
frei Bento Domingues, O.P. – 27 fevereiro 2021
Foto: Papa Francisco e o árduo trabalho de uma reforma dentro da Igreja / Dom Total
Devemos reflectir sobre a prática actual da nomeação dos bispos e encontrar mecanismos para incluir os fiéis nos processos.
1. Quando se pede, a certas pessoas, uma informação ou uma opinião, a resposta é sempre a mesma: não sei nem quero saber e tenho raiva de quem sabe.
Se não fosse uma brincadeira, seria uma recusa definitiva de aprender. Quem nunca se engana pode repousar, para sempre, na sua ignorância. Sente-se dispensado de investigar, de estudar e também dispensa assessores.
Ficará sempre infalivelmente ignorante.
Quando, no Vaticano I (1870), foi definida a chamada infalibilidade papal, para muitas pessoas, isto equivalia a dizer:
- sabe tudo e não precisa de aprender, de investigar
- e, como é crente, pensa que o Espírito Santo o defenderá de todo o erro.
Alguém reagiu que, com tanta infalibilidade, já não seria preciso reunir mais concílios ecuménicos.
- As bibliotecas podiam ser queimadas e encerrar, definitivamente, todas as faculdades de teologia.
- Bastava uma central telefónica ligada à infalibilidade pontifícia.
Para quem tenha estudado essa decisão conciliar, sabe que não era esse o sentido, embora não deixe de levantar muitas interrogações que nunca foram respondidas de forma totalmente satisfatória [1].
No entanto, talvez não sejam essas discussões que mais preocupam o Papa Francisco.
- Ele sabe que não sabe tudo e, por isso, não tem dificuldade em dizer não sei,
- mas instiga e encoraja, não paralisa, a investigação em todos os domínios.
Como não sabe, procura escutar e fazer da escuta um comportamento eclesial.
Dessa escuta recíproca, pode nascer uma nova forma de ser humano, de ser religioso, de ser cristão.
- Sabe, por outro lado, que não pode fazer tudo sozinho
- e, por isso, não tem problema nenhum em rever as tarefas de uma Cúria em reforma
- e descentralizar o governo da Igreja para os bispos, para os párocos, para os leigos.
O movimento sinodal é a pirâmide invertida. Como desejava Yves Congar desde o Vaticano II (1963-1965), o tridentinismo, mesmo com muitos ziguezagues, perdeu força, mas ainda não está totalmente vencido.
- Não me admira que haja membros da Igreja Católica que recusem as novas orientações deste Papa.
- Também não me admira que seja considerado a figura de referência, para crente e não crentes, a nível mundial.
Ele, porém, não cultiva a “devoção ao Papa”.
Não procura os aplausos e que as pessoas estejam centradas nele.
- Por isso, relançou o movimento eclesial de saída para todo o género de periferias.
- Em vez de aplausos, estimula as pessoas acentrarem-se nos doentes, nos pobres, nos refugiados, nos descartados.
2. Já muitos escreveram que este Papa pôs a Igreja a mexer. Para uns, já mexe de mais; para outros, era preciso um decreto de mudanças de estruturas e mentalidades, isto é, o contrário de uma reforma profunda que envolve mudanças interiores que façam da reforma o fruto de uma sementeira, onde há trigo e joio.
O grão de mostarda pode tomar-se um arbusto, mas não é uma floresta. Um pouco de fermento, pode levedar toda a massa, mas é sempre em pequenas porções.São parábolas de esperança, não são dogmas.
Neste momento, já existem cristãos militantes, fervorosos, que começam a recear, depois do tempo da pandemia, propostas sobre propostas, com datas muito próximas umas das outras e em preparação simultânea:
- Jornada Mundial da Juventude 2023,
- Sínodo da Igreja 2023,
- Jubileu 2025
- e, em Junho de 2022, o X Encontro Mundial das Famílias.
Estas experiências em curso, por si mesmas, não se contradizem nem se anulam, podem tornar-se todas formas de sinodalidade. O princípio básico, defendido pelo Papa Francisco e pela Comissão Teológica Internacional (CTI), já vem da Idade Média: o que diz respeito a todos deve ser tratado e aprovado por todos (Quod omnes tangit, ab omnibus tractari et approbari debet).
3. Este princípio desafia o paternalismo clerical que não será fácil sem uma reconsideração profunda da relação estrutural do bispo com o seu “rebanho”. Isto é essencial na Igreja Católica.Com a estruturação actual, o episcopado está, em grande medida, desvinculado da Igreja local.
O teólogo dominicano Hervé-Marie Legrand vem chamando a atenção, desde há muito tempo, para um defeito que impede a plena realização da visão eclesial mais ampla do Vaticano II.
Legrand identificou duas teologias do episcopado concorrentes:
- uma baseada no serviço concreto de uma Igreja local;
- e outra que o vincula, simplesmente, ao colégio episcopal, sem qualquer relação visível a uma Igreja local, concreta.
A estrutura actual do episcopado atenuou, de forma dramática, a relação do bispo com a sua Igreja local.
Tenha-se em conta que
- quase 40% dos bispos actuais — todos os diplomatas eclesiásticos ordenados, muitos burocratas do Vaticano e todos os bispos auxiliares —
- estão assignados a uma sede titular, isto é, a uma diocese que antes existia e que, hoje, já não existe!
Deste modo, tecnicamente, cada bispo é ordenado para servir uma Igreja local, ainda que esta Igreja local não tenha nenhum membro vivo.
- Como poderá este costume não tornar trivial, insignificante, a relação do bispo com o seu “rebanho”?
- A necessária relação do bispo com o seu “rebanho” encontra-se ainda mais debilitada pelo costume, praticamente universalizado, do século XIX,
- pelo qual, o Vaticano nomeia os bispos das dioceses com uma mínima participação das próprias Igrejas locais.
Esta prática, apesar do ensino conciliar em sentido contrário (LG 27), reforça a impressão de que os bispos são meros delegados do Papa.
Por último, é preciso reconhecer a mudança de um bispo de uma sede para outra, por vezes, como uma forma de simples promoção eclesiástica.
- Uma das convicções mais partilhadas do cristianismo primitivo referia-se ao direito da Igreja local participar na nomeação do seu bispo, quer por eleição ou aclamação.
- Num dos primeiros textos que incluem um ritual de ordenação, do século III, atribuído frequentemente a Hipólito de Roma, Tradição Apostólica,
- encontramos uma insistência em que o bispo seja eleito pelo seu povo.
Quase dois séculos mais tarde,
o Papa Celestino I (422-432) ainda podia declarar:
“Não se imponha ao povo um bispo que ele não quer”.
O Papa Leão Magno (440-461) insistia:
“Quem preside a todos deve ser eleito por todos”.
Esta antiga convicção
- deveria inspirar uma reflexão sobre a prática actual da nomeação dos bispos
- e encontrar mecanismos, mais explicitamente sinodais, para incluir os fiéis nos processos de discernimento das nomeações episcopais.
Uma ordenação episcopal
- não deveria ser uma promoção honorífica ou eclesiástica,
- mas um chamamento à liderança pastoral de uma Igreja local. Nem mais nem menos [2].
Um Papa, que não sabe nem pode tudo, não dispensa ninguém de participar na construção da sociedade e da Igreja: o que diz respeito a todos deve ser tratado e aprovado por todos.
P.S.: A loucura da guerra e das ameaças de mais guerra regressaram à Europa. Precisamos de todos para fazer a paz.
[1] Cardinal Yves Congar, Église et Papauté. Regards historiques, Cerf, Paris, 2002, pp. 307-315.
[2] Cf. Richard R. Gaillardetz, La forma sinodal del ministerio y del orden en la Iglesia, in·Selecciones de Teologia, nº 240, 2021, pp. 293-300.
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Frei Bento Domingues
in Público, 27.02.2022
Fonte: https://www.publico.pt/2022/02/27/opiniao/opiniao/reforma-igreja-exige-colaboracao-1996926
