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Alberto Negri – 24 Fevereiro 2022 – Foto: DAQUI
Eis o artigo.
Mesmo quando se tornou independente em 1991, a Ucrânia continuou ausente do imaginário europeu até 2014. Uma Europa não totalmente Europa.
Ao reconhecer as repúblicas do Donbass, Putin conseguiu uma operação magistral: torná-la uma nação “mártir”, apesar dos componentes fascistas e neonazistas.
- Um país de duvidoso conteúdo democrático,
- com governos manobrados por oligarcas e uma administração corrupta,
- hoje é o símbolo da nova fronteira europeia.
Uma nação que se destaca por ter na consciência um milhão e meio de judeus exterminados com os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial e que nunca sequer processou um criminoso de guerra.
No entanto,
- esta é a nova Europa,
- onde o Dia da Memória foi arrancado do calendário
- e a secular língua russa foi excluída dos idiomas oficiais.
Não é uma Europa bonita, aliás, é bastante minguada em princípios e valores,
- que Putin, no entanto, com suas decisões
- tornou aceitável e digna de ser defendida,
- negando em seu discurso sua existência como nação soberana.
Ele criticou, como Tommaso Di Francesco apontou ontem, até mesmo Lenin, sem perceber que o despertar da Ucrânia não havia sido inventado por ele, mas já existia há tempo na história e no mito.
A Putin hoje é atribuída a maior culpa, mas a guerra ou a “quase guerra” é um crime com cúmplices.
- Em primeiro lugar, os Estados Unidos, que permitiram que as relações com a Rússia se degradassem ao máximo:
- já se passaram quase três anos desde que se retiraram do tratado sobre mísseis intermediários na Europa
- e se recusaram a negociar outro acordo que levasse em conta uma Rússia bem diferente daquela em esfacelamento de trinta anos atrás.
As próprias exigências de Moscou para conter a expansão da OTAN foram tratadas com desprezo,
- como se os EUA e a Aliança Atlântica tivessem empilhado gloriosas vitórias militares
- em vez de uma série de derrotas, do Afeganistão ao Iraque, da Síria à Líbia,
- para terminar recentemente com o Mali, onde Bamako preferiu se aliar à Companhia de mercenários russos Wagner em vez dos ex-colonialistas franceses e da Europa.
No entanto, os EUA haviam sido advertidos por George Kennan, o artífice da política de contenção da URSS, em 1997:
- “A ampliação da OTAN é o erro mais grave da política estadunidense desde o fim da Guerra Fria …
- essa decisão despertará tendências nacionalistas e militaristas antiocidentais
- … forçando a política externa russa na direção oposta à que queremos”.
E este péssimo resultado foi alcançado
- com a crise ucraniana,
- a implantação de mísseis nas fronteiras da Rússia,
- mas também com o caso da OTAN no Kosovo em 1999 e os ataques a Kadafi na Líbia em 2011:
- em ambos os casos, a OTAN e os EUA não se limitaram a “proteger” a população como prometido,
- mas implementaram mudanças de regimes e status político de regiões inteiras, afundando outras no caos.
Mas talvez o pior tenha ficado para a Europa.
Sendo impalpável uma política externa da União – Borrell é uma espécie de ectoplasma – a OTAN sobrepôs-se completamente a Bruxelas.
- Os países europeus seguiram como um rebanho o cão pastor estadunidense cujas iniciativas aceitaram,
- terminando, como no Afeganistão, por compartilhar com os EUA um desastre orquestrado essencialmente por Washington.
Afinal, o objetivo dos estadunidenses nesta crise é enviar aos europeus duas mensagens:
1) eles devem pagar cada vez mais a conta da OTAN
2) eles devem parar de comprar gás russo.
E aqui chegamos ao paradoxo:
- hoje somos nós, europeus, que financiamos os esforços bélicos da Rússia para impor sua esfera de influência.
- De fato, estamos nas mãos de Putin, que por sua vez conta conosco como clientes de primeiro escalão.
Desde que Moscou anexou a Crimeia em 2014, a dependência da Europa do gás russo foi aumentando.
- Em 2014, a União Europeia importou 30% de suas necessidades de gás de Moscou,
- mas a incidência subiu para 44% em 2020 e para 46,8% em 2021.
- Os dados para a Itália estão substancialmente alinhados com as médias europeias.
Putin sabe isso perfeitamente, tanto que Moscou apressou-se a tranquilizar os europeus, principalmente a Alemanha e a Itália, sobre o fornecimento de metano essencial para o funcionamento de suas economias.
É por isso que, apesar das sanções decididas em Londres e Bruxelas, respira-se um ar constrangedor nas capitais do continente. A própria decisão alemã de bloquear o gasoduto Nord Stream 2 com a Rússia tem um significado mais político do que concreto: este gasoduto nunca entrou em operação.
Mas o melhor está por vir.
O aumento do consumo e dos investimentos em 2021 e outros fatores contribuíram para a multiplicação do preço do gás na Europa de quatro a cinco vezes.
Assim, a Rússia também multiplicou o faturamento da Gazprom, mesmo reduzindo significativamente a oferta. A isto acrescentamos que Moscou continua a ser o principal fornecedor individual de petróleo na Europa, com uma quota de 25%.
Em suma, o motor da economia europeia está nas mãos de Putin e o dinheiro europeu está financiando o esforço bélico russo.
Sairemos disso?
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Alberto Negri
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