Fome no Brasil pode chegar a “situação explosiva”, afirma José Graziano

Manifestante mostra mãos com a palvra fome escrita sobre elas em protesto contra política econômica do governo Bolsonaro diante do Banco Central, em Brasília, em janeiro de 2022

Malu Delgado, – 02 Março 2022 – Foto: DAQUI

Ex-diretor da FAO e coordenador do programa Fome Zero no governo LulaJosé Graziano afirma que fome está em patamar que “nunca se tinha visto”. Solução depende de crescimento e renda, não só de programas sociais, diz.

A entrevista é de Malu Delgado, publicado por Deutsche Welle, 01-03-2022.

 

Menos de uma década após o Brasil ter deixado o Mapa da Fome, em 2014, o país vive hoje um aumento significativo da insegurança alimentar, que pode levar a uma “situação explosiva” antes do final do ano e precisa ser enfrentada pelas autoridades públicas e pela sociedade com urgência.
O alerta é de José Graziano da Silva, diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) de 2012 a 2019 e coordenador do programa Fome Zero no primeiro governo Luiz Inácio Lula da Silva.
Em entrevista à DW BrasilGraziano, atualmente diretor do Instituto Fome Zero, afirma que a situação da fome no Brasil é hoje “muito mais difícil” do que quando o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, usou em 1992 o mote “quem tem fome tem pressa” para lançar sua campanha contra a insegurança alimentar.

“Além de atingir um número muito maior de famílias, como nunca se tinha visto antes no Brasil, nós não contamos com a ajuda do governo federal. São poucos os municípios e Estados que têm no combate à fome a sua prioridade. Eu, particularmente, que estive por 15 anos na FAO, parece que estou vendo um país em guerra”, afirmou Graziano.

“Algo tem que ser feito, um verdadeiro mutirão contra a fome, em 2022, para que o problema não saia do controle.”

Segundo uma pesquisa realizada em dezembro de 2021 pelo Datafolha,

  • 15% dos brasileiros, ou cerca de 32 milhões de pessoas, deixaram de fazer alguma refeição nos meses anteriores porque não tinham dinheiro para comprar comida.
  • E 26%, ou 55 milhões de pessoas, haviam comido menos do que necessitavam porque não tinham dinheiro suficiente.

Para ele, o Bolsa Família foi um aliado crucial no combate à fome, mas apenas programas de transferência de renda não solucionam esse drama.

“O ma,is importante no programa de erradicação da fome é geração de emprego e renda dentro de um processo de desenvolvimento econômico inclusivo, que distribua melhor a renda. Ou seja, o país precisa crescer e distribuir a renda gerada. É isso que acaba com a fome.

Políticas de transferência de renda são atores coadjuvantes” afirma.

 

 

Eis a entrevista.

 

O Brasil construiu um longo caminho para sair, em 2014, do Mapa da Fome. Em 2017, já se observava um retorno gradual do país à conhecida situação de insegurança alimentar. Hoje, pelo menos 55% da população vive nessas condições. Quais as causas desse retrocesso?

Na verdade, a gente já vê um declínio da segurança alimentar da população brasileira a partir de 2013, que se acentua muito nos últimos anos, a partir de 2018. A questão da fome hoje no país, e sempre, é uma questão de acesso.

  • Não faltam alimentos. Falta dinheiro para a população comprar alimentos.
  • Já era assim no tempo de Josué de Castro [médico, nutrólogo e autor do livro “Geografia da fome”, escrito em 1946, presidiu a FAO], há 75 anos,
  • e agora está muito mais acentuado.

Eu listaria cinco causas mais importantes para esse rápido crescimento da fome:

 

1Consequência da crise mundial: O Brasil passa por um período de baixo crescimento econômico, abaixo de 2% [por ano] é insuficiente para gerar emprego e renda. Consequentemente, aumenta a população desempregada ou ocupada informalmente, com baixíssimos salários.

2Queda nos salários: A inflação se acentua e culmina com uma não valorização do salário mínimo, que deixa de ser reajustado acima da inflação. O salário mínimo serve de farol para o setor informal. Pesquisa do Dieese mostrou que, no último ano, praticamente todas as categorias não conseguiram repor nem mesmo as perdas inflacionárias nas negociações salariais.

3Corte nas políticas sociais e de segurança alimentar: Houve um desmantelamento de políticas sociais e de segurança alimentar criadas no início dos anos 2000;

4) Descontrole inflacionário, particularmente nos últimos dois anos da pandemia: A inflação dos alimentos afeta mais a população mais pobre.

5) As políticas de transferência de renda do governo aplicadas durante a pandemia, via auxílio emergencial, foram insuficientes para evitar que mais gente fosse para baixo da linha da miséria. Com exceção do primeiro auxílio emergencial, que pagou R$ 600 para mais de 65 milhões de pessoas, todos os outros programas de transferência de renda não foram suficientes para evitar o agravamento da fome.

 

Jose Graziano da Silva

Graziano: Conselhos de Segurança Alimentar nos municípios podem fazer muito, como organizar mutirões e campanhasFoto: Getty Images/AFP/S. Kambou

 

A pandemia agravou as vulnerabilidades e desigualdades sociais. Mas o quadro de fome no Brasil seria contínuo inevitavelmente, diante das políticas públicas (ou da ausência delas) adotadas pelo Executivo nos últimos anos?

A pandemia veio agravar o problema, mas não é sua causa original.

  • Com mais concentração da renda,
  • mais desemprego,
  • menor crescimento,
  • a situação só piorou e mais pessoas foram jogadas na miséria.

Dizer o que teria sido sem a pandemia é difícil, mas pelo mapa da pesquisa Vigisan [projeto de monitoramento da condição alimentar e nutricional do Brasil, feito pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar Nutricional – Penssan],

  • a trajetória do rápido crescimento da insegurança alimentar já era clara desde 2013 e se acentua muito em 2018.
  • A falta de política de segurança alimentar e combate à fome do governo federal agravou muito essa situação, sem dúvida.

 

O Bolsa Família foi redesenhado na gestão Bolsonaro e há especialistas que apontam riscos para o êxito futuro da política de transferência de renda pelo desmonte nas áreas de educação e saúde. Como enxerga as mudanças no programa?

A mudança que foi feita, de extinguir o Bolsa Família e criar o Auxílio Brasil, foi apenas uma jogada de marketing num ano eleitoral, para eliminar a associação do Bolsa Família com o Lula.

  • Não vi vantagem nenhuma, e isso é unânime entre especialistas, no novo desenho do programa.
  • Pelo contrário, parece até uma coisa provisória, que é para conseguir emprego formal.

Sabemos que conseguir um emprego formal não é uma questão de tempo, para quem passa fome,

  • seja pela falta de qualificação profissional,
  • seja porque não há oferta suficiente de empregos gerados na economia pelo baixo crescimento econômico.

O desenho do novo programa deixa muito a desejar.

  • Mas o mais importante, na minha opinião, é ter claro que as políticas de transferência de renda são muito importantes para o contingente de população miserável,
  • mas não resolvem o problema da fome.

O mais importante é geração de emprego e renda dentro de um processo de desenvolvimento econômico inclusivo, que distribua melhor a renda.

Isso que acaba com a fome. Políticas de transferência de renda são o que chamo de atores coadjuvantes das políticas macroeconômicas. A valorização do salário mínimo, na minha opinião, foi a grande política que tirou o país do Mapa da Fome nos governos Lula.

 

A fome é um fenômeno multifacetado, sobretudo no Brasil, pelas camadas de desigualdade. Vê alguma possibilidade de o país dar respostas céleres ao problema no momento atual?

A situação atual é dramática, em várias frentes. Mas o Brasil tem que enfrentar esse problema desde já.

  • O problema da fome não pode ser deixado para um próximo governo, em 2023.
  • Algo precisa ser feito em 2022.
  • Senão, vamos chegar a uma situação explosiva no final do ano.

A fome praticamente dobrou na pandemia, pelos dados de que dispomos.

Hoje, em 2022, com eleição, só os municípios têm condições de tomar iniciativas, já que o governo federal e os governos estaduais estão totalmente absorvidos pelo processo eleitoral.

Mas os municípios podem fazer muita coisa, restaurantes populares, feiras livres, apoio à agricultura familiar, hortas comunitárias…

  • Os municípios têm os Conseas (Conselhos de Segurança Alimentar).
  • Eles não foram extintos, como foi o Consea Federal.

E os conselhos podem fazer muito nos municípios,

  • organizar mutirões contra a fome,
  • campanhas de arrecadação e distribuição de alimentos,
  • implantar bancos de alimentos,
  • melhoria de acesso da população mais pobre a alimentos.

Algo tem que ser feito, um verdadeiro mutirão contra a fome, em 2022, para que o problema não saia do controle.

 

Existe uma espécie de negligência ou normalização do problema por parte das autoridades governamentais e da sociedade brasileira? Os movimentos da sociedade civil que tentam aplacar a fome podem ser comparados à mobilização nacional à qual assistimos na década de 90, com Betinho?

Sem dúvida há uma negligência por parte do governo federal, e muitos Estados e municípios também têm feito corpo mole. A pandemia virou a desculpa perfeita para essa inação de grande parte do setor público que lava as mãos frente à questão da fome.

A fome tem crescido assustadoramente na pandemia. O último dado que temos é uma pesquisa Datafolha, de dezembro de 2021, que mostrou que

  • 15% da população adulta, cerca de 32 milhões de pessoas, tinham deixado de comer porque não tinham dinheiro para comprar comida.
  • E 26%, ou seja, 55 milhões de pessoas, haviam comido menos do que necessitavam porque não tinham dinheiro para comprar mais alimentos no segundo ano da pandemia.
  • Isso é aproximadamente o dobro do que tinha sido registrado um ano antes pela Unicef. Ou seja, a fome dobrou no segundo ano da pandemia.

As organizações da sociedade civil estão fazendo o possível, muitas vezes o impossível. Nota-se claramente uma canseira, fadiga dos doadores. É muito difícil manter esse ritmo acelerado de arrecadação e distribuição de alimentos.

Mas uma série de outras iniciativas novas estão surgindo.

  • Ação da Cidadania está liderando, atualmente, um conjunto de entidades
  • entre as quais o Instituto Fome Zero, que eu dirijo, para realizar um encontro contra a fome ainda no primeiro semestre de 2022.
  • O objetivo é procurar organizar melhor essas inúmeras iniciativas voluntárias que surgiram no país.

Mas não há dúvidas de que a situação hoje é muito mais difícil do que era antes, no tempo do Betinho.

  • Além de atingir um número muito maior de famílias, como nunca se tinha visto antes no Brasil,
  • nós não contamos com a ajuda do governo federal. São poucos os municípios e Estados que têm no combate à fome a sua prioridade.

Eu, particularmente, que estive por 15 anos na FAO, parece que estou vendo um país em guerra. Essa é a imagem que me vem à mente quando vejo o que está se passando no Brasil, com muita tristeza.

 

Além do custo social e político, a fome tem um custo financeiro. Poderia falar sobre alguns dados e estudos sobre os impactos econômicos que a fome gera às nações?

Na América Latina temos estudos da Cepal, junto com o Programa Mundial de Alimentos, a partir de 2005. Infelizmente não tem um estudo específico para o Brasil. Mas os resultados para a América Central e República Dominicana mostram perdas de 2% a mais de 11% do PIB, em decorrência da fome, dependendo do país.

A média é de 6,4% de perda do PIB. A fome afeta a produtividade das pessoas, com maior ocorrência de enfermidades, mortes, menor nível educacional decorrente de repetência ou ausência das crianças.

Na América do Sul,

  • há estudos para a Bolívia, Equador, Paraguai e Peru por parte da Cepal e PMA,
  • que mostram uma perda, em média de 3,5% do PIB, tendo como referência o ano de 2005.

Costumo dizer que a relação custo-benefício para erradicar a fome é de aproximadamente 1 para 10 na América Latina.

Quer dizer que a cada R$ 1 investido na erradicação da fome, teríamos o retorno de R$ 10. Portanto, não fossem por razões morais e humanitárias, também do ponto de vista econômico é um grande negócio erradicar a fome até 2030.

 

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(Da IHUnisinos)

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