No processo, deixaram de ver
- quão totalitário o presidente chinês Xi Jinping age
- como converteu seu país numa ditadura cada vez mais perfeita.
Agora a guerra na Ucrânia impõe perguntar se a nossa maior parceira comercial também se terá tornado nossa maior inimiga.
- A questão não pode ser acabar com a amizade ou proximidade entre Xi e seu colega russo: isso é inteiramente utópico.
- A questão é simplesmente quão apertado o chinês pretende abraçar Vladimir Putin,
- e se está sequer disposto a considerar os interesses de segurança do Ocidente no confronto com sua parceria estratégica com a Rússia.
Na visão de Xi, num prazo razoável as duas autocracias poderiam dar fim à ordem mundial de orientação ocidental e às suas regras.
- Contudo no momento a guerra não transcorre absolutamente como deseja Putin,
- ela debilita a economia russa e desse modo, no médio prazo, a posição de poder dele.
Além disso, pode ser que, a esta altura, o chefe do Kremlin tenha desencadeado em Pequim dúvidas sobre a sua própria capacidade de julgamento político. Por conseguinte, o cálculo estratégico do líder chinês não vai funcionar sem maiores obstáculos.
“Amizade” sino-russa e equilíbrio do medo econômico
Contudo a China pensa numa escala de tempo mais vasta e pretende se aferrar a uma parceria que, para o futuro, promete acesso a importações de energia mais baratas. Por isso Pequim reforça que não quer ser forçado a tomar partido – embora na prática há muito já o tenha feito, ao prometer respaldo continuado a Moscou e evitar condenar a guerra contra a Ucrânia.
Por outro lado, o país asiático
- não quer, ele mesmo, ser objeto de sanções, uma vez que a União Europeia é seu maior mercado de exportação e garantia para um crescimento econômico continuado.
- Desse ponto de vista, Pequim não pode se dar ao luxo de perder a UE e os Estados Unidos como parceiros comerciais.
É possível que os chineses também tenham ficado surpresos com o grau de determinação na resposta ocidental à invasão. Agora o presidente Xi tenta praticar a arte diplomática do “tanto isso quanto aquilo”, no sentido de seguir cultivando as relações com a Rússia, mas sem voltar o Ocidente contra si.
Os europeus possuem, portanto, um trunfo econômico perante a China para impedir eventuais fornecimentos de armas à Rússia ou um contorno das sanções. Contudo nesse ponto as subordinações são recíprocas, já que, sabidamente,
- certos Estados da UE estão tão dependentes do mercado consumidor chinês,
- que reina uma espécie de “equilíbrio do medo”.
Por isso no momento, com a ajuda de Paris, Berlim também tenta abrandar os tons excessivamente severos contra Pequim.
Clareza atípica por parte da UE
Em sua cúpula virtual com o presidente Xi, entretanto,
- as lideranças da UE deixaram explícito que a guerra na Ucrânia afeta interesses centrais de segurança europeia que Pequim teria que levar em consideração:
- eles não querem ver sabotados seus esforços de restringir o conflito, terminá-lo o mais breve possível e, depois, negociar uma paz sustentável.
- Não haverá um “continuemos assim” nem pseudo-soluções diplomáticas, foi a mensagem que os líderes europeus comunicaram com clareza pouco usual.
No decorrer dos últimos dois anos, a UE já perdeu a ingenuidade geopolítica em relação à China,
- ao declará-la “rival sistêmico”,
- congelar o acordo de investimentos
- e, por fim, ainda ter que ver Pequim encostar na parede a pequena Lituânia, na questão do Taiwan.
Agora trata-se da difícil tarefa de encontrar um novo equilíbrio de forças. Pelo menos nesse ínterim a Europa compreendeu que também
- terá que lutar com armas mais pesadas
- e assumir posições definidas em nome dos próprios interesses e segurança.
Foram-se os tempos em que os interesses econômicos suplantavam tudo.
Essa nova era da geopolítica obrigará também a UE a decisões difíceis e a renúncia. E – parafraseando o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski – a se colocar repetidamente a questão: o que é mais importante, o sangue dos ucranianos ou o bem-estar dos europeus?
Além disso, nessa luta também será tomada uma espécie de pré-decisão sobre a configuração dos blocos geopolíticos globais do futuro.
No momento está tudo em jogo, para todos.
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Barbara Wesel
