Marco Grieco – 25 março 2022 – Foto: Reprodução
O Papa Francisco muda a Igreja e o mundo e o faz a partir da Basílica de São Pedro, onde na sexta-feira à tarde, 25 de março, em união com todos os bispos, consagrará a Rússia e a Ucrânia ao imaculado coração de Maria, um mês após a dramática invasão russa.
O comentário é de Marco Grieco, jornalista, publicado por Domani, 25-03-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.
Na contingência de um pedido feito pelos bispos ucranianos, o pontífice rompe com a visão nacional-identitária do catolicismo, que na história fez dos reis Carlos Magno e Constantino os dióscuros de sua igreja:
“Fazer parte de uma sociedade cristã não resolve mais o problema da guerra, porque cada um é livremente responsável pelo que faz. O Papa Francisco amadureceu uma consciência diferente do passado: a história é guiada pelos homens e é necessário intervir nas consciências para mudar seu curso”,
explica Daniele Menozzi, professor emérito de história contemporânea da Scuola Normale de Pisa.
O Miserere do mundo
Sob essa lente deve ser interpretada a oração de consagração que o pontífice enviou a todos os bispos. Andrea Grillo, professor de teologia do Pontifício Ateneu Sant’Anselmo, explica:
“Formalmente, trata-se de uma oração de consagração: na realidade, transformou-se em uma invocação à misericórdia divina por meio de Maria, que transforma os homens em irmãos. Uma grande invocação a Maria, na qual o papa interpreta as demandas do povo e as suas necessidades”.
Na estrutura, o cerne da oração é uma confissão comum de culpa, da qual o pontífice se torna o intérprete, nunca o juiz.
As expressões utilizadas
- são as mais distantes do conceito de “liberdade de ação oportuna” da encíclica Firmissimam Constantiam (1937),
- que sancionava a posição do Papa Pio XI diante da chamada “Cristiada“,
- a tomada de posição combativa do Católicos após a repressão anticristã no México.
Como Menozzi aponta,
“o papa aqui indica claramente que a guerra é o resultado dos erros dos homens, que não se apropriaram da dramática lição do século XX – “Esquecemos a lição das tragédias do século passado, o sacrifício de milhões de mortos nas guerras mundiais”-.
Mas ele não esquece as responsabilidades específicas:
- em citações diretas, há uma referência tanto à Rússia, que violou o direito internacional,
- quanto à Ucrânia, envolvida em impulsos nacionalistas – “nos encerramos em interesses nacionalistas”.
Nesta confissão mundial de pecado nem mesmo as Nações Unidas são poupadas – “a Comunidade das Nações” –, que mostraram a incapacidade de manter a harmonia entre os povos.
O papa havia mencionado isso explicitamente no Angelus de 6 de março último, quando implorou o retorno ao respeito do direito internacional:
“Com o uso do termo ‘Comunidade de Nações’, o papa parece reconhecer que as Nações Unidas se mostraram incapazes de uma governança adequada do planeta. O convite à oração é um chamado universal a todos para que cada um seja um artesão da comunhão planetária”,
enfatiza Menozzi.
Era 2015 quando, na sede da ONU, Francisco lembrou que a contribuição da normativa internacional para os direitos humanos, as operações de paz e reconciliação e o desenvolvimento do direito internacional
“são luzes que contrastam a escuridão da desordem causada por ambições descontroladas e por egoísmos coletivos”,
que ressurgiram hoje com preponderância: “
Nos tornamos indiferentes a tudo e a todos, exceto a nós mesmos”.
Maria mediadora
No rosto da guerra, também a história não é mais percebida como um desenvolvimento direto da providência, mas como uma consequência direta da ação humana:
“Há uma mudança na visão providencialista que ligava a guerra à ira divina e a solução dos conflitos à reconstrução de uma sociedade cristã”,
explica o historiador Menozzi, que vê no sintagma “artesãos de comunhão” a chave interpretativa de uma visão comunitária da história, um verdadeiro objetivo a ser buscado. Isso também é evidente na escolha de “Jesus príncipe da paz” justaposto, por sua vez, à realeza titular de viés novecentista do “Cristo Rei”.
Como explica o historiador, que dedicou ao tema o ensaio De Cristo Rei à cidade dos homens (em tradução livre):
“O Papa Francisco já havia se distanciado da ideologia política tradicional que ligava o título de Cristo Rei a uma sociedade hierocrática, em continuidade com a reforma litúrgica de Paulo VI que privilegiava a dimensão não política, mas universalista e espiritual da realeza. Em seu pontificado, o papa repetidamente liga a realeza à misericórdia e ao triunfo da fraternidade”.
O teólogo Grillo faz eco a ele:
“Por isso, a invocação pode ser entendida como a tradução orante da encíclica Fratelli Tutti“.
Maria torna-se assim o ponto de intersecção entre uma abscissa comunitária (onde o mundo inteiro, incluindo a Rússia e a Ucrânia, é chamado à fraternidade e uma ordenada que define a comunhão com Deus).
Uma Nossa Senhora apolítica
- Da ditadura portuguesa de Salazar à consagração em chave anticomunista da Itália em 1959,
- a prática piedosa ligada a Fátima assumiu uma coloração política ao longo do século XX
- a ponto de ser aproveitada até pelos populistas em busca de consenso eleitoral.
Basta pensar
- na consagração mariana do Brasil por parte de Jair Bolsonaro em 2019
- e da Itália por Matteo Salvini em 2021.
O papa rasga essa legitimação religiosa dos impulsos identitários, livrando a própria Maria de uma lógica apologética.
Grillo explica:
“Aqui temos uma sutil síntese de três títulos marianos:
- no dia da Anunciação, a Imaculada Conceição é endereçada como Dolorosa.
- “Os tons medievais da invocação, de Jacopo de Todi a São Bernardo até à menção explícita de Dante no verso: “Você é uma fonte viva de esperança”, ajudam o texto a desistoricizar o culto mariano:
“Francisco moderniza um registro mais antigo, o ressemantiza:
- nesse sentido, combina perfeitamente a invocação do Stabat mater à experiência moderna de Nossa Senhora de Guadalupe,
- onde a devoção mariana se liberta da pressão europeia que havia caracterizado a consagração de Fátima no século XX”.
Menozzi destaca:
“O Papa Francisco ressalta a capacidade intercessora de Maria ligada ao seu papel materno. A maternidade sagrada torna-se assim a maternidade para os homens.
É uma inversão substancial:
- enquanto no passado se pedia a intercessão de Maria pelos pecados dos homens que tinham atraído a ira divina, desencadeada com o flagelo da guerra,
- hoje Maria é invocada para mudar o coração dos homens, os únicos que querem a guerra”.
Isso também explica por que, pela primeira vez, a ameaça nuclear é mencionada em uma ladainha:
“Responde a uma vontade eclesial de despertar as consciências, ou seja, tornar os homens cientes que a ameaça atômica não se resolve se a definição de sociedade cristã permanece em um nível institucional. A mudança deve ser substancial, e deve ser pedida ao coração dos homens”, acrescenta.
É a máxima de Santo Inácio emprestada do biógrafo jesuíta Pedro de Ribadeneira:
“Aja como se tudo dependesse de você, sabendo que na realidade tudo depende de Deus”.
Com todo o respeito à guerra incrementada por um metafísico choque de civilizações, como prospectado pelo patriarca russo Kirill.
Nota do Instituto Humanitas Unisinos – IHU

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