Vito Mancuso – 121/04/2022 – Foto: DAQUI
A autodeterminação de um povo que não aceita mais a vassalagem secular em relação a outro povo ao qual a geopolítica o havia entregue ao longo dos séculos corresponde à autodeterminação de um indivíduo que não aceita a vassalagem igualmente pesada a que a biologia, de um lado, e o costume social, de outro, o havia entregue, por sua vez.
A opinião é do teólogo italiano Vito Mancuso, ex-professor da Universidade San Raffaele de Milão e da Universidade de Pádua, em artigo publicado por La Stampa, 12-04-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Segundo ele, “para a consciência católica, o ponto crucial consiste em saber responder a esta pergunta: a aceitação da identidade espiritual do Ocidente (que consiste na cultura dos direitos humanos e no respeito à singularidade de cada um) é uma derrota da catolicidade, a sua rendição incondicional ao mundo, um abandono da tradição, uma traição ao ensinamento de Jesus?”
“Existe – escreve o teólogo – uma grande aposta para que a emancipação dos indivíduos possa continuar sendo salvaguardada e defendida pelo retorno da reação e do tradicionalismo autoritários: que a cultura dos direitos humanos que surgiu com a modernidade seja capaz de reencontrar um ideal ou uma utopia maior do que o interesse dos indivíduos, que volte a nos fazer nos sentirmos sócios uns dos outros”.
Eis o artigo.
Neste momento histórico que não é exagero definir como fatal,
- enquanto enfurece a guerra de Putin abençoada pelo patriarca de Moscou, dizendo que se trata de defender os valores cristãos ameaçados por um Ocidente que caiu à mercê das paradas gays,
- a Diocese de Turim está pronta para administrar o sacramento da Crisma a uma pessoa que nasceu mulher e depois se tornou homem.
Existe uma relação entre os dois fatos? Na minha opinião, sim: é a convergência de geopolítica e biopolítica.
A questão na sua essência é a mesma,
- é aquela que divide, de um lado, a autodeterminação em nome da liberdade e da sua irredutível singularidade
- e, de outro, a determinação imposta pela biologia ou pela tradição.
Quer se trate de um povo ou de um indivíduo, de geopolítica ou de biopolítica em ambos os casos a substância é representada pelo choque
- entre cultura e natureza,
- entre liberdade e obediência,
- entre sujeito e instituição,
e pela decisão de qual dos dois polos tem mais valor.
A autodeterminação de um povo que não aceita mais a vassalagem secular em relação a outro povo ao qual a geopolítica o havia entregue ao longo dos séculos corresponde à autodeterminação de um indivíduo que não aceita a vassalagem igualmente pesada a que a biologia, de um lado, e o costume social, de outro, o haviam entregue, por sua vez.
E em nome da autodeterminação, ou seja, da liberdade, um povo e um indivíduo, o primeiro em nível geopolítico, o segundo em nível biopolítico, iniciam a sua marcha de libertação.
É um confronto antigo, que teve início no princípio da modernidade, precisamente em âmbito teológico,
- quando Lutero reivindicou o primado da consciência sobre a obediência papal com as célebres palavras proferidas na Dieta de Worms diante do imperador Carlos V,
- depois que, pela enésima vez, ele havia sido intimado a se retratar:
“Não posso e não quero revogar nada, porque é perigoso e injusto agir contra a própria consciência. Eu não posso de outra forma. Aqui estou. Que Deus me ajude. Amém”.
Era o dia 18 de abril de 1521, um ano e cinco séculos atrás,
- e desde então o Ocidente embarcou em uma marcha progressiva rumo à emancipação dos indivíduos e à extensão dos direitos humanos,
- chegando nestes anos a legitimar até o resgate da própria biologia para aqueles indivíduos para os quais ela não coincide com a própria psique e a própria afetividade.
Eles também, como Lutero, declaram que é perigoso agir contra a própria consciência e contra a própria sede insuprimível de sermos nós mesmos.
- E a Igreja Católica, depois de ter se oposto longa e fortemente a essa evolução
- (considere-se, por exemplo, o Sílabo de Pio IX, que condenava sem apelação a liberdade de consciência em matéria religiosa; considerem-se os duros posicionamentos de João Paulo II em âmbito bioético),
- está pronta para administrar o sacramento da Confirmação a uma pessoa nascida com um sexo e que transitou para outro, legitimando desse modo, pelo menos na Diocese de Turim, a bondade de tal percurso.
Naturalmente, à luz da tradição, o escândalo dos católicos tradicionalistas é compreensível. O Patriarca Kirill também concordaria com eles.
- Assim como o povo ucraniano não pode se autodeterminar geopoliticamente,
- assim também os homossexuais não podem viver biopoliticamente a sua sexualidade, muito menos transformá-la.
E a Igreja deve fazer tudo em relação a eles, exceto reconhecer o seu direito ao amor e à afetividade.
Por isso, os católicos tradicionalistas
- gritam o escândalo diante da administração de um sacramento a uma pessoa que mudou de sexo
- e leem nesta abertura da Igreja Católica a confirmação da progressiva protestantização que também na Itália está entregando o cristianismo àquele destino de irrelevância que já tem nos países protestantes do norte da Europa.
Por isso, para a consciência católica, o ponto crucial consiste em saber responder a esta pergunta:
- a aceitação da identidade espiritual do Ocidente (que consiste na cultura dos direitos humanos e no respeito à singularidade de cada um)
- é uma derrota da catolicidade, a sua rendição incondicional ao mundo, um abandono da tradição, uma traição ao ensinamento de Jesus?
Na realidade, talvez só agora é que se comece a compreender a radicalidade da proposta espiritual de Jesus, que ensinava:
“O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado!” (Mc 2,27),
uma revolução personalista que lhe custou a vida, mas sem a qual a civilização que chamamos de Ocidente e que consiste no primado dos direitos humanos acima de todas as outras instâncias, não teria visto a luz.
Nessa perspectiva, são exemplares as palavras do cônego da Igreja da Santíssima Trindade de Turim, Pe. Alessandro Giraudo, que, questionado por este jornal, não podia responder de modo mais claro:
“O que realmente importa é o cuidado da pessoa”.
É a perfeita tradução aqui e agora da revolução iniciada há dois milênios por Jesus.
Porém, há um aspecto que absolutamente não deve ser esquecido e que constitui o verdadeiro ponto crítico do discurso feito até agora, “The Dark Side of the Moon”, como cantava o Pink Floyd quando eu era jovem.
- O lado escuro da lua, neste caso, é a fragmentariedade à qual necessariamente vai ao encontro uma sociedade para a qual o primado absoluto é constituído pela liberdade dos indivíduos.
- Se é de fato essencial tutelar a autodeterminação dos indivíduos, é igualmente essencial reconhecer como é difícil, com base no primado da subjetividade, ter coesão social.
Sociedade vem do latim “societas”, termo que por sua vez remete a “socius“
- e indica a existência de um interesse superior em relação ao interesse particular dos indivíduos,
- com base no qual os indivíduos podem se sentir sócios e, assim, formar uma sociedade digna desse nome.
Pois bem,
- a doença de que sofre o Ocidente, ao contrário de outras sociedades mais coesas, mas às custas dos indivíduos,
- é exatamente o senso de desagregação a que o primado unilateral do indivíduo conduz quase inevitavelmente.
Por isso, as chamadas forças soberanistas estão em crescimento:
- porque a consciência sente inquieta essa desagregação e tenta se salvar buscando um princípio de coesão,
- pronta para reconhecê-lo ora na religião, ora no homem forte, ora na ideia de pátria, ora em tudo isso junto, a fim de obter aquilo que possa garantir a solidez do sistema.
Existe, portanto, uma grande aposta para que a emancipação dos indivíduos possa continuar sendo salvaguardada e defendida pelo retorno da reação e do tradicionalismo autoritários:
- que a cultura dos direitos humanos que surgiu com a modernidade seja capaz de reencontrar um ideal ou uma utopia maior do que o interesse dos indivíduos,
- que volte a nos fazer nos sentirmos sócios uns dos outros.
Isso não deve mais ocorrer às custas das minorias, como no passado, mas ainda deve ocorrer, se o Ocidente não quiser voltar atrás ou, como diz o seu próprio nome, entrar em ocaso.
Vito Mancuso