Colômbia: o possível giro à esquerda

Petro, ex-guerrilheiro e hoje senador, pode ser o próximo presidente. Tem a seu lado Francia, ativista das lutas camponesas e das causas que tocam a juventude. Poderão, juntos, liderar a reconstrução de um país carcomido pelas oligarquias?

O artigo é de Fernando Dorado, ex-deputado colombiano, analista política e ativista social, publicado por Rebelión e reproduzido por OutrasPalavras, 30-03-2022. A tradução é de Rôney Rodrigues.

Eis o artigo.

 

Em 13/3, a Colômbia elegeu seus representantes para o Congresso.

Os resultados indicam uma grande ruptura na dinâmica do poder no país – e pode indicar um possível redesenho à esquerda.

  • Pela primeira vez na história, uma coalizão progressista – a lista do Pacto Histórico, liderada pelo pré-candidato à presidência, Gustavo Petro – obteve o maior número de votos.
  • Torna-se a coalizão com maioria no Senado, fazendo 19 cadeiras de 108.
  • Na Câmara, a esquerda teve ampla votação, embora pelas regras eleitorais tenha ficado com a segunda maior força política em número de parlamentares.

Além disso, pelo sistema eleitoral colombiano, junto com as eleições legislativas (Câmara e Senado), também são realizadas as primárias para a presidência da República, onde os três mais votados ganham o direito de formar suas alianças (coalizões) e disputar o cargo de presidente do país em dois turnos (o primeiro será em 29/5).

  •  Petro recebeu 4,5 milhões de votos nessas primárias, foi o pré-candidato mais votado – e lidera as pesquisas de intenção de votos,
  • junto com a candidata a vice-presidência, Francia Márquez: na última, estavam com cerca de 47% da preferência.
  • O ex-prefeito de Medellín Federico Gutiérrez será o candidato da coalizão de direita
  • Sergio Fajardo, ex-governador do departamento de Antioquia, representará a aliança de centro.

Um amigo que jogava muito bem bilhar sempre que fazia uma jogada extraordinária dizia: “o saber é chamado de sorte”.

No entanto, ele sabia que em certos momentos algo que poderia ser chamado de sorte o ajudava a vencer. Quem joga chama a isso de estar ligado.

Hoje o progressismo e as esquerdas colombianas estão ligados.

Não se trata de sorte ou de coincidência – como dizia meu amigo – mas da confluência de vários fatores que tornam isso possível.

  • O agravamento das péssimas condições de vida;
  • a fusão de inconformismo, indignação e consciência política;
  • e a existência de acumulações organizacionais que geraram uma contexto novo.

Em um artigo de mais de um ano atrás (3/6/2021) afirmamos que havíamos entrado em um “novo momento político” na Colômbia. A questão da paz pequeña (desmobilização das FARC) foi basicamente superada e para garantir a paz grande era necessária uma mudança no modelo econômico e político. É onde estamos hoje.

Dissemos (entre outras coisas) que

  • “o bloco de poder oligárquico está enfraquecido”,
  • “as classes médias estão começando a se voltar para o progressismo”,
  • “a pandemia ajudou a desnudar nossas misérias”,
  • “a crise dos partidos políticos está forçando o surgimento de novas expressões políticas” e
  • “há evidências de que mulheres e jovens serão decisivos para este novo momento”.

Após a explosão social

  • e a tentativa fracassada das castas dominantes de fazer acreditar que foi
  • “uma estratégia subversiva para destruir as instituições democráticas”,
  • pode-se dizer que estamos vivendo este novo momento político.

Os resultados das eleições de 13 de março confirmam

  • a existência de um processo com fortes raízes sociais que, infelizmente, o conflito armado instrumentalizado pelo império (e o narcotráfico)
  • não nos permitiu apreciar e desencadear.

Gustavo Petro e Francia Márquez, os dois pré-candidatos vencedores do Pacto Histórico [ampla coalização eleitoral, composta por partidos de esquerda e centro-esquerda, para as eleições de 2022],

  • encarnam essas dinâmicas sociais complexas e não-lineares.
  • Cada um deles representa em sua particularidade a diversidade de lutas populares que, felizmente, se confluem na conjuntura atual, mas que têm origens, essências e naturezas diferentes.

 

Duas visões que devem se encontrar

Tudo indica que

  • começa a tomar forma na Colômbia um processo político que tenta combinar – de forma criativa – o trabalho cinzento e cotidiano de construção de formas de poder popular
  • com ação eleitoral para, assim, colocar a institucionalidade existente a nosso serviço,
  • sem pretender transformá-la de um dia para o outro e sem abandonar para mudar a sociedade a partir de “autogovernos”.

Essa tarefa está no centro dos debates das lutas popularesprogressistas e de esquerda que se desenvolvem na América Latina e no mundo.

Atualmente, existem dois tipos de processos que parecem antagônicos (os “autonomistas” versus os “institucionalizados”)

  • devido, basicamente, ao fato de que as diferentes experiências realizadas até agora
  • levaram à cooptação e ao enfraquecimento dos movimentos populares pelo Estado,
  • mesmo em mãos de governos progressistas.

De forma panorâmica podemos afirmar que

  • Evo e Linera na Bolívia se deixaram cooptar, embora os movimentos sociais lutem “de baixo” para reparar essa situação;
  •  Correa nunca teve uma estratégia popular, queria fazer tudo a partir do Estado (ou seja, de cima);
  •  Lula desenvolveu uma prática muito semelhante apesar da existência dos “sem-terra”.

Agora, Gabriel Boric está começando no Chile, mas há um deslocamento com o movimento popular pouco organizado, com exceção do povo mapuche.

O perigo de experiências como as de Lula e Correa é que elas abrem caminho para os bolsonaros.

De outra perspectiva, há a valiosa experiência dos neozapatistas mexicanos que, embora sustentados em suas dinâmicas locais, parecem se isolar em seu “autonomismo” e desconectar-se da vida e do povo da nação mexicana e do mundo. Na Colômbia, a experiência indígena e afro está imersa na luta por autonomia e num processo de cooptação institucional sem que ainda tenha havido um governo progressista. É uma realidade complexa de definir e explicar.

No entanto, tudo isso pode mudar se os processos anteriores forem avaliados com seriedade e o problema for esclarecido. Em geral, os “políticos” são responsabilizados e a liderança “social” é exonerada a priori. Isso a leva a assumir um comportamento “purista”, confortável e isoladora. Se deixa o espaço aberto a todo tipo de oportunistas sem deflagrar lutas em seu terreno e, logo depois, quando a burocratização e a corrupção avançam, se diz olimpicamente… “nós avisamos!”.

É por isso que devemos promover um debate mais profundo sobre o caráter e a natureza do Estado, e desenvolvê-lo com o povo, sem medo ou fundamentalismo, sem verdades eternas e com espírito de aprendizado. A vida dos povos e a sobrevivência da humanidade nos obrigam.

Francia e Petro contra as leis (escritas e não-escritas) e a história

Francia Márquez foi escolhida como candidata a vice-presidente de Gustavo Petro.

  • Ela foi treinada em um processo claramente “social” de camponeses e negros mineiros de Cauca,
  • enquanto ele, de origem popular da periferia de Zipaquirá (em Cundinamarca, a 25 km de Bogotá) foi formado em “política” a partir de sua militância no M19, guerrilha democrática e nacionalista dos anos 70 e 80.

Cada um tem sua própria história de lutas – valiosas e com seus méritos.

Encontramos na ação política da Francia algumas características particulares.

Seu “sucesso” eleitoral – ao menos, até agora –

  • consiste em se comportar como realmente é, sem máscaras nem poses. Ela é uma autêntica outsider,
  • muito diferente de tantos candidatos que hoje se apresentam como “antipolíticos” sem sê-lo
  • e, portanto, não podem competir com ela

 Ela é transparente e espontânea; eles são obscuros e previsíveis.

Francia é uma rebelde pacifista operando dentro do sistema.

  • Alguém que diz coisas sem cálculo, mas com convicção; uma pessoa que age regida por uma lei que não está escrita (Ubuntu) e, portanto, nunca se trai.
  • Suas ideias de igualdade, dignidade e justiça social se nutrem de práticas reais e vitais, que a comprometem com as causas do povo e da humanidade.

Ela está protagonizando

  • algo inédito, que é transformador em si mesmo, algo novo pois suas ações, em todos os sentidos, estão fora da política tradicional.
  • Sua luta pelos direitos dos excluídos, das mulheres, de gênero, dos jovens, das vítimas do conflito armado e pela preservação da natureza, não surgem de livros ou teorias, mas de sua própria vida – e da vida do povo.

Já Petro

  • tem que jogar no campo tradicional,
  • tem que agir com base na lei escrita,
  • e de alguma forma ele se trai (tomara que seja conscientemente) porque a imagem que construíram para ele foi a do guerrilheiro e comunista.

No entanto, ele também arriscou toda a sua vida,

  • enfrentando o paramilitarismo e a corrupção,
  • desafiando a oligarquia e o uribismo,
  • e construindo um programa que contempla transformações importantes para a sociedade, tanto no plano nacional e regional (latino-americano) quanto global.

A contradição a ser resolvida em meio à prática, tanto por eles quanto pelos movimentos sociais e políticos, foi levantada por Francia em suas intervenções.

É, ao mesmo tempo, um slogan dos jovens colombianos:

“Não se trata apenas de mudar o governo (subsistema do Estado herdado); a tarefa é mudar a sociedade”.

  • Não é se recusar a participar de um governo, mas saber que a ação principal não é administrativa.
  • Não se trata de “fazer um favor” ao povo a partir do governo ou de iludi-lo com leis e decretos que vão mudar a sua realidade.
  • Trata-se de aproveitar esses espaços institucionais para fortalecer a organização popular e a sociedade civil.

 

Para lembrar

É importante lembrar que

  • todo ato verdadeiramente transformador se baseia em uma lei que não está escrita.
  • Todas as civilizações e sociedades tiveram suas leis não-escritas, de caráter comunitário e coletivo, que são muito semelhantes entre si.

Quando as sociedades foram divididas em classes e/ou castas e surgiram governantes, os chamavam de reis, imperadores, marajás, xeques, incas, astecas, etc., chamavam os sábios de seu tempo e os pagavam para escrever os “livros sagrados”.

  • A partir desse momento essas leis perderam seu caráter coletivo e comunitário.
  • Eles foram explorados pelo poder de um setor minoritário da sociedade:
  • os poderosos, os homens, os “sábios”, os opressores, aqueles que governam.

No entanto, essas leis existem. Eles existem na memória coletiva. Fazem parte da humanidade e da tradição de muitos povos ancestrais. Hoje, essas leis são essenciais para restaurar a vida e construir um futuro digno para todos os seres humanos.

Quando Francia Márquez relembra seus ancestrais, ela nos lembra aquelas leis não-escritas. E é aí que reside a sua força.

Fernando Dorado

Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/617447-colombia-o-possivel-giro-a-esquerda#

 

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