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2 – Para estabelecer as leis fundamentais da estupidez, é preciso, primeiro, definir quem é o estúpido.
- Quando temos um indivíduo que faz algo que nos causa uma perda, mas lhe traz um ganho a ele, estamos a lidar com um bandido.
- Quando alguém age de tal maneira que todos os interessados são beneficiados, temos uma pessoa inteligente.
Ora, o nosso quotidiano está cheio de incidentes que nos fazem
- “perder dinheiro, e/ou tempo, e/ou energia, e/ou o nosso apetite, a nossa alegria e a nossa saúde”,
por causa de uma criatura ridícula que
- “nada tem a ganhar e que realmente nada ganha em causar-nos embaraços, dificuldades e mal”.
Ninguém percebe por que razão alguém procede assim.
- “Na verdade, não há explicação ou, melhor, há só uma explicação: o indivíduo em questão é estúpido.”
Cá está a primeira lei:
“Cada um subestima sempre inevitavelmente o número de indivíduos estúpidos que existem no mundo.”
Já a Bíblia constata: o seu número é infinito.
Os estúpidos estão em todos os grupos, pois
“a probabilidade de tal indivíduo ser estúpido é independente de todas as outras características desse indivíduo”:
segunda lei.
A terceira lei corresponde à própria definição do estúpido:
“É estúpido aquele que desencadeia uma perda para outro indivíduo ou para um grupo de outros indivíduos, embora não tire ele mesmo nenhum benefício e eventualmente até inflija perdas a si próprio.”
- A maioria dos estúpidos persevera na sua vontade de causar males e perdas aos outros, sem tirar daí nenhum proveito.
- Mas há aqueles que não só não tiram ganho como, desse modo, se prejudicam a si próprios: são atingidos pela “super-estupidez”.
É desastroso associar-se aos estúpidos.
A quarta lei diz:
“Os não estúpidos subestimam sempre o poder destruidor dos estúpidos. Em concreto, os não estúpidos esquecem incessantemente que em todos os tempos, em todos os lugares e em todas as circunstâncias tratar com e/ou associar-se com gente estúpida se revela inevitavelmente um erro custoso.”
A situação é perigosa e temível, porque quem é racional e razoável tem dificuldade em imaginar e compreender comportamentos irracionais como os do estúpido.
Schiller escreveu: “Contra a estupidez mesmo os deuses lutam em vão.”
Como consequência, temos a quinta lei:
“O indivíduo estúpido é o tipo de indivíduo mais perigoso.”
O corolário desta lei é:
“O indivíduo estúpido é mais perigoso do que o bandido.”
De facto, se a sociedade fosse constituída por bandidos, apenas estagnaria:
- a economia limitar-se-ia a enormes transferências de riquezas e de bem-estar a favor dos que assim agem,
- mas de tal modo que, se todos os membros da sociedade agissem dessa maneira, a sociedade no seu conjunto e os indivíduos encontrar-se-iam numa
“situação perfeitamente estável, excluindo toda a mudança”.
Porém, quando entram em jogo os estúpidos, tudo muda: uma vez que causam perdas aos outros, sem ganhos pessoais,
“a sociedade no seu conjunto empobrece”.
A capacidade devastadora do estúpido está ligada, evidentemente, à posição de poder que ocupa.
- “Entre os burocratas, os generais, os políticos e os chefes de Estado, é fácil encontrar exemplos impressionantes de indivíduos fundamentalmente estúpidos,
- cuja capacidade de prejudicar é ou tornou-se muito mais temível devido à posição de poder que ocupam ou ocupavam.
- E também não se deve esquecer os altos dignitários da Igreja.”
É assim o mundo.
3 – Ao ler Igreja, lembrei-me do Papa Francisco, esse cristão que é uma bênção para a Igreja e para o mundo. Ele, atravessado pela angústia dos migrantes e da guerra “sacrílega”, como a caracteriza, da Ucrânia, visitou no fim de semana passado a ilha de Malta, manifestando, mais uma vez, a sua predilecção pelas periferias –
“é preciso ir à periferia para ver o mundo como é”,diz.
Já na ida de Roma para Malta, tinha manifestado a sua disponibilidade para ir a Kiev:
“Uma visita a Kiev está em cima da mesa”.
Já de regresso, na habitual conferência de imprensa, agradeceu as notícias sobre os horrores de Butcha, que desconhecia, e declarou:
- “A guerra é cruel, desumana. Estou disposto a fazer tudo o que possa ser feito. A Santa Sé está a fazer a sua parte diplomática: o Cardeal Parolin, Monsenhor Gallagher estão a fazer tudo.
- Por razões de prudência, não se pode publicar tudo, mas estamos a levar o nosso trabalho até ao limite. Entre as várias possibilidades, está a viagem.
- Digo com sinceridade: há sempre disponibilidade para partir. Está em cima da mesa. É uma das propostas, mas não sei se é possível e se será conveniente. Tudo está no ar. Há algum tempo que também pensei num encontro com o Patriarca Ortodoxo de Moscovo. Estamos a trabalhar no sentido de concretizá-lo.”
Desgraçadamente, digo eu, o Patriarca Cirilo está ao lado de Putin.

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Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia.
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Fonte: https://www.dn.pt/opiniao/opi-anselmo-borges-francisco-vai-a-kiev-14753932.html