
frei Bento Domingues, O.P. – 13.02.2022
Hoje na mobilização das economias, o mais importante é a guerra: guerra ideológica, guerra de poderes, guerra comercial.
1. Ainda não sabemos se o diálogo evitará a tragédia da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, dois países de tradição cristã. Não nos fazia mal nenhum revisitar os começos da história cristã que muitos só conhecem com os pedacinhos dos Evangelhos das missas de Domingo e alguns nem isso. Católicos ou não, crentes ou não-crentes, vivemos todos sob a ameaça da guerra ou dos seus efeitos, globais e locais.
O mapa dos conflitos, das guerras e das ameaças de mais conflitos e mais guerras, e das suas consequências, está sempre a refazer-se e é medonho. Mas dizer que sempre assim foi e sempre assim será é colaborar na “cultura da indiferença”.
É sobretudo um insulto à nossa condição. Somos seres históricos para o bem a realizar e para o mal a evitar. O determinismo não é humano nem cristão.
O grande livro, A Arte de Viver em Deus, de Timothy Radcliffe, tem um capítulo sobre a imaginação não-violenta. É um percurso exemplar sobre a não-violência e as guerras, ao longo da história do Cristianismo. Deixo aqui apenas algumas referências [1].
Jesus cresceu numa terra que fervia de violência contra a violência dos ocupantes romanos. Os seus contemporâneos rezavam pela destruição dos seus opressores.
- Os discípulos, que o acompanharam até Jerusalém, confiavam que Ele, provavelmente, suscitaria uma rebelião.
- Mas, quando a crise chegou, Jesus recusou-se a abraçá-la.
- Ficaram perplexos e desapontados. Talvez tenha sido esse facto que impeliu Judas à traição.
Os discípulos, a caminho de Emaús, lamentam-se a um estranho que os surpreendeu: esperávamos que fosse Ele o que viria redimir Israel (Lc 24,21). Não tinham entendido o alcance do ensinamento do Mestre. Hoje, também poucos cristãos seguem o seu radicalismo.
Nos primeiros séculos, a conversão a Jesus Cristo implicava a rejeição de toda a violência.
- Os cristãos negaram-se a participar na rebelião do ano 70.
- Durante os três primeiros séculos, com poucas excepções, recusaram-se a servir o exército ou a aceitar qualquer cargo que pudesse envolver a aplicação da pena de morte.
- Os soldados que eram baptizados depunham as suas armas — o que redundava, muitas vezes, no próprio martírio.
O mártir S. Justino, que morreu cerca do ano 165, escreveu:
“nós, que estávamos fartos de guerra, de mútua chacina e de toda a maldade, transformamos os nossos instrumentos de guerra: as nossas espadas em arados e as nossas lanças em alfaias de agricultura. Cultivávamos a piedade, a justiça, o amor da humanidade, a fé e a esperança”.
Maximiliano foi decapitado por se ter negado a fazer parte do exército romano. Quando foi julgado, declarou:
“não posso servir o exército. Não posso praticar o mal. Não serei um soldado deste mundo. Sou um soldado de Cristo.”
O sim ao Deus da vida era um não indiscutível à violência.
Depois da conversão de Constantino (312) [2], esse radicalismo foi esmorecendo.
- A partir de Santo Agostinho (séc. V), passou a discutir-se sobre a guerra justa e injusta.
- Mais tarde, os soldados foram enviados para os campos de batalha por bispos e papas.
- Perdia-se a imaginação cristã da não-violência e nem sequer havia uma palavra para ela até ao início do século XX.
Foi Mahatma Gandhi que chamou ao seu modo de luta, que travou contra a Inglaterra, prática da não-violência.
Ao dirigir-se às Nações Unidas, em 1965, Paulo VI repetiu praticamente as palavras de Jesus aos seus discípulos:
“nunca mais a guerra. Se desejais ser cristãos, abandonai as armas. O amor dos inimigos é o âmago da revolução cristã”.
O século passado foi, talvez, o mais violento da história humana:
- os massacres de duas guerras mundiais,
- a chacina de povos inteiros, desde os arménios, na Turquia, até ao Ruanda.
O termo genocídio foi inventado para descrever o holocausto mecânico dos judeus, na Shoah, desenvolvendo toda a eficiência da moderna tecnologia. No século passado,
- foram lançadas as bombas atómicas sobre Nagasáqui e Hiroxima,
- o assassínio de centenas de milhões de pessoas por Estaline, Mao Tsetung e Pol Pot.
Vivemos
- a ascensão do jihadismo violento, o culto da morte do Daesh, a fúria cega do Boko Haram,
- a chacina de muçulmanos e de cristãos na Índia,
- o massacre de crianças nos bairros pobres dos EUA,
- a violência, ataques e raptos aumentam de novo em Cabo Delgado (Moçambique).
Estes surtos de violência horrenda são, frequentemente, descritos como medievais. Infelizmente, são mais típicos da modernidade.
Como diz o citado P. Timothy, se o Cristianismo conseguir influenciar a imaginação dos nossos contemporâneos, será, decerto, mediante a recuperação da não-violência radical de Jesus.
2. No recente diálogo do Papa com Fabio Fazio, no programa televisivo Che tempo che fa, declarou que a guerra é um contra-senso, uma loucura:
“Na imaginação universal o que conta é a guerra, a venda de armas. Basta pensar que com um ano sem produzir armas, se poderia dar de comer e educação a todo o mundo, gratuitamente.”
Hoje, na mobilização das economias, o mais importante é a guerra: guerra ideológica, guerra de poderes, guerra comercial e tantas fábricas de armas.
- Trabalhar a terra, tomar conta dos filhos, manter uma família, fazer a sociedade crescer, é construir.
- Fazer a guerra é destruir. É mesmo uma mecânica de destruição.
A crescente interdependência e a globalização significam que
- a resposta que se der à ameaça de armas nucleares deve ser colectiva e planeada, baseada na confiança recíproca,
- que só pode ser construída através do diálogo sinceramente dirigido para o bem comum e não para a tutela de interesses velados ou particulares.
Com o dinheiro usado em armas e noutras despesas militares, constituamos um fundo mundial, para acabar de vez com a fome e para o desenvolvimento dos países mais pobres, a fim de que os seus habitantes não recorram a soluções violentas ou enganadoras, nem precisem de abandonar os seus países à procura duma vida mais digna [3].
Ao voltar à questão dos migrantes, o Papa sublinha:
“devemos pensar inteligentemente na política migratória, uma política continental. O facto de o Mediterrâneo ser, hoje, o maior cemitério da Europa deve fazer-nos pensar.”
3. Não é só o fabrico e o comércio de armas que constituem uma vergonha. Mais vergonhoso ainda é o comércio de seres humanos. Como diz o Papa Francisco [4],
- o tráfico de pessoas, por meio da exploração doméstica e sexual,
- devolve violentamente mulheres e meninas ao seu suposto papel de subordinadas à prestação de serviços domésticos e sexuais, ao seu papel de cuidadoras e doadoras de prazer,
- que repropõe um padrão de relações marcado pelo poder do género masculino sobre o feminino, ainda hoje e ao mais alto nível.
Para combater a cultura da indiferença, instituiu o dia 8 de Fevereiro como Dia Mundial de Oração e Reflexão contra o Tráfico de Pessoas. Essa data não está esquecida.
Na passada terça-feira, a União Internacional das Superioras e dos Superiores Gerais e a Rede Talitha Kum promoveram uma maratona de oração, de reflexão e de testemunhos contra uma vergonhosa actualidade.
Não à guerra, não à violência!
NOTAS:
[1] Cf. pp. 180-199.
[2] Em 313, Constantino reconheceu oficialmente o cristianismo como religião pelo édito de Milão
[3] Fratelii Tutti, 262.
[4] Mensagem do Papa para o Dia Mundial de Oração e Reflexão contra o Tráfico de Pessoas, 7.02.2022.
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Frei Bento Domingues
in Público, 13.02.2022
Fonte: https://www.publico.pt/2022/02/13/opiniao/opiniao/cultura-indiferenca-negocios-guerra-1995236
