Malu Delgado, – 02 Março 2022 – Foto: DAQUI
Ex-diretor da FAO e coordenador do programa Fome Zero no governo Lula, José Graziano afirma que fome está em patamar que “nunca se tinha visto”. Solução depende de crescimento e renda, não só de programas sociais, diz.
A entrevista é de Malu Delgado, publicado por Deutsche Welle, 01-03-2022.
“Além de atingir um número muito maior de famílias, como nunca se tinha visto antes no Brasil, nós não contamos com a ajuda do governo federal. São poucos os municípios e Estados que têm no combate à fome a sua prioridade. Eu, particularmente, que estive por 15 anos na FAO, parece que estou vendo um país em guerra”, afirmou Graziano.
“Algo tem que ser feito, um verdadeiro mutirão contra a fome, em 2022, para que o problema não saia do controle.”
Segundo uma pesquisa realizada em dezembro de 2021 pelo Datafolha,
- 15% dos brasileiros, ou cerca de 32 milhões de pessoas, deixaram de fazer alguma refeição nos meses anteriores porque não tinham dinheiro para comprar comida.
- E 26%, ou 55 milhões de pessoas, haviam comido menos do que necessitavam porque não tinham dinheiro suficiente.
Para ele, o Bolsa Família foi um aliado crucial no combate à fome, mas apenas programas de transferência de renda não solucionam esse drama.
“O ma,is importante no programa de erradicação da fome é geração de emprego e renda dentro de um processo de desenvolvimento econômico inclusivo, que distribua melhor a renda. Ou seja, o país precisa crescer e distribuir a renda gerada. É isso que acaba com a fome.
Políticas de transferência de renda são atores coadjuvantes” afirma.
Eis a entrevista.
O Brasil construiu um longo caminho para sair, em 2014, do Mapa da Fome. Em 2017, já se observava um retorno gradual do país à conhecida situação de insegurança alimentar. Hoje, pelo menos 55% da população vive nessas condições. Quais as causas desse retrocesso?
Na verdade, a gente já vê um declínio da segurança alimentar da população brasileira a partir de 2013, que se acentua muito nos últimos anos, a partir de 2018. A questão da fome hoje no país, e sempre, é uma questão de acesso.
- Não faltam alimentos. Falta dinheiro para a população comprar alimentos.
- Já era assim no tempo de Josué de Castro [médico, nutrólogo e autor do livro “Geografia da fome”, escrito em 1946, presidiu a FAO], há 75 anos,
- e agora está muito mais acentuado.
Eu listaria cinco causas mais importantes para esse rápido crescimento da fome:
1) Consequência da crise mundial: O Brasil passa por um período de baixo crescimento econômico, abaixo de 2% [por ano] é insuficiente para gerar emprego e renda. Consequentemente, aumenta a população desempregada ou ocupada informalmente, com baixíssimos salários.
2) Queda nos salários: A inflação se acentua e culmina com uma não valorização do salário mínimo, que deixa de ser reajustado acima da inflação. O salário mínimo serve de farol para o setor informal. Pesquisa do Dieese mostrou que, no último ano, praticamente todas as categorias não conseguiram repor nem mesmo as perdas inflacionárias nas negociações salariais.
3) Corte nas políticas sociais e de segurança alimentar: Houve um desmantelamento de políticas sociais e de segurança alimentar criadas no início dos anos 2000;
4) Descontrole inflacionário, particularmente nos últimos dois anos da pandemia: A inflação dos alimentos afeta mais a população mais pobre.
5) As políticas de transferência de renda do governo aplicadas durante a pandemia, via auxílio emergencial, foram insuficientes para evitar que mais gente fosse para baixo da linha da miséria. Com exceção do primeiro auxílio emergencial, que pagou R$ 600 para mais de 65 milhões de pessoas, todos os outros programas de transferência de renda não foram suficientes para evitar o agravamento da fome.

Graziano: Conselhos de Segurança Alimentar nos municípios podem fazer muito, como organizar mutirões e campanhasFoto: Getty Images/AFP/S. Kambou
A pandemia agravou as vulnerabilidades e desigualdades sociais. Mas o quadro de fome no Brasil seria contínuo inevitavelmente, diante das políticas públicas (ou da ausência delas) adotadas pelo Executivo nos últimos anos?
A pandemia veio agravar o problema, mas não é sua causa original.
- Com mais concentração da renda,
- mais desemprego,
- menor crescimento,
- a situação só piorou e mais pessoas foram jogadas na miséria.
Dizer o que teria sido sem a pandemia é difícil, mas pelo mapa da pesquisa Vigisan [projeto de monitoramento da condição alimentar e nutricional do Brasil, feito pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar Nutricional – Penssan],
- a trajetória do rápido crescimento da insegurança alimentar já era clara desde 2013 e se acentua muito em 2018.
- A falta de política de segurança alimentar e combate à fome do governo federal agravou muito essa situação, sem dúvida.
O Bolsa Família foi redesenhado na gestão Bolsonaro e há especialistas que apontam riscos para o êxito futuro da política de transferência de renda pelo desmonte nas áreas de educação e saúde. Como enxerga as mudanças no programa?
A mudança que foi feita, de extinguir o Bolsa Família e criar o Auxílio Brasil, foi apenas uma jogada de marketing num ano eleitoral, para eliminar a associação do Bolsa Família com o Lula.
- Não vi vantagem nenhuma, e isso é unânime entre especialistas, no novo desenho do programa.
- Pelo contrário, parece até uma coisa provisória, que é para conseguir emprego formal.
Sabemos que conseguir um emprego formal não é uma questão de tempo, para quem passa fome,
- seja pela falta de qualificação profissional,
- seja porque não há oferta suficiente de empregos gerados na economia pelo baixo crescimento econômico.
O desenho do novo programa deixa muito a desejar.
- Mas o mais importante, na minha opinião, é ter claro que as políticas de transferência de renda são muito importantes para o contingente de população miserável,
- mas não resolvem o problema da fome.
O mais importante é geração de emprego e renda dentro de um processo de desenvolvimento econômico inclusivo, que distribua melhor a renda.
Isso que acaba com a fome. Políticas de transferência de renda são o que chamo de atores coadjuvantes das políticas macroeconômicas. A valorização do salário mínimo, na minha opinião, foi a grande política que tirou o país do Mapa da Fome nos governos Lula.
A fome é um fenômeno multifacetado, sobretudo no Brasil, pelas camadas de desigualdade. Vê alguma possibilidade de o país dar respostas céleres ao problema no momento atual?
A situação atual é dramática, em várias frentes. Mas o Brasil tem que enfrentar esse problema desde já.
- O problema da fome não pode ser deixado para um próximo governo, em 2023.
- Algo precisa ser feito em 2022.
- Senão, vamos chegar a uma situação explosiva no final do ano.
A fome praticamente dobrou na pandemia, pelos dados de que dispomos.
Hoje, em 2022, com eleição, só os municípios têm condições de tomar iniciativas, já que o governo federal e os governos estaduais estão totalmente absorvidos pelo processo eleitoral.
Mas os municípios podem fazer muita coisa, restaurantes populares, feiras livres, apoio à agricultura familiar, hortas comunitárias…
- Os municípios têm os Conseas (Conselhos de Segurança Alimentar).
- Eles não foram extintos, como foi o Consea Federal.
E os conselhos podem fazer muito nos municípios,
- organizar mutirões contra a fome,
- campanhas de arrecadação e distribuição de alimentos,
- implantar bancos de alimentos,
- melhoria de acesso da população mais pobre a alimentos.
Algo tem que ser feito, um verdadeiro mutirão contra a fome, em 2022, para que o problema não saia do controle.
Existe uma espécie de negligência ou normalização do problema por parte das autoridades governamentais e da sociedade brasileira? Os movimentos da sociedade civil que tentam aplacar a fome podem ser comparados à mobilização nacional à qual assistimos na década de 90, com Betinho?
Sem dúvida há uma negligência por parte do governo federal, e muitos Estados e municípios também têm feito corpo mole. A pandemia virou a desculpa perfeita para essa inação de grande parte do setor público que lava as mãos frente à questão da fome.
A fome tem crescido assustadoramente na pandemia. O último dado que temos é uma pesquisa Datafolha, de dezembro de 2021, que mostrou que
- 15% da população adulta, cerca de 32 milhões de pessoas, tinham deixado de comer porque não tinham dinheiro para comprar comida.
- E 26%, ou seja, 55 milhões de pessoas, haviam comido menos do que necessitavam porque não tinham dinheiro para comprar mais alimentos no segundo ano da pandemia.
- Isso é aproximadamente o dobro do que tinha sido registrado um ano antes pela Unicef. Ou seja, a fome dobrou no segundo ano da pandemia.
As organizações da sociedade civil estão fazendo o possível, muitas vezes o impossível. Nota-se claramente uma canseira, fadiga dos doadores. É muito difícil manter esse ritmo acelerado de arrecadação e distribuição de alimentos.
Mas uma série de outras iniciativas novas estão surgindo.
- A Ação da Cidadania está liderando, atualmente, um conjunto de entidades
- entre as quais o Instituto Fome Zero, que eu dirijo, para realizar um encontro contra a fome ainda no primeiro semestre de 2022.
- O objetivo é procurar organizar melhor essas inúmeras iniciativas voluntárias que surgiram no país.
Mas não há dúvidas de que a situação hoje é muito mais difícil do que era antes, no tempo do Betinho.
- Além de atingir um número muito maior de famílias, como nunca se tinha visto antes no Brasil,
- nós não contamos com a ajuda do governo federal. São poucos os municípios e Estados que têm no combate à fome a sua prioridade.
Eu, particularmente, que estive por 15 anos na FAO, parece que estou vendo um país em guerra. Essa é a imagem que me vem à mente quando vejo o que está se passando no Brasil, com muita tristeza.
Além do custo social e político, a fome tem um custo financeiro. Poderia falar sobre alguns dados e estudos sobre os impactos econômicos que a fome gera às nações?
Na América Latina temos estudos da Cepal, junto com o Programa Mundial de Alimentos, a partir de 2005. Infelizmente não tem um estudo específico para o Brasil. Mas os resultados para a América Central e República Dominicana mostram perdas de 2% a mais de 11% do PIB, em decorrência da fome, dependendo do país.
A média é de 6,4% de perda do PIB. A fome afeta a produtividade das pessoas, com maior ocorrência de enfermidades, mortes, menor nível educacional decorrente de repetência ou ausência das crianças.
Na América do Sul,
- há estudos para a Bolívia, Equador, Paraguai e Peru por parte da Cepal e PMA,
- que mostram uma perda, em média de 3,5% do PIB, tendo como referência o ano de 2005.
Costumo dizer que a relação custo-benefício para erradicar a fome é de aproximadamente 1 para 10 na América Latina.
Quer dizer que a cada R$ 1 investido na erradicação da fome, teríamos o retorno de R$ 10. Portanto, não fossem por razões morais e humanitárias, também do ponto de vista econômico é um grande negócio erradicar a fome até 2030.
Leia mais:
- Josué de Castro e Graciliano Ramos. A desnaturalização da fome. Revista IHU On-Line Nº 274
- José Graziano, ex-diretor da FAO, aponta papel do agronegócio no agravamento da fome
- A inflação dos alimentos comeu os salários
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(Da IHUnisinos)
