espírito de serviço e missão.
- Eles devem ser de diferentes culturas para refletir a catolicidade da Igreja
- e retornar às suas dioceses ou congregações religiosas após cinco anos, que podem ser estendidos por até dez.
De acordo com o seu estado de vida, quem trabalha na Cúria
- deve cuidar da “saúde das almas”, além das tarefas de escritório,
- empenhar-se na oração pessoal e comunitária regular
- e realizar o seu trabalho
“com a alegre consciência de serem discípulos-missionários a serviço de todo o Povo de Deus”.
De fato, a função da Cúria Romana não é, antes de mais nada, burocrático-administrativa, mas sim pastoral: como diz o artigo 3 das Normas Gerais, a Cúria desempenha
“um serviço pastoral de apoio à missão do Romano Pontífice e dos bispos nas respectivas responsabilidades para com a Igreja universal”.
Há muitas outras mudanças importantes na Praedicate Evangelium.
- A Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores, por exemplo, agora se enquadra no Dicastério para a Doutrina da Fé,
- resolvendo uma crise de identidade enervante, na qual algumas pessoas tentavam transformá-la em um veículo para responsabilizar o papa perante os grupos de vítimas.
- Isso significava que ela era mantida à distância pela Cúria, enfraquecendo-a.
Agora, ela terá um peso real junto com um grau de autonomia.
Nas finanças,
- há agora uma saudável distância entre os órgãos que as administram
- e aqueles que as responsabilizam
- – e sofisticados mecanismos de supervisão para detectar irregularidades.
Finalmente, toda a operação foi simplificada para evitar inchaço e duplicação. Além da Secretaria de Estado, quatro “órgãos” de justiça, seis de finanças e três escritórios para administrar a casa e as liturgias do papa, a Praedicate Evangelium
- reduziu as 21 congregações e conselhos de João Paulo II para 16 dicastérios juridicamente iguais,
- com responsabilidades claramente distintas,
- ajudando a evitar disputas de território e permitir maior colaboração e corresponsabilidade “interdicasterial”.
Visão da Igreja
Mas a verdadeira força da Praedicate Evangelium – o seu poder evangelizador – está em sua visão da Igreja, extraída da Evangelii gaudium e dos Atos dos Apóstolos.
O preâmbulo nos recorda que o mandato de Cristo de pregar o Evangelho é a primeira tarefa da Igreja, e que ela faz isso testemunhando a misericórdia recebida por meio de atos e palavras de serviço humilde: tocando a carne sofredora de Cristo nos pobres e doentes.
Para possibilitar esse testemunho, a Igreja é chamada a uma conversão missionária, com a qual a reforma da Cúria Romana contribui, harmonizando o trabalho diário do Vaticano com aquele chamado mais amplo para evangelizar que Francisco acredita que Deus está fazendo agora à Igreja.
Daí o novo ranking dos dicastérios.
- Se São João Paulo II colocou a Congregação para a Doutrina da Fé em primeiro lugar,
- Francisco colocou em primeiro lugar o Dicastério para a Evangelização, com ele mesmo à sua frente.
- O Dicastério da Fé vem em segundo lugar, seguido pelo novo Dicastério para o Serviço da Caridade, porque o Evangelho é pregado tanto em palavras quanto em ações.
Os outros dicastérios seguem sem uma ordem particular:
- para as Igrejas Orientais;
- para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos;
- das Causas dos Santos;
- para os Bispos;
- para o Clero;
- para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica;
- para os Leigos, a Família e a Vida;
- para a Promoção da Unidade dos Cristãos;
- para o Diálogo Inter-Religioso;
- para Cultura e a Educação;
- para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral;
- para os Textos Legislativos;
- e para a Comunicação.
A novidade aqui é uma discreta, mas definitiva mudança teológica e eclesiológica.
A Pastor bonus concentrava quase todos os parágrafos da sua introdução no auxílio da Cúria ao papa na sua tarefa de preservar a unidade de fé e a disciplina.
A comunhão, na constituição de São João Paulo II, é idêntica à unidade, descrita como “um tesouro precioso a ser preservado, defendido, protegido e promovido”.
Esse é o ministério primeiro, o telos do Sumo Pontífice e, portanto, da Cúria.
Na Praedicate Evangelium, ao contrário,
- a comunhão não é o objeto dos esforços da Cúria, mas sim a vida possibilitada pela autodoação de Cristo, que a Cúria testemunha pela sua cultura interna.
- A comunhão “doa à Igreja o rosto da sinodalidade: isto é, uma Igreja da escuta recíproca, na qual todos têm algo a aprender.
- Povo fiel, Colégio episcopal, Bispo de Roma: um à escuta dos outros, e todos à escuta do Espírito Santo… para conhecer aquilo que Ele diz às Igrejas”.
Essa diferença importa.
A Cúria
- não é um instrumento de poder pelo qual o papa unifica a Igreja por meio dos seus esforços,
- mas sim um testemunho da comunhão de vida da Igreja possibilitada pelo Espírito Santo.
É uma mudança da confiança no poder humano para a receptividade ao Espírito, de uma Igreja vertical de comando e controle para uma na qual a autoridade é serviço.
É uma Igreja sinodal de escuta mútua e reciprocidade, na qual todos participam, seja qual for o seu estado de vida, sob a orientação do Espírito, segundo o modelo da Igreja primitiva.
Francisco é explícito sobre esse modelo: a finalidade da renovação da Igreja e, portanto, da Cúria Romana é permitir que
“a comunidade dos crentes possa se aproximar o máximo possível da experiência de comunhão missionária vivida pelos Apóstolos com o Senhor durante a sua vida terrena e, depois de Pentecostes, sob a ação do Espírito Santo, pela primeira comunidade de Jerusalém”.
Uma Cúria Romana sinodal, marcada pela reciprocidade e pela participação, impulsionada pelo Espírito para a missão, dedicada ao serviço, segundo o modelo dos Atos? Não seria um milagre?
Esse pensamento pode ter ocorrido ao Papa Francisco, pois a nova constituição entra em vigor no dia 5 de junho, solenidade de Pentecostes.
Talvez naquela data possamos nos permitir abrir algumas garrafas e finalmente deixar os tambores rufarem.

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Austen Ivereigh
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