Esperar o inesperado

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Edgar Morin, o pensador da complexidade, que fez 100 anos em Julho de 2021, continua a ser um dos filósofos e sociólogos mais atentos e merecedores de atenção. Acabou de publicar um novo livro, reflectindo sobre o mundo actual – Réveillons-nous (Despertemos). Sobre ele deu uma entrevista a Jules de Kiss, publicada em Março deste ano em “Franceinfo”.

 

 

As reflexões que se seguem acompanham a entrevista.

A primeira é um apelo à urgência de pensar séria e profundamente sobre o que está a acontecer.

Com Réveillons-nous (acordemos), Edgar Morin não quer simplesmente fazer eco, doze anos depois, ao livro de Stéphane Hessel, Indignez-vous (Indignai-vos): Resposta:“Hessel dizia: Indignai-vos. Ele dirigia-se a pessoas já despertas.

Eu, eu tenho a impressão de que vivenciamos os acontecimentos um pouco como sonâmbulos. Aliás, o que eu vivi, na minha juventude, nos dez anos que precederam a Guerra.

Eu peço que se tente ver e compreender o que se passa.

Caso contrário, sofreremos os acontecimentos como, infelizmente, sofremos a última Guerra mundial.”

(Pessoalmente, chamo permanentemente a atenção para a necessidade de pensar. Pensar vem do latim, pensare, que significa pesar razões; daí vem também o penso sanitário, pois pensar cura.

 

Como vê esta nova guerra na Europa, com a invasão da Ucrânia?

Certamente, há “uma surpresa, mas não total”. De facto, num artigo no Le Monde em 2014, por ocasião da crise ucraniana, concretamente na Crimeia, escreveu:

“Atenção, é um foco de infecção com o risco de ter consequências desastrosas. Durante anos, fechou-se os olhos a esta infecção…

” O problema agora é que há “um desequilíbrio”: “estamos numa espécie de contradição, porque,

  • por um lado, pensamos que a resistência ucraniana é justa – é uma guerra patriótica -,
  • mas ao mesmo tempo pensamos que, se entrarmos no conflito, corremos o risco do que Dominique de Villepin chamava um “tsunami mundial”: passo a passo, chegar à explosão.

” Não nos podemos enredar na lógica da guerra e “intervir militarmente. Por isso, sinto esta contradição que vivemos todos e que é preciso assumir”.

  • “Por um lado, queremos apoiar um país que resiste
  • e, por outro, não podemos fazê-lo de modo integral, isto é, entrar na guerra.
  • Estamos no meio: fornecemos armas e reabastecimento”.

 

Os seus três escritores russos preferidos são: Dostoiévski, Tolstói, Tchekhov. “Eles ajudam-no a compreender a guerra hoje?”

“Não, eles ajudam-me sobretudo porque

  • transportam com eles um humanismo russo que, diferentemente do humanismo ocidental, que é sobretudo abstracto, é concreto.
  • Está cheio de compaixão pelo sofrimento e a miséria humana.
  • E o que estes autores me ensinaram de modo profundo foi este humanismo da compaixão pelo sofrimento.”

Aqui, pessoalmente, pensei no meu íntimo:

  • Nem Putin nem Kirill leram Dostoiévski, Tolstói, Tchekov,
  • ou não entenderam… ou não querem entender.

 

E voltamos à necessidade urgente de pensar. Estamos mergulhados em crises gravíssimas, que podem colocar a Humanidade perante a possibilidade do seu fim.

“Em todo o mundo há crise das democracias, uma crise do progresso.

  • Acreditámos durante muito tempo que o progresso era certo, uma lei da História;
  • ora, hoje percebemos que o futuro é cada vez mais incerto e inquietante.

Há a crise do futuro, a angústia, as crises que aconteceram:

  • a económica em 2008, depois a pandemia.
  • As angústias que isso gera provocam um retraimento, um fechar-se sobre si mesmo.”

E nota-se uma espécie de derrota dos intelectuais e políticos, que não conseguem fazer-se ouvir. Há uma questão que é “muito importante hoje.

  • Porque estamos num mundo de experts (peritos) e especialistas
  • em que cada um vê apenas uma pequena parte dos problemas, isolados uns dos outros.
  • Existe hoje de facto essa deficiência.”

De novo o jornalista: “Conversámos sobre a guerra na Ucrânia, tendo como pano de fundo a ameaça nuclear. Também dedica um dos quatro capítulos do seu livro ao aquecimento global. Mestas condições, é possível pensar o futuro com serenidade?”

“Não podemos ficar serenos perante perspectivas tão preocupantes. O que eu quereria mostrar, mesmo antes da guerra na Ucrânia, é que, desde Hiroshima, uma espada de Dâmacles paira sobre a cabeça de todos, e ela agravou-se com a crise ecológica, que mostra que realmente a bioesfera, o mundo vivo e as nossas sociedades estão ameaçados.

Não é só o clima. O clima é um elemento dessa crise geral e a pandemia também contribuiu para o carácter global da crise. Penso que entrámos num novo período.

  • Pela primeira vez na História, a Humanidade corre o risco de aniquilação,
  • talvez não total – haverá alguns sobreviventes -, mas uma espécie de “reinício” a partir do zero em condições sanitárias sem dúvida terríveis.
  • É esse perigo, que eu já tinha diagnosticado como potencial, que, de repente, se torna actual com esta história de guerra russa.”

 

Claro que “só podemos pensar o futuro, se estivermos conscientes do passado e do que se passa no presente. Não se pode pensar o futuro isolado. E hoje o futuro depende dessas grandes correntes que atravessam a Humanidade e que são ameaçadoras e regressivas. Portanto, eu penso que é urgente pensar o futuro. Porquê?

Até agora pensava-se que o futuro era uma espécie de linha recta que ia continuar.

  • Ora, é preciso imaginar os diferentes cenários. É preciso estar vigilante.
  • É preciso esperar o inesperado para saber navegar na incerteza.
  • Há toda uma série de reformas, o modo de pensar, de se comportar, que são hoje necessários.”

 

 

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia.
Escreve de acordo com a antiga ortografia

Fonte: https://www.dn.pt/opiniao/esperar-o-inesperado-14791517.html

 

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